O COLECIONISMO EM ITAJAI E A CRIAÇÃO DA ACRI – ASSOCIAÇÃO DOS COLECIONADORES DA REGIÃO DE ITAJAÍ

O colecionismo é uma atividade presente na sociedade itajaiense desde os seus primórdios e, nos últimos tempos, vem se fortalecendo como atividade que apresenta um misto de cultura, lazer e investimento. Entre os colecionadores antigos de Itajaí encontramos o nome de Joca Brandão [peças indígenas, religiosas e jornais], Joaquim Douwet Diniz [moeda e selo], Camilo Mussi [moeda, cédula, selo], Félix Eugênio Reichert [moeda, cédula, selo], Eduardo Schmitt [selo, cartão postal], Juventino Linhares e Arnaldo Heusi [jornal], João Amaral Pereira [brinquedo e diversos objetos do cotidiano]. Nos dias atuais podemos destacar os colecionadores: Marcelo Sagaz [camisa do Clube Náutico Marcílio Dias], Jules Soto [moeda, quadro], Carlos Guérios [moeda, cartão postal inglês], Manoel Castro Júnior [moeda brasileira], Fernando Humberto Delatorre [imagem e som], Dollor Silva [livro de Itajaí], Magru Floriano [livro de Itajaí, quadro de Itajaí], Eliezer Patissi [música], Edson d’Ávila [imagem sacra, quadro], Ari Garcia Miranda [documentos de Lauro Müller, cartão postal].

A atividade do colecionismo de iniciativa particular é um grande aliado das instituições públicas que tem como escopo a guarda da memória de nossas comunidades. Muitas das coleções particulares serviram como acervo inicial de algumas das mais importantes instituições de preservação como são os casos dos arquivos históricos e museus. Os Arquivos Públicos de Camboriú e Balneário Camboriú contaram com doações expressivas de Isaque de Borba Corrêa e Jurandir Knabben. O Museu de Azambuja contou com o acervo do itajaiense Joca Brandão. O Museu de Itajaí contou com os acervos de João Amaral Pereira e Marcos José Konder. O Arquivo de Itajaí contou com os acervos de colecionadores de jornais como Juventino Linhares, Arnaldo Heusi, Edson d’Ávila, Félix Fóes, Magru Floriano e muitos outros doadores anônimos. O Museu Oceanográfico da Univali contou com o acervo de Jules Soto.

O setor conta com algumas coleções temáticas que resistem ao tempo, como é o caso das coleções de moeda, selo, documentos, cartão postal. Algumas coleções desaceleram junto com o desuso de determinada tecnologia, como é o caso do cartão de telefone. Outras, sumiram sem sequer dizer porque, como são os casos das coleções de  flâmula, chaveiro e adesivo plástico para carro. A verdade é que as coleções sofrem a influência do seu tempo. Um exemplo atual é a coleção de gibi que passaram a englobar também os mangá japoneses. Apesar dos modismos, alguns aficionados mantêm fidelidade ao conceito original de sua coleção. É o caso de Carlos Poleza que mantém uma exemplar coleção contendo milhares de gibis. As novas gerações também estão presentes no mundo do colecionismo. Um exemplo é o jovem Jean Gabriel Ribeiro Lemes, com apenas cinco anos de idade, que coleciona exemplares de rochas e saiu de Porto Belo para participar da fundação da ACRI – Associação dos Colecionadores da Região de Itajaí, no dia 27 de abril de 2022, na Casa da Cultura Dide Brandão, em Itajaí.

Dois itajaienses chegaram ao maior posto do colecionismo catarinense: Camilo Mussi e Félix Eugênio Reichert. Camilo Mussi era reconhecido como grande colecionador de moeda, selo e cédula, mas, também, como um estudioso do colecionismo. Por isso mesmo, tem seu reconhecimento entre os colecionadores catarinenses até o dia hoje. Ele é o patrono da filatelia e numismática catarinense desde o ano de 1970, título reconhecido pela FEFINUSC – Federação das Entidades Filatélicas e Numismática de Santa Catarina, com sede em Florianópolis. Entidade que Camilo presidiu no biênio de 1975-1976.

Outro itajaiense, Félix Eugênio Reichert, foi “idealizador e fundador da AFINUBALCA – Associação de Filatelia e Numismática de Balneário Camboriú [1971], membro da American Numismatic Association (EUA), presidente da FEFINUSC – Federação Filatélica e Numismática de Santa Catarina [2008-2012] e membro do Conselho Fiscal [1984/ 1992], segundo secretário [1980/1984], dirigente da AFSC – Associação Filatélica e Numismática de Santa Catarina [2010-2011], membro e dirigente da Associação Filatélica e Numismática do Vale do Itajaí [2000].”  [Fonte: itajaipedia.com.br].

 

ACRI – ASSOCIAÇÃO DOS COLECIONADORES DA REGIÃO DE ITAJAÍ

 

O dia 27 de abril de 2022 vai entrar para a história do colecionismo de Itajaí e Santa Catarina como a data da fundação da ACRI – Associação dos Colecionadores da Região de Itajaí. A assembleia de fundação ocorreu às 19 horas, tendo como local o auditório Antônio Augusto Nóbrega Fontes da Casa da Cultura Dide Brandão, em Itajaí. Os colecionadores presentes, sócio-fundadores da entidade, elegeram a primeira diretoria que ficou composta por: Carlos Guérios – presidente; Jules Soto – vice-presidente; Eliezer Patissi – tesoureiro; Magru Floriano – secretário.

