A PANDEMIA DO BARULHO

Nasci em Itajaí no ano de 1956 e nunca senti essa sensação de ocupação total e desordenada dos espaços públicos que sinto nos dias de hoje. Para todos os lados que olho tem uma multidão. Não há mais um cantinho sequer onde posso contemplar a natureza, andar calmamente ou sentar em um banco sem que escute barulhos de canos de escapes desregulados, buzinas de carros e caminhões em engarrafamentos, sons alucinantes de pequenas caixas de som. Praças, ruas, praias, mirantes, rodovias, pesque-pagues … tudo lotado. Não há dúvida de que o silêncio é a grande vítima da pandemia do Coronavírus, transformando a era pós pandemia em um tempo de culto ao barulho.

Saídas do confinamento social imposto pela pandemia as pessoas demonstram uma intensa necessidade de ver gente, fazer barulho, gritar por liberdade e refazer sociabilidades. Parece que elas sentem como se estivessem acordando de um estado de coma prolongado, e, agora, desejam recuperar o tempo perdido. Demonstram que estão com pressa, agitadas, irrequietas. Nesse momento, quanto mais barulho melhor, quanto mais gente melhor, quanto mais agitação melhor. As pessoas querem aproveitar intensamente o momento como se não houvesse amanhã. Elas perderam a tranquilidade e o senso de aproveitar o tempo ao seu tempo, um dia após o outro, com parcimônia. Querem tudo agora, nesse exato momento. Um ambiente psicológico de ‘presentíssimo’², onde as referências existenciais de passado e futuro são completamente anuladas. Só existe o presente e, ele deve ser vivido intensamente.

Quando passo por alguns pontos do meu ‘território de infância’¹ é inevitável que faça algumas comparações – confrontando imagens do presente e do passado – demonstrando total perplexidade com o que está ocorrendo atualmente. Ali, na rua Indaial, eu andava sobre os trilhos do trem para transitar entre o Bairro São João e o Parque Dom Bosco. Era um caminho de brincadeiras e raramente via um carro ou carroça passando na rua que corria paralela aos trilhos. Hoje, está quase impossível transitar pela rua Indaial, porque tem engarrafamento a toda hora em qualquer dia da semana.

Por toda a cidade existiam grandes áreas de terras não cercadas que serviam para a improvisação de um número interminável de campinhos de futebol. Era difícil encontrar uma rua que não tivesse pelo menos um campinho de futebol com piso de cepilho e pó-de-serra. Eram as nossas áreas de lazer, improvisadas, sem a necessidade da Prefeitura gastar dinheiro com infraestrutura e equipamentos. Hoje, é carro para todos os lados – transitando e parado. Encontrar uma vaga de estacionamento nas ruas de Itajaí é uma missão que requer muita paciência mesmo nas áreas urbanas periféricas. Todo mundo quer carro e moto, deixando o transporte coletivo à mingua, sobrevivendo às custas do favor público. Sem a rua para exercer suas sociabilidades o povo ruma, em fila, para a área litorânea. Diariamente, uma multidão ocupa o ‘Caminho de Sodegaura’ em direção à Cabeçudas. A Praia Brava, que era uma praia agreste, onde cheguei a acampar e pescar em total solidão, está sendo minada por condomínios de luxo compostos por edifícios gigantescos. Já não existe limite visível entre as cidades de Itajaí e Balneário Camboriú e, tudo indica que em menos de uma década o mesmo deve ocorrer em direção a Brusque, Ilhota e Camboriú.

Meu ‘território de infância’ foi invadido por uma horda de bárbaros que no lugar de usar espadas usam caixas de som e buzinas. [magrufloriano2008@gmail.com].

 

 

1 – Território de infância – expressão utilizada por Lausimar Laus.

2 – Presentíssimo – termo utilizado por Magru Floriano no seu ensaio intitulado ‘O tempo da história – reflexões sobre o tempo, memória e história’, ainda em manuscrito.