Os 26 colecionadores presentes à assembleia de criação são [por ordem de inscrição no livro de presença da entidade]: Magru Floriano, Eliezer Patissi, Richard Lopes Corrêa, João Luiz da Silva, José Nilo de Souza, Ricardo Patissi, Luiz Paulo Lechinski, Jean Paulo Lemer de Oliveira, Frederico Carlos Araujo da Silva, Gustavo Melim Gomes, Sydney Schead dos Santos, Edson d’Ávila, Leandro Vinicius Hahn, Carlos Alberto Costa Guérios, Valmir Vitorino Junior, Andréa Bernardo Vitorino, Eliseu Azevedo Salermo, Marcelo Sagaz Baião, Thomas Olquist, João Ricardo C. Silva, Gerson A. Mota, Jules Soto, Luis Ricardo da Silva, Antonio Carlos Pozatto, Manoel Castro Júnior, Eliana Maria Ferreira de Oliveira.

A ACRI tem como objetivos principais: orientar os associados sobre a organização de coleções; comercialização de peças – compra, venda, troca; promoção de eventos; participação em encontros e feiras em nível estadual e interestadual; ação educativa nas escolas; divulgação da atividade do colecionismo nas mídias; troca de experiências e informações; formação de banco de dados sobre fornecedores de peças e serviços.  A entidade foi fundada oficialmente no dia 27 de abril, mas há mais de seis meses um pequeno grupo vem se reunindo semanalmente para dar vida à entidade. Em um primeiro momento foi criada uma diretoria provisória, tendo como único objetivo a promoção da reunião de fundação e eleição da primeira diretoria oficial. A diretoria provisória era assim constituída: Presidente – Carlos Guérios; tesoureiro – Eliezer Patissi; secretário – Magru Floriano.

Estima-se que na Região da Grande Itajaí o colecionismo pode abranger mais de dez mil pessoas que selecionam e guardam objetos de brindes (caneta, chaveiro, flâmula, adesivo, caneca), bem como selo, moeda, cédula, cartão postal, disco de vinil e CD, livro, fotografia, brinquedo, máquina, obra de arte, miniatura, bicicleta, carro, documento, chapéu, cartão telefônico, revista e gibi, camisa de jogador, bola e troféu, rocha, prato decorativo, pin e botton … Praticamente tudo é colecionável, de latinha de cerveja a litro de cachaça, de jornal a gibi, de miniatura a carro de verdade.

 

A MINHA EXPERIÊNCIA DE COLECIONADOR

 

Eu comecei a colecionar muito cedo, antes dos dez anos de idade. A minha primeira coleção foi de amostras de rocha. Até hoje guardo na memória aquela coleção que foi abandonada quando meus pais transferiram residência do Bairro São João para o Centro da cidade de Itajaí. Não havia lugar para ela na nova casa, nem mesmo na garagem. Passados os anos, comecei a guardar exemplares de jornais, principalmente números zero e um. Um pouco mais à frente iniciei a formação da minha biblioteca de autores itajaienses.

Ao meu relacionar mais frequentemente com Félix Eugênio Reichert e seu parceiro de colecionismo Carlos Guérios, acabei criando ânimo para iniciar uma coleção de cartões postais de Itajaí. Por último, iniciei uma coleção de obras de artistas de Itajaí. A minha coleção de jornais de Itajaí sempre teve como objetivo suprir a hemeroteca do Arquivo Histórico de Itajaí. Sempre que tenho oportunidade faço doação à entidade. A primeira delas ocorreu quando herdei, na condição de repórter, quando da falência da empresa no final da década de 1980, de uma coleção completa do jornal A Nação. A segunda coleção doada era integrada por exemplares, do número zero ao 350, da Tribuna Itajaiense, editado pelo jornalista Paulo Camisotti. Tenho ainda em minha hemeroteca cerca de dois mil exemplares de jornais diversos, inclusive jornal feito à mão na década de 1940 e alguns ‘zines’ dos primeiros alunos do Curso de Jornalismo da Univali. Essa coleção está destinada a ser doada, na sua íntegra, à Fundação Genésio Miranda Lins.

Mais recentemente, 2019, doei ao Instituto Soto, responsável pela montagem do museu que está sendo montado utilizando o prédio da antiga sede do serviço de fiscalização do Porto, no final da avenida Prefeito Paulo Bauer, diversos objetos pertencentes ao marinheiro Odílio Garcia, considerado o herói itajaiense. Doei o rádio que utilizava ainda quando era embarcado em Santos, bem como duas canetas Parker e um isqueiro. Também foram doados fotos e documentos pessoais, além de um quadro assinado pelo artista plástico Walmir Binhotti. Antes disso, havia doado ao Museu Histórico de Itajaí uma tela assinada por Walter Smykalla que retrata a igrejinha da localidade de Matadouro – há muito demolida.