ARTE OU VANDALISMO ?

Monumento alusivo aos 500 anos do descobrimento do Brasil – Praça João Bauer – tendo ao fundo o muro do Grupo Escolar Victor Meirelles.

Quem costuma andar com calma pela cidade está habituado a apreciar inúmeras obras de arte elaboradas tendo como base grandes áreas muradas. Terminal Portuário de Itajaí – rua Blumenau; Forum Universitário – avenida vereador Abraão João Francisco; Casa da arte – rua Silva; Grupo Escolar Victor Meirelles – Praça João Bauer … são alguns bons exemplos da arte do grafite exercida com maestria em Itajaí. Contudo, também encontramos muita pichação [pixo], principalmente nas praças públicas e seus monumentos. A diferença entre grafite e pichação já rendeu muita polêmica no meio artístico e, pelo jeito, vai continuar rendendo por muito tempo.

A Praça João Bauer, em pleno centro da cidade de Itajaí, é um bom exemplo desse embate feroz entre grafite e pixo. Enquanto os muros do Grupo Escolar Victor Meirelles estão servindo de base para a arte do grafite – merecendo de todos os transeuntes aprovação e reconhecimento – pisos e bustos dessa mesma praça estão servindo de base para a manifestação dos adeptos da pichação. Contudo, ao contrário do que acontece com a arte no muro, a pichação não tem a aprovação da população e usuários da praça, muito pelo contrário.

A arte de muro tem um apelo estético voltado para a imagem colorida, com um visual muito próximo das artes de galerias e, por isso mesmo, dando um aspecto mais saudável para o ambiente da cidade. Bonitas e coloridas as obras do grafite acabam até mesmo valorizando o imóvel que utilizam como referência. Obviamente que todo mundo prefere o grafite à estética do abandono. Em contrapartida o pixo deteriora e desvaloriza o patrimônio que usa como base. Na Praça João Bauer o próprio busto do político que empresta seu nome àquele espaço público é reiteradamente pichado, o mesmo ocorrendo com o monumento alusivo aos quinhentos anos do descobrimento do Brasil.

O grafite usa mais a imagem, enquanto o pixo utiliza mais a escrita. O gravite é uma arte de rua que valoriza o espaço que ocupa, enquanto o pixo está vinculado ao protesto contra a sociedade de modo geral. É a política da degradação de um bem para ferir valores da sociedade, como propriedade e estética burguesas. O pixo, portanto, será sempre vinculado à arte de protesto, arte marginal ao sistema, seus valores e vultos. Não é por acaso que o busto de João Bauer sempre merece por parte dos pichadores um bigodinho no estilo Hitler, apesar dos pichadores saberem muito pouco ou quase nada sobre a vida e obra desse político itajaiense. É o protesto pelo protesto. O protesto que se basta em si mesmo. “O meio é a mensagem’ como sentenciava o canadense Marshall Macluhan.

Mas será que podemos considerar a pichação de um monumento, este em si um objeto de arte, como uma forma de expressão artística? Até que ponto pichação e arte podem tem fins comuns? Qual a fronteira entre vandalismo e pichação? A arte que destrói e corrompe uma outra obra de arte pode ser considerada arte? Ela é útil, necessária, aceitável, desejável, ética …? Em um mundo padronizado, acinzentado, poluído … agir para deteriorar obras de artes em ambientes abertos públicos, deixando tudo ainda mais feio, é uma ação que tem mérito? Ação que enfeia o que é belo pode ser considerada uma ação artística? O feio também pode pertencer ao campo da arte? Enfim, o pixo é arte ou deve, tão-somente, ser visto como uma ação política?

Essa tendência de desvalorizar o patrimônio [público e privado] que lhe serve de base, obviamente, confere ao pixo uma condição existencial de marginalidade. Destruir, enfear, desvalorizar, desmotivar… são todos verbos negativos que, inevitavelmente, estão sempre vinculados à prática do pixo. Uma negatividade marginal que é desejada por seu autor, sempre um militante, um ator engajado na luta contra a sociedade e seu status quo. Ao pichar um monumento o que se busca é agredir o sistema e sua estética conformista e hegemônica. Sem utilizar imagens e, sequer formular uma frase inteira com sentido e mensagem, o pixo pretende dizer tudo através do ato em si. Sendo assim, sequer precisa se explicar e ter sentido. Por isso que alguns críticos consideram a pichação como a mais pura das expressões artísticas, uma vez que ela não passa por filtros da cultura ocidental como razão, consciência, lógica …. é lava incandescente vinda diretamente de um vulcão em ebulição chamado inconsciente.

Contudo, parece evidente que o movimento apresenta inúmeras contradições. A principal delas está nitidamente representada na disputa por conquistar território através das pichações cada vez mais ousadas e onipresentes. Essa ubiquidade busca, por sua vez, conquista de status entre seus adeptos tribais. Então, ao mesmo tempo que nega todos os valores da sociedade contemporânea, volta-se sobre sua própria essência para desejar uma omni praesentia que lhe confere status na tribo marginal. Não fosse esse desejo de onipresença territorial as marcas deixadas não seriam todas padronizadas e seus feitores fariam marcas diferentes e aleatórias a cada intervenção. Mas, cada membro tribal tem sua marca e esta, por sua vez, merece reconhecimento dos demais e, por isso mesmo, tem status.

Colocar uma marca em lugar de difícil acesso, demonstrando ousadia e destemor, rindo do perigo, confrontando proprietários e autoridades, apresentando à cidade o improvável e o inútil … confere ao seu autor status e reconhecimento. Essa compensação social, mesmo que restrita à pequena tribo urbana dos pichadores, confere aos demolidores da estética urbana burguesa a possibilidade da construção de uma nova ordem estética. Então, querendo eles ou não, ao destruir estão construindo. O que resta, no silêncio de todas as madrugas em que atuam os pichadores, é saber se o que pretendem destruir vai dar lugar a algo melhor para eles e para todos os seres vivos sobre o planeta terra.

Afinal, o ato político da pichação é uma utopia ou distopia?

UMA CASA NA MEMÓRIA

È muito difícil alguém passar por uma casa com telhado no estilo ‘mansarddach’ sem que tenha a curiosidade aguçada. Afinal, a casa ganha uma estética diferenciada, mais pomposa, destacando as janelas do sótão. A invenção desse tipo de telhado é atribuída ao arquiteto francês Fançois Mansart [1598-1666] mas ele foi muito utilizado pelos imigrantes de origens alemã e italiana em todo o Vale do Itajaí. Segundo definição de Angelina Wittmann, o telhado de mansarda é constituído por “… panos de telhados dobrados (no Brasil chamado de água) na parte inferior, de tal maneira que a superfície inferior da cobertura, geralmente um sótão, existe em declive mais íngreme do que a parte superior. Duas inclinações diferentes no pano de telhado. Este tipo de disposição de duas inclinações cria um espaço adicional no sótão.”

Sempre que passo por uma casa com ‘telhado de mansarda’ recebo uma profusão de  informações vindas do passado, através das lembranças de vozes, cheiros, imagens, sensações as mais diversas. Elas são oriundas do meu tempo de criança, quando passava regularmente minhas férias de inverno no sítio de meus tios na localidade de Machados, no antigo bairro de Navegantes, acessando o outro lado do rio através da passagem da balsa na Barra do Rio. Os Duarte tinham uma casa com este tipo de telhado, com várias águas, formando um sótão mais espaçoso e vistoso.