Então, essa disposição que tenho de doar coleções e peças às entidades públicas responsáveis pela guarda de acervos com relevância histórica (que encontro em muitos outros colecionadores) evidencia a parceria positiva que pode existir entre o privado e o público no setor da preservação da memória. Desde Joca Brandão que a paixão do colecionismo de particulares é decisiva para a composição dos primeiros acervos de instituições públicas. Essa parceria deve aumentar significativamente com a criação da ACRI uma vez que sua diretoria pretende fazer ações juntos aos estudantes visando a adesão à prática do colecionismo bem como a doação de peças com valor histórico aos órgãos públicos correspondentes.  [magrufloriano2008@gmail.com].

 

AS SEMENTES DA MINHA INFÂNCIA

No início do mês de abril [2021] afixei na parede da minha casa de praia em Mariscal [Bombinhas – SC] um quadro-montagem contendo centenas de baguinhas [sementes] que coletei durante décadas em passeios junto à natureza. Eram coletadas sempre em um clima de reminiscência do tempo de criança. Naquele tempo, décadas de 1950 e 1960, ainda não tinha sido incorporada no nosso cotidiano a indústria do plástico, e, as famílias pobres e de classe média não tinham poder aquisitivo para comprar os brinquedos mais sofisticados ofertados nas lojas. Restava, portanto, a criatividade infantil. Sendo assim, todos os elementos encontrados no entorno de uma criança acabam sendo utilizados na elaboração de brinquedos, de lata velha a osso de boi, de sementes a galhos de árvores; de pedaços de madeira a cepilho e pó de serra. Tudo era utilizado para compor o mundo lúdico em que vivíamos.

A baga de mamona era a nossa preferida para promovermos guerrinhas individuais ou coletivas. Muitas vezes, dependendo da intensidade da rivalidade existente entre os grupos, as sementes eram arremessadas através da tradicional funda [estilingue]. Outro artefato bélico era a pequena semente do birú. Ela era introduzida na boca e soprada em um canudinho feito de galho de mamoeiro, servindo desta forma como uma zarabatana improvisada. Uma das sementes mais requisitadas no meu grupo de infância era a conhecida coronha ou olho-de-boi, por nós denominada de ‘esquenta’ porque ao ser friccionada sobre uma pedra acabava adquirindo temperatura expressiva a ponto de ser detectada na pele.

Sobre a coronha tenho um aprendizado doloroso. Acontece que sempre brincava com essas bagas em Cabeçudas, onde minha família tinha casa de praia. Quando levava elas para o Bairro São João, onde residi até os quinze anos de idade, elas sempre faziam muito sucesso. Acontece que, por imaginação infantil, sempre pensei que a coronha era a semente desgastada pela ação do mar e do sol dos tradicionais sombreiros de Cabeçudas. Porém, durante uma expedição cultural que fiz em companhia do memorialista Isaque de Borba Corrêa à Praia do Forte, em São Francisco do Sul, por volta do ano 2000, ele me apresentou a coronha como sendo a baga de um cipó. Ficamos discutindo durante toda a caminhada: eu argumentando tratar-se da semente da árvore sombreiro; ele, argumentando tratar-se da semente de um cipó.

No meio da subida de um morro por mata nativa ele avistou à beira do caminho um desses cipós e mandou eu pegar uma vagem para constatar que realmente ali dentro iria ser encontrada a tal da Coronha. Eu relutei, mas peguei uma vagem com toda a força para retirá-la do cipó. Nesse momento senti dores por toda a minha mão. Assim, aprendi, na dor, porque o cipó também era conhecido como pó-de-mico. A vagem era revestida por pequeníssimos espinhos que deixaram minha mão dolorida por dias. Sofri duplamente com essa experiência: primeiro que realmente a coronha era a semente de uma vagem de cipó: segundo, a vagem é revestida por espinhos finíssimos que maltratam intensamente a mão de quem as pega sem a devida proteção. Até hoje, quando o Isaque me vê com uma baguinha coronha, e eu estou sempre com uma no bolso, fica com aqueles ares de que me ensinou uma lição pela dor para eu deixar de ser teimoso.

Bem, mas no quadro que afixei na parede tem ainda outras sementes. Uma que considero especial é a semente Lágrima de Nossa Senhora que eu, não sei também porque, sempre chamei de Semente de Santa Terezinha. Com ela fazíamos todo tipo de artesanato, como colares, pulseiras, cintos e até rosários. Uma outra semente que sempre colho quando vejo é a semente de Birú. Pequena, preta, encho a mão delas e saio pela rua chutando-as como se estivesse na Rua Max, no Bairro São João de antanho. Aqui perto de casa, nos muros da casa do artista Silvestre João de Souza Júnior [casa abandonada após seu falecimento] tem dois pés de Birú que me fornecem durante bom tempo do ano essas baguinhas. Quando passo pela Travessa Moritz sempre pegos as baguinhas e saio chutando-as, uma por uma, até a João Bauer. Parece até coisa de maluco, mas é, na verdade, minhas reminiscências de infância não deixando a criança que tenho em mim morrer.

Também acho muito lindas as sementes de Garapuvu. Mas essas não fizeram parte da minha infância diretamente. Comecei a percebê-las por sua beleza estética caminhando na estrada alta de Cabeçudas, aquela que vai para o Morro Cortado, quando já era adolescente. Ali tem diversos garapuvus gigantes que espalham muitas dessas sementes pelo leito da estrada. Quem passa a pé pelo local não tem como não percebê-las. Lindissimas.