Como o meu tio era dono de venda, o espaço a mais que a ‘mansarda’ dava ao sótão era reservado para depósito de mercadoria a granel. Uma grande caixa de madeira, com compartimentos estanques para depositar milho, arroz, feijão … ficava à frente de nossas camas. Estas, contendo colchões de palha de milho, com travesseiros preenchidos com pena de aves domésticas. São esses cheiros que me invadem a mente quando avisto uma casa de mansarda. Também vem à lembrança a vista da janela do sótão para a rua geral dos Machados, ainda em terra batida. Chego a escutar o barulho dos meus pés subindo os degraus da escada de madeira e as vozes dos meus primos e suas brincadeiras corriqueiras antes de dormir – incluindo a tradicional guerra de travesseiros.

Aqui em Itajaí ainda consigo ver algumas casas com telhados de mansarda, nas áreas urbana e rural. Recentemente foi demolida a casa da família de Pedro Muller, na rua Anita Garibaldi. Mas, resiste ao tempo uma linda casa localizada na rua Pedro José João – rua geral do Matadouro. A família Furtado mantém uma casa com telhado de mansarda ‘cortado’, em plena avenida Joca Brandão. A mais destacada dessas casas era de propriedade da família Pereira e ficava às margens da Estrada para Florianópolis, depois nomeada de Rodovia Osvaldo Reis, quase ao pé do Morro Cortado. Na frente da casa tinha uma grande figueira que acabou dando a denominação de Figueirinha para toda a localidade.

No interior, volta e meia encontramos uma casa dessas perdida na paisagem.

casa da Família Muller – rua Anita Garibaldi.

 

rua Pedro José João – rua geral do Matadouro

 

Casa da Família Pereira – Av. Sete de Setembro – demolida.

Itaipava

casa comercial na rua Uruguai

Comércio da Família Pereira às margens da rodovia Osvaldo Reis – 1971.

Casa da Família Furtado na avenida Joca Brandão.

A CRIATIVIDADE ARTÍSTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Durante toda a sua vida artística William Shakespeare teve de conviver em ambientes hostis, impregnados pela peste. Muitas foram as vezes que os teatros londrinos foram fechados por longo período, até que as autoridades sanitárias entendessem que a situação estava sob controle. Mas, enquanto estava parado, sem poder encenar suas peças teatrais, o grande dramaturgo aproveitava o momento de isolamento para escrever obras majestosas como Rei Lear e Macbeth, sem falar de seus poemas – pouco apreciados aqui no Brasil, mas reconhecidos como verdadeiras obras-primas da literatura mundial.

A adversidade nunca parou o gênio criativo. Assim como Shakespeare gestou em plena epidemia o seu Rei Lear, muitos outros autores criaram obras-primas em ambientes adversos ou depois de passar por adversidades extremas, como doenças graves, prisões, exílios, guerras e pestes. Memórias do cárcere de Graciliano Ramos é um exemplo de literatura de alto nível retirada da experiência da prisão política; enquanto Albert Camus e Frida Kahlo gestaram suas obras no isolamento imposto por questões de saúde. São tantos os artistas que criaram no exílio, prisão, guerra, pandemia, confinamento ou isolamento que a lista seria quase que interminável.

Diante dessa constatação é que considero válida a pergunta formulada por Flávio de Souza no ensaio ‘O que faz um dramaturgo quando os teatros estão fechados?publicado no livro ‘O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe’: Será que algo de bom, ótimo, excelente pode estar sendo causado em meio a tanto pavor, desespero, recessão econômica, desemprego e paralisação de vida cultural – além de mortes, traumas, perdas e danos?

Baseado na experiência de vida de Jean-Jacques Rousseau, Henry David Thoreau, Graciliano Ramos, Aleijadinho, Frida Kahlo, Albert Camus, William Shakespeare, Victor Hugo, Giovanni Boccacio, Pablo Picasso, Erich Maria Remarque, Miguel de Cervantes … o que podemos esperar em termos de produção criativa no pós-pandemia do Coronavírus? Em março de 2022 estamos completando um ciclo de dois anos de isolamento social motivado pela pandemia e, muito pouco se tem visto anunciar como algo novo e extraordinariamente digno de ser chamado de obra-prima em qualquer setor das artes. Será que tudo ainda está sendo gestado no silêncio anônimo do isolamento domiciliar?  Será que tudo estará sendo revelado aos poucos, com o passar dos tempos, no declínio da peste?

A sociedade brasileira, nesses dois anos, conviveu com a morte de 655.000 cidadãos e com a infecção pelo vírus de quase 30.000.000 – isso mesmo, trinta milhões de brasileiros foram infectados pelo coronavírus em dois anos de pandemia. Será que esse ambiente hostil ao extremo, ceifando quase um milhão de vidas, não mexeu o suficiente com a angústia do gênio, como a trincheira da guerra mexeu com Richard Flanagan, Euclides da Cunha e Erich Maria Remarque? Será que nosso tempo gestou a peste mas não gestou o gênio? [magrufloriano2008@gmail.com].

90 anos do voto feminino

Até 1932 política era atividade exclusiva dos homens

No dia 24 de fevereiro os democratas brasileiros comemoram a passagem dos noventa anos da conquista do direito ao voto pelas mulheres. Foi nessa data que o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto de número 21.076, alterando o Código Eleitoral para consagrar às mulheres esse direito elementar da cidadania. Uma luta que tem seu primeiro capítulo no ano de 1891, quando foi votado e recusado o pedido de emenda à Constituição para garantir às mulheres o direito ao voto. Em Itajaí, a luta das mulheres iniciou no ano de 1929 por iniciativa de Ignez Oliveira, consolidado em 1933 quando Anna Zibardi Rodi depositou seu voto numa urna.

Em Itajaí, como nos demais municípios brasileiros, a mulher tinha seu papel restrito ao lar. O jornalista Juventino Linhares representa muito bem essa cultura de época ao escrever no jornal O Pharol de 1928:

Não pode existir cousa mais pittoresca do que mulher votar. É o mesmo que homem pregar botão na camisola de creança, passar a ferro as toalhas da mesa ou ir para a cosinha botar pão de lot em panella de barro […] Só podem ser favoráveis a essa história de voto feminino, os homens Maricas que vestem calças por engano e as mulheres de bigode que usam vestidos por distracção.”

Não obstante essa cultura enraizada entre gente de todas as classes sociais, a ideia de dar às mulheres direitos de cidadania plena foi ganhando campo até que membros do Partido Liberal Catharinense resolvem montar um comitê feminino para propaganda dos ideais liberais democráticos em agosto de 1929. Logo depois, às portas da Revolução de Trinta, a secretária Ignez Oliveira requer seu alistamento eleitoral e declara voto ao oposicionista José Eugênio Müller. O juiz nega o pedido, mas seu ato pioneiro corre como rastilho de pólvora pelo território catarinense.  Com a vitória dos revoltosos de 1930 a mulher ganha a condição de eleitora. Em Itajaí, o primeiro voto feminino oficial foi de Anna Zibardi Rodi, na eleição de maio de 1933.

A história do Poder Legislativo itajaiense evidencia essa dificuldade da mulher conquistar seu lugar na cadeia de comando social. Neoflides Vieira Wendhausen ocupou a cadeira de vereadora em 1950 e somente em 2001 Jussara Panplona foi eleita a primeira mulher presidente da Câmara de Vereadores de Itajaí. No Poder Executivo os obstáculos enfrentados pelas mulheres são os mesmos. O eleitor itajaiense elegeu Eliane Rebello e Dalva Rhenius vice-prefeitas, mas ainda não deu a oportunidade de uma mulher sentar na cadeira de prefeita da cidade. No Poder Judiciário o destaque fica por conta da juíza Sônia Moroso Terres que por anos consecutivos respondeu como diretora do Fórum da Comarca de Itajaí. [magrufloriano2008@gmail.com]

O RADIOAMADORISMO EM ITAJAI

Rua Pedro Ferreira e a sede da Foto Juca.