Garapuvu, birú, mamona, lágrima de Nossa Senhora, olho de boi …. qual semente fez parte das suas brincadeiras de criança? [magrufloriano2008@gmail.com].

A PANDEMIA DO BARULHO

Nasci em Itajaí no ano de 1956 e nunca senti essa sensação de ocupação total e desordenada dos espaços públicos que sinto nos dias de hoje. Para todos os lados que olho tem uma multidão. Não há mais um cantinho sequer onde posso contemplar a natureza, andar calmamente ou sentar em um banco sem que escute barulhos de canos de escapes desregulados, buzinas de carros e caminhões em engarrafamentos, sons alucinantes de pequenas caixas de som. Praças, ruas, praias, mirantes, rodovias, pesque-pagues … tudo lotado. Não há dúvida de que o silêncio é a grande vítima da pandemia do Coronavírus, transformando a era pós pandemia em um tempo de culto ao barulho.

Saídas do confinamento social imposto pela pandemia as pessoas demonstram uma intensa necessidade de ver gente, fazer barulho, gritar por liberdade e refazer sociabilidades. Parece que elas sentem como se estivessem acordando de um estado de coma prolongado, e, agora, desejam recuperar o tempo perdido. Demonstram que estão com pressa, agitadas, irrequietas. Nesse momento, quanto mais barulho melhor, quanto mais gente melhor, quanto mais agitação melhor. As pessoas querem aproveitar intensamente o momento como se não houvesse amanhã. Elas perderam a tranquilidade e o senso de aproveitar o tempo ao seu tempo, um dia após o outro, com parcimônia. Querem tudo agora, nesse exato momento. Um ambiente psicológico de ‘presentíssimo’², onde as referências existenciais de passado e futuro são completamente anuladas. Só existe o presente e, ele deve ser vivido intensamente.

Quando passo por alguns pontos do meu ‘território de infância’¹ é inevitável que faça algumas comparações – confrontando imagens do presente e do passado – demonstrando total perplexidade com o que está ocorrendo atualmente. Ali, na rua Indaial, eu andava sobre os trilhos do trem para transitar entre o Bairro São João e o Parque Dom Bosco. Era um caminho de brincadeiras e raramente via um carro ou carroça passando na rua que corria paralela aos trilhos. Hoje, está quase impossível transitar pela rua Indaial, porque tem engarrafamento a toda hora em qualquer dia da semana.

Por toda a cidade existiam grandes áreas de terras não cercadas que serviam para a improvisação de um número interminável de campinhos de futebol. Era difícil encontrar uma rua que não tivesse pelo menos um campinho de futebol com piso de cepilho e pó-de-serra. Eram as nossas áreas de lazer, improvisadas, sem a necessidade da Prefeitura gastar dinheiro com infraestrutura e equipamentos. Hoje, é carro para todos os lados – transitando e parado. Encontrar uma vaga de estacionamento nas ruas de Itajaí é uma missão que requer muita paciência mesmo nas áreas urbanas periféricas. Todo mundo quer carro e moto, deixando o transporte coletivo à mingua, sobrevivendo às custas do favor público. Sem a rua para exercer suas sociabilidades o povo ruma, em fila, para a área litorânea. Diariamente, uma multidão ocupa o ‘Caminho de Sodegaura’ em direção à Cabeçudas. A Praia Brava, que era uma praia agreste, onde cheguei a acampar e pescar em total solidão, está sendo minada por condomínios de luxo compostos por edifícios gigantescos. Já não existe limite visível entre as cidades de Itajaí e Balneário Camboriú e, tudo indica que em menos de uma década o mesmo deve ocorrer em direção a Brusque, Ilhota e Camboriú.

Meu ‘território de infância’ foi invadido por uma horda de bárbaros que no lugar de usar espadas usam caixas de som e buzinas. [magrufloriano2008@gmail.com].

 

 

1 – Território de infância – expressão utilizada por Lausimar Laus.

2 – Presentíssimo – termo utilizado por Magru Floriano no seu ensaio intitulado ‘O tempo da história – reflexões sobre o tempo, memória e história’, ainda em manuscrito.

ARTE OU VANDALISMO ?

Monumento alusivo aos 500 anos do descobrimento do Brasil – Praça João Bauer – tendo ao fundo o muro do Grupo Escolar Victor Meirelles.

Quem costuma andar com calma pela cidade está habituado a apreciar inúmeras obras de arte elaboradas tendo como base grandes áreas muradas. Terminal Portuário de Itajaí – rua Blumenau; Forum Universitário – avenida vereador Abraão João Francisco; Casa da arte – rua Silva; Grupo Escolar Victor Meirelles – Praça João Bauer … são alguns bons exemplos da arte do grafite exercida com maestria em Itajaí. Contudo, também encontramos muita pichação [pixo], principalmente nas praças públicas e seus monumentos. A diferença entre grafite e pichação já rendeu muita polêmica no meio artístico e, pelo jeito, vai continuar rendendo por muito tempo.

A Praça João Bauer, em pleno centro da cidade de Itajaí, é um bom exemplo desse embate feroz entre grafite e pixo. Enquanto os muros do Grupo Escolar Victor Meirelles estão servindo de base para a arte do grafite – merecendo de todos os transeuntes aprovação e reconhecimento – pisos e bustos dessa mesma praça estão servindo de base para a manifestação dos adeptos da pichação. Contudo, ao contrário do que acontece com a arte no muro, a pichação não tem a aprovação da população e usuários da praça, muito pelo contrário.