A História da atividade de radioamadorismo em Itajaí inicia com Sady Magalhães ao instalar, no dia 10 de agosto de 1935, equipamento completo de transmissão visando promover demonstração para a imprensa e possíveis futuros adeptos dessa atividade em Itajaí. Na oportunidade, Sady comunicou-se com o capitão Oswaldo Masson – oficial do Exército e chefe do Departamento de Comunicação da Liga de Amadores Brasileiros de Radio-Emissão.

Após a iniciativa de Sady Magalhães a atividade de radioamadorismo rapidamente ganhou adeptos na região de Itajaí, notadamente, junto ao pessoal cuja atividade profissional obrigava viagens longas, como é o caso dos embarcados e caminhoneiros. Contudo, na década de 1970, a atividade decaiu a ponto do jornal A Nação publicar, na sua edição de 03 de junho de 1972, uma reportagem com o título “Onde se encontram os nossos radioamadores”. Nas páginas desse jornal colhemos o registro de alguns radioamadores históricos de Itajaí: Pedro Souza, Alcebiades de Oliveira, José Marçal Dutra, Francisco José Pfeilsticker, Jorge Saad, Nereu Schiefler, Hélio Bernardino da Silva, Rodolfo Krause, Eugênio Krause, Egon Schauffert, Eurico Krobel, Gláudia Dutra Fiorenzano, João Valécio Rebelo, Cicre Buatim, Carlos Fernandes Priess, João Hercílio da Cunha, José Luiz Collares.

A reportagem do jornal traz um testemunho sobre as atividades de José Marçal Dutra, o conhecido Juca Fotógrafo, que muito bem representa o espírito comunitário da atividade do radioamadorismo:

‘Quantas vezes vimos o Juca Fotografo, o maior incentivador do radioamadorismo em Itajaí, atender madrugada adentro, uma pessoa que necessitava avistar-se com parentes em cidade distante?”

 

Foi justamente esse espírito comunitário que fez a atividade do radioamadorismo ser de extrema importância para os moradores de todo o Vale do Itajaí atingidos pelas grandes enchentes de 1983 e 1984. A atividade dos radioamadores foi decisiva na formação de uma rede nacional de solidariedade às vítimas das enchentes e, até mesmo, que fosse possível montar uma extensa rede de apoio logístico integrando voluntários e órgãos públicos.

Não obstante esse passado de glórias, a atividade de radioamadorismo encontra-se bastante restrita nos dias atuais, principalmente, por sofrer a concorrência de outras tecnologias digitais e suas redes sociais. Mesmo assim, os clubes de radioamadores sobrevivem em praticamente todas as grandes cidades de Santa Catarina, tocados por esportistas de diversos setores, como é o caso de trilheiros e alpinistas.

Fonte: Itajaipedia, A Nação – 03 de junho de 1972.

A cruz deitada ao lado da Igreja Matriz de Itajaí

Muitos turistas e moradores de Itajaí, ao passarem pelo Largo da Matriz do Santíssimo Sacramento demonstram curiosidade sobre a origem e o significado de uma cruz deitada em plena Praça Pio XII. Por que ela está deitada? Quando foi colocada ali? O que significa? São algumas das perguntas que ouvimos corriqueiramente.

Foto das duas cruzes ao lado da igreja

No livro ‘A matriz de todos nós – 02” a memorialista Rosa de Lourdes Vieira Silva atribui a presença da cruz na Praça Pio XII exclusivamente ao legado deixado por missões evangelizadoras realizadas pelos padres capuchinhos [1948] e pelos religiosos redentoristas [1954]. Segundo testemunha: “A marca da passagem deles ficava numa CRUZ do amor e da fé. Uma, inclusive, ficou no jardim ao lado da Matriz.” O texto é ilustrado com uma foto da cruz deitada contendo a legenda: “Marca do que passou”. Não obstante a autora não dizer textualmente tratar-se da mesma cruz – a referida por ela no texto e a da foto – tudo leva à esta associação, ou seja, a cruz deitada é, para a escritora, a cruz original deixada pelos missionários.