A arte de muro tem um apelo estético voltado para a imagem colorida, com um visual muito próximo das artes de galerias e, por isso mesmo, dando um aspecto mais saudável para o ambiente da cidade. Bonitas e coloridas as obras do grafite acabam até mesmo valorizando o imóvel que utilizam como referência. Obviamente que todo mundo prefere o grafite à estética do abandono. Em contrapartida o pixo deteriora e desvaloriza o patrimônio que usa como base. Na Praça João Bauer o próprio busto do político que empresta seu nome àquele espaço público é reiteradamente pichado, o mesmo ocorrendo com o monumento alusivo aos quinhentos anos do descobrimento do Brasil.

O grafite usa mais a imagem, enquanto o pixo utiliza mais a escrita. O gravite é uma arte de rua que valoriza o espaço que ocupa, enquanto o pixo está vinculado ao protesto contra a sociedade de modo geral. É a política da degradação de um bem para ferir valores da sociedade, como propriedade e estética burguesas. O pixo, portanto, será sempre vinculado à arte de protesto, arte marginal ao sistema, seus valores e vultos. Não é por acaso que o busto de João Bauer sempre merece por parte dos pichadores um bigodinho no estilo Hitler, apesar dos pichadores saberem muito pouco ou quase nada sobre a vida e obra desse político itajaiense. É o protesto pelo protesto. O protesto que se basta em si mesmo. “O meio é a mensagem’ como sentenciava o canadense Marshall Macluhan.

Mas será que podemos considerar a pichação de um monumento, este em si um objeto de arte, como uma forma de expressão artística? Até que ponto pichação e arte podem tem fins comuns? Qual a fronteira entre vandalismo e pichação? A arte que destrói e corrompe uma outra obra de arte pode ser considerada arte? Ela é útil, necessária, aceitável, desejável, ética …? Em um mundo padronizado, acinzentado, poluído … agir para deteriorar obras de artes em ambientes abertos públicos, deixando tudo ainda mais feio, é uma ação que tem mérito? Ação que enfeia o que é belo pode ser considerada uma ação artística? O feio também pode pertencer ao campo da arte? Enfim, o pixo é arte ou deve, tão-somente, ser visto como uma ação política?

Essa tendência de desvalorizar o patrimônio [público e privado] que lhe serve de base, obviamente, confere ao pixo uma condição existencial de marginalidade. Destruir, enfear, desvalorizar, desmotivar… são todos verbos negativos que, inevitavelmente, estão sempre vinculados à prática do pixo. Uma negatividade marginal que é desejada por seu autor, sempre um militante, um ator engajado na luta contra a sociedade e seu status quo. Ao pichar um monumento o que se busca é agredir o sistema e sua estética conformista e hegemônica. Sem utilizar imagens e, sequer formular uma frase inteira com sentido e mensagem, o pixo pretende dizer tudo através do ato em si. Sendo assim, sequer precisa se explicar e ter sentido. Por isso que alguns críticos consideram a pichação como a mais pura das expressões artísticas, uma vez que ela não passa por filtros da cultura ocidental como razão, consciência, lógica …. é lava incandescente vinda diretamente de um vulcão em ebulição chamado inconsciente.

Contudo, parece evidente que o movimento apresenta inúmeras contradições. A principal delas está nitidamente representada na disputa por conquistar território através das pichações cada vez mais ousadas e onipresentes. Essa ubiquidade busca, por sua vez, conquista de status entre seus adeptos tribais. Então, ao mesmo tempo que nega todos os valores da sociedade contemporânea, volta-se sobre sua própria essência para desejar uma omni praesentia que lhe confere status na tribo marginal. Não fosse esse desejo de onipresença territorial as marcas deixadas não seriam todas padronizadas e seus feitores fariam marcas diferentes e aleatórias a cada intervenção. Mas, cada membro tribal tem sua marca e esta, por sua vez, merece reconhecimento dos demais e, por isso mesmo, tem status.

Colocar uma marca em lugar de difícil acesso, demonstrando ousadia e destemor, rindo do perigo, confrontando proprietários e autoridades, apresentando à cidade o improvável e o inútil … confere ao seu autor status e reconhecimento. Essa compensação social, mesmo que restrita à pequena tribo urbana dos pichadores, confere aos demolidores da estética urbana burguesa a possibilidade da construção de uma nova ordem estética. Então, querendo eles ou não, ao destruir estão construindo. O que resta, no silêncio de todas as madrugas em que atuam os pichadores, é saber se o que pretendem destruir vai dar lugar a algo melhor para eles e para todos os seres vivos sobre o planeta terra.

Afinal, o ato político da pichação é uma utopia ou distopia?

UMA CASA NA MEMÓRIA

È muito difícil alguém passar por uma casa com telhado no estilo ‘mansarddach’ sem que tenha a curiosidade aguçada. Afinal, a casa ganha uma estética diferenciada, mais pomposa, destacando as janelas do sótão. A invenção desse tipo de telhado é atribuída ao arquiteto francês Fançois Mansart [1598-1666] mas ele foi muito utilizado pelos imigrantes de origens alemã e italiana em todo o Vale do Itajaí. Segundo definição de Angelina Wittmann, o telhado de mansarda é constituído por “… panos de telhados dobrados (no Brasil chamado de água) na parte inferior, de tal maneira que a superfície inferior da cobertura, geralmente um sótão, existe em declive mais íngreme do que a parte superior. Duas inclinações diferentes no pano de telhado. Este tipo de disposição de duas inclinações cria um espaço adicional no sótão.”

Sempre que passo por uma casa com ‘telhado de mansarda’ recebo uma profusão de  informações vindas do passado, através das lembranças de vozes, cheiros, imagens, sensações as mais diversas. Elas são oriundas do meu tempo de criança, quando passava regularmente minhas férias de inverno no sítio de meus tios na localidade de Machados, no antigo bairro de Navegantes, acessando o outro lado do rio através da passagem da balsa na Barra do Rio. Os Duarte tinham uma casa com este tipo de telhado, com várias águas, formando um sótão mais espaçoso e vistoso.

Como o meu tio era dono de venda, o espaço a mais que a ‘mansarda’ dava ao sótão era reservado para depósito de mercadoria a granel. Uma grande caixa de madeira, com compartimentos estanques para depositar milho, arroz, feijão … ficava à frente de nossas camas. Estas, contendo colchões de palha de milho, com travesseiros preenchidos com pena de aves domésticas. São esses cheiros que me invadem a mente quando avisto uma casa de mansarda. Também vem à lembrança a vista da janela do sótão para a rua geral dos Machados, ainda em terra batida. Chego a escutar o barulho dos meus pés subindo os degraus da escada de madeira e as vozes dos meus primos e suas brincadeiras corriqueiras antes de dormir – incluindo a tradicional guerra de travesseiros.

Aqui em Itajaí ainda consigo ver algumas casas com telhados de mansarda, nas áreas urbana e rural. Recentemente foi demolida a casa da família de Pedro Muller, na rua Anita Garibaldi. Mas, resiste ao tempo uma linda casa localizada na rua Pedro José João – rua geral do Matadouro. A família Furtado mantém uma casa com telhado de mansarda ‘cortado’, em plena avenida Joca Brandão. A mais destacada dessas casas era de propriedade da família Pereira e ficava às margens da Estrada para Florianópolis, depois nomeada de Rodovia Osvaldo Reis, quase ao pé do Morro Cortado. Na frente da casa tinha uma grande figueira que acabou dando a denominação de Figueirinha para toda a localidade.

No interior, volta e meia encontramos uma casa dessas perdida na paisagem.

casa da Família Muller – rua Anita Garibaldi.

 

rua Pedro José João – rua geral do Matadouro

 

Casa da Família Pereira – Av. Sete de Setembro – demolida.

Itaipava

casa comercial na rua Uruguai

Comércio da Família Pereira às margens da rodovia Osvaldo Reis – 1971.

Casa da Família Furtado na avenida Joca Brandão.

A CRIATIVIDADE ARTÍSTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Durante toda a sua vida artística William Shakespeare teve de conviver em ambientes hostis, impregnados pela peste. Muitas foram as vezes que os teatros londrinos foram fechados por longo período, até que as autoridades sanitárias entendessem que a situação estava sob controle. Mas, enquanto estava parado, sem poder encenar suas peças teatrais, o grande dramaturgo aproveitava o momento de isolamento para escrever obras majestosas como Rei Lear e Macbeth, sem falar de seus poemas – pouco apreciados aqui no Brasil, mas reconhecidos como verdadeiras obras-primas da literatura mundial.

A adversidade nunca parou o gênio criativo. Assim como Shakespeare gestou em plena epidemia o seu Rei Lear, muitos outros autores criaram obras-primas em ambientes adversos ou depois de passar por adversidades extremas, como doenças graves, prisões, exílios, guerras e pestes. Memórias do cárcere de Graciliano Ramos é um exemplo de literatura de alto nível retirada da experiência da prisão política; enquanto Albert Camus e Frida Kahlo gestaram suas obras no isolamento imposto por questões de saúde. São tantos os artistas que criaram no exílio, prisão, guerra, pandemia, confinamento ou isolamento que a lista seria quase que interminável.

Diante dessa constatação é que considero válida a pergunta formulada por Flávio de Souza no ensaio ‘O que faz um dramaturgo quando os teatros estão fechados?publicado no livro ‘O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe’: Será que algo de bom, ótimo, excelente pode estar sendo causado em meio a tanto pavor, desespero, recessão econômica, desemprego e paralisação de vida cultural – além de mortes, traumas, perdas e danos?

Baseado na experiência de vida de Jean-Jacques Rousseau, Henry David Thoreau, Graciliano Ramos, Aleijadinho, Frida Kahlo, Albert Camus, William Shakespeare, Victor Hugo, Giovanni Boccacio, Pablo Picasso, Erich Maria Remarque, Miguel de Cervantes … o que podemos esperar em termos de produção criativa no pós-pandemia do Coronavírus? Em março de 2022 estamos completando um ciclo de dois anos de isolamento social motivado pela pandemia e, muito pouco se tem visto anunciar como algo novo e extraordinariamente digno de ser chamado de obra-prima em qualquer setor das artes. Será que tudo ainda está sendo gestado no silêncio anônimo do isolamento domiciliar?  Será que tudo estará sendo revelado aos poucos, com o passar dos tempos, no declínio da peste?