Contudo, relatos que circulam na Família Garcia, da qual sou integrante, questionam esta versão. Segundo ouvi na juventude em rodas de conversa em família, a cruz deitada tem diversos significados: substitui as duas cruzes originais, feitas de madeira, pelos padres visitantes, mantendo o registro das missões na história da cidade; faz referência à Via Crucis ou Caminho da Cruz. Não seria, portanto, essa cruz de cimento, uma das cruzes originais deixadas pelos padres missionários.

A cruz após a reforma da praça – 2021

O historiador Edson d’Ávila relata que chegou a ouvir o ex-prefeito Lito Seára sobre o tema. Segundo esse relato, a cruz foi colocada ao lado da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento quando a Municipalidade reurbanizou toda a área abrangida pela nova avenida Vasconcelos de Drummond – atual avenida Marcos Konder. Lito garantiu em seu depoimento que os padres em comum acordo com a Municipalidade buscaram algo que simbolizasse a fé cristã dos itajaienses. A cruz deitada seria essa representação simbólica.

Edson d’Avila também usa de sua própria vivência para afirmar que ‘Eu cheguei a ver aquela cruz de madeira que ficava onde hoje está o pequeno oratório em louvor de Nossa Senhora de Fátima. Era uma cruz de madeira, pintada de preto, com dois dizeres em branco. Na parte de cima estava escrito: “Salva a tua alma” e, na parte inferior, estava escrito: “Santas Missões” seguido das datas das realizações das mesmas”. Fazendo um exercício de memória, já que não estava diante de material de consulta durante a entrevista, Edson relatou que a construção da Praça Pio XII ocorreu por volta do ano de 1959, enquanto a cruz deitada foi posta no centro da praça quando da sua revitalização entre 1968 e 1969. Mais, as duas cruzes – a cruz deitada e a cruz missionária – conviveram no local por alguns anos, o que, definitivamente, comprova que não se trata da mesma cruz.

A MORTE DE JOCA BRANDÃO

A local da cruz deitada também marca um fato histórico relevante para a comunidade itajaiense: a morte de Joca Brandão. Segundo relatos orais e alguns poucos depoimentos registrados em jornais de época, a comunidade cristã de Itajaí realizou no dia primeiro de novembro do ano de 1930 uma grandiosa missa em ‘ação de graças’ à vitória da Revolução de Trinta. Após a missa, autoridades e fiéis, foram até o local onde estava a sepultura do ex-prefeito Pedro Ferreira, para lhe fazer um ato de desagravo, já que este era considerado uma das vítimas políticas da ‘Velha República’. Várias pessoas discursaram e, quando chegou a vez de Joca Brandão discursar e depositar um ramalhete de flores sobre a lápide do ex-prefeito, emocionado, teve um mal súbito e faleceu.

Edson d’Ávila lembra ainda que as crianças, por um bom tempo após o ocorrido com Joca Brandão, costumavam recitar um versinho sobre a tragédia em tom de ironia:

Viva o Joca Brandão

Foi dar um discurso

Caiu no chão

Portanto, o local onde está colocada a cruz deitada traz em si muitas referências históricas para Itajaí: abrigou a sepultura do ex-prefeito Pedro Ferreira; serve de local para homenagear o Papa Pio XII; guarda a cruz deitada que simboliza a fé cristã do povo itajaiense e mantém vivo o legado dos padres missionários; é o local do falecimento de Joca Brandão.

BASE DE CONSULTA

– D’ÁVILA, Edson – entrevista a 16 de fevereiro de 2022 – Arquivo Histórico de Itajaí

– VIEIRA SILVA, Rosa de Lourdes. A matriz de todos nós – 02. Blumenau: Gráfica e Editora 3 de Maio ltda, 2018.

– FLORIANO, Magru – relatos orais da Família Garcia.