A sociedade brasileira, nesses dois anos, conviveu com a morte de 655.000 cidadãos e com a infecção pelo vírus de quase 30.000.000 – isso mesmo, trinta milhões de brasileiros foram infectados pelo coronavírus em dois anos de pandemia. Será que esse ambiente hostil ao extremo, ceifando quase um milhão de vidas, não mexeu o suficiente com a angústia do gênio, como a trincheira da guerra mexeu com Richard Flanagan, Euclides da Cunha e Erich Maria Remarque? Será que nosso tempo gestou a peste mas não gestou o gênio? [magrufloriano2008@gmail.com].

90 anos do voto feminino

Até 1932 política era atividade exclusiva dos homens

No dia 24 de fevereiro os democratas brasileiros comemoram a passagem dos noventa anos da conquista do direito ao voto pelas mulheres. Foi nessa data que o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto de número 21.076, alterando o Código Eleitoral para consagrar às mulheres esse direito elementar da cidadania. Uma luta que tem seu primeiro capítulo no ano de 1891, quando foi votado e recusado o pedido de emenda à Constituição para garantir às mulheres o direito ao voto. Em Itajaí, a luta das mulheres iniciou no ano de 1929 por iniciativa de Ignez Oliveira, consolidado em 1933 quando Anna Zibardi Rodi depositou seu voto numa urna.

Em Itajaí, como nos demais municípios brasileiros, a mulher tinha seu papel restrito ao lar. O jornalista Juventino Linhares representa muito bem essa cultura de época ao escrever no jornal O Pharol de 1928:

Não pode existir cousa mais pittoresca do que mulher votar. É o mesmo que homem pregar botão na camisola de creança, passar a ferro as toalhas da mesa ou ir para a cosinha botar pão de lot em panella de barro […] Só podem ser favoráveis a essa história de voto feminino, os homens Maricas que vestem calças por engano e as mulheres de bigode que usam vestidos por distracção.”

Não obstante essa cultura enraizada entre gente de todas as classes sociais, a ideia de dar às mulheres direitos de cidadania plena foi ganhando campo até que membros do Partido Liberal Catharinense resolvem montar um comitê feminino para propaganda dos ideais liberais democráticos em agosto de 1929. Logo depois, às portas da Revolução de Trinta, a secretária Ignez Oliveira requer seu alistamento eleitoral e declara voto ao oposicionista José Eugênio Müller. O juiz nega o pedido, mas seu ato pioneiro corre como rastilho de pólvora pelo território catarinense.  Com a vitória dos revoltosos de 1930 a mulher ganha a condição de eleitora. Em Itajaí, o primeiro voto feminino oficial foi de Anna Zibardi Rodi, na eleição de maio de 1933.

A história do Poder Legislativo itajaiense evidencia essa dificuldade da mulher conquistar seu lugar na cadeia de comando social. Neoflides Vieira Wendhausen ocupou a cadeira de vereadora em 1950 e somente em 2001 Jussara Panplona foi eleita a primeira mulher presidente da Câmara de Vereadores de Itajaí. No Poder Executivo os obstáculos enfrentados pelas mulheres são os mesmos. O eleitor itajaiense elegeu Eliane Rebello e Dalva Rhenius vice-prefeitas, mas ainda não deu a oportunidade de uma mulher sentar na cadeira de prefeita da cidade. No Poder Judiciário o destaque fica por conta da juíza Sônia Moroso Terres que por anos consecutivos respondeu como diretora do Fórum da Comarca de Itajaí. [magrufloriano2008@gmail.com]

O RADIOAMADORISMO EM ITAJAI

Rua Pedro Ferreira e a sede da Foto Juca.

A História da atividade de radioamadorismo em Itajaí inicia com Sady Magalhães ao instalar, no dia 10 de agosto de 1935, equipamento completo de transmissão visando promover demonstração para a imprensa e possíveis futuros adeptos dessa atividade em Itajaí. Na oportunidade, Sady comunicou-se com o capitão Oswaldo Masson – oficial do Exército e chefe do Departamento de Comunicação da Liga de Amadores Brasileiros de Radio-Emissão.

Após a iniciativa de Sady Magalhães a atividade de radioamadorismo rapidamente ganhou adeptos na região de Itajaí, notadamente, junto ao pessoal cuja atividade profissional obrigava viagens longas, como é o caso dos embarcados e caminhoneiros. Contudo, na década de 1970, a atividade decaiu a ponto do jornal A Nação publicar, na sua edição de 03 de junho de 1972, uma reportagem com o título “Onde se encontram os nossos radioamadores”. Nas páginas desse jornal colhemos o registro de alguns radioamadores históricos de Itajaí: Pedro Souza, Alcebiades de Oliveira, José Marçal Dutra, Francisco José Pfeilsticker, Jorge Saad, Nereu Schiefler, Hélio Bernardino da Silva, Rodolfo Krause, Eugênio Krause, Egon Schauffert, Eurico Krobel, Gláudia Dutra Fiorenzano, João Valécio Rebelo, Cicre Buatim, Carlos Fernandes Priess, João Hercílio da Cunha, José Luiz Collares.

A reportagem do jornal traz um testemunho sobre as atividades de José Marçal Dutra, o conhecido Juca Fotógrafo, que muito bem representa o espírito comunitário da atividade do radioamadorismo:

‘Quantas vezes vimos o Juca Fotografo, o maior incentivador do radioamadorismo em Itajaí, atender madrugada adentro, uma pessoa que necessitava avistar-se com parentes em cidade distante?”

 

Foi justamente esse espírito comunitário que fez a atividade do radioamadorismo ser de extrema importância para os moradores de todo o Vale do Itajaí atingidos pelas grandes enchentes de 1983 e 1984. A atividade dos radioamadores foi decisiva na formação de uma rede nacional de solidariedade às vítimas das enchentes e, até mesmo, que fosse possível montar uma extensa rede de apoio logístico integrando voluntários e órgãos públicos.

Não obstante esse passado de glórias, a atividade de radioamadorismo encontra-se bastante restrita nos dias atuais, principalmente, por sofrer a concorrência de outras tecnologias digitais e suas redes sociais. Mesmo assim, os clubes de radioamadores sobrevivem em praticamente todas as grandes cidades de Santa Catarina, tocados por esportistas de diversos setores, como é o caso de trilheiros e alpinistas.

Fonte: Itajaipedia, A Nação – 03 de junho de 1972.

A cruz deitada ao lado da Igreja Matriz de Itajaí

Muitos turistas e moradores de Itajaí, ao passarem pelo Largo da Matriz do Santíssimo Sacramento demonstram curiosidade sobre a origem e o significado de uma cruz deitada em plena Praça Pio XII. Por que ela está deitada? Quando foi colocada ali? O que significa? São algumas das perguntas que ouvimos corriqueiramente.

Foto das duas cruzes ao lado da igreja

No livro ‘A matriz de todos nós – 02” a memorialista Rosa de Lourdes Vieira Silva atribui a presença da cruz na Praça Pio XII exclusivamente ao legado deixado por missões evangelizadoras realizadas pelos padres capuchinhos [1948] e pelos religiosos redentoristas [1954]. Segundo testemunha: “A marca da passagem deles ficava numa CRUZ do amor e da fé. Uma, inclusive, ficou no jardim ao lado da Matriz.” O texto é ilustrado com uma foto da cruz deitada contendo a legenda: “Marca do que passou”. Não obstante a autora não dizer textualmente tratar-se da mesma cruz – a referida por ela no texto e a da foto – tudo leva à esta associação, ou seja, a cruz deitada é, para a escritora, a cruz original deixada pelos missionários.

Contudo, relatos que circulam na Família Garcia, da qual sou integrante, questionam esta versão. Segundo ouvi na juventude em rodas de conversa em família, a cruz deitada tem diversos significados: substitui as duas cruzes originais, feitas de madeira, pelos padres visitantes, mantendo o registro das missões na história da cidade; faz referência à Via Crucis ou Caminho da Cruz. Não seria, portanto, essa cruz de cimento, uma das cruzes originais deixadas pelos padres missionários.

A cruz após a reforma da praça – 2021

O historiador Edson d’Ávila relata que chegou a ouvir o ex-prefeito Lito Seára sobre o tema. Segundo esse relato, a cruz foi colocada ao lado da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento quando a Municipalidade reurbanizou toda a área abrangida pela nova avenida Vasconcelos de Drummond – atual avenida Marcos Konder. Lito garantiu em seu depoimento que os padres em comum acordo com a Municipalidade buscaram algo que simbolizasse a fé cristã dos itajaienses. A cruz deitada seria essa representação simbólica.

Edson d’Avila também usa de sua própria vivência para afirmar que ‘Eu cheguei a ver aquela cruz de madeira que ficava onde hoje está o pequeno oratório em louvor de Nossa Senhora de Fátima. Era uma cruz de madeira, pintada de preto, com dois dizeres em branco. Na parte de cima estava escrito: “Salva a tua alma” e, na parte inferior, estava escrito: “Santas Missões” seguido das datas das realizações das mesmas”. Fazendo um exercício de memória, já que não estava diante de material de consulta durante a entrevista, Edson relatou que a construção da Praça Pio XII ocorreu por volta do ano de 1959, enquanto a cruz deitada foi posta no centro da praça quando da sua revitalização entre 1968 e 1969. Mais, as duas cruzes – a cruz deitada e a cruz missionária – conviveram no local por alguns anos, o que, definitivamente, comprova que não se trata da mesma cruz.

A MORTE DE JOCA BRANDÃO

A local da cruz deitada também marca um fato histórico relevante para a comunidade itajaiense: a morte de Joca Brandão. Segundo relatos orais e alguns poucos depoimentos registrados em jornais de época, a comunidade cristã de Itajaí realizou no dia primeiro de novembro do ano de 1930 uma grandiosa missa em ‘ação de graças’ à vitória da Revolução de Trinta. Após a missa, autoridades e fiéis, foram até o local onde estava a sepultura do ex-prefeito Pedro Ferreira, para lhe fazer um ato de desagravo, já que este era considerado uma das vítimas políticas da ‘Velha República’. Várias pessoas discursaram e, quando chegou a vez de Joca Brandão discursar e depositar um ramalhete de flores sobre a lápide do ex-prefeito, emocionado, teve um mal súbito e faleceu.

Edson d’Ávila lembra ainda que as crianças, por um bom tempo após o ocorrido com Joca Brandão, costumavam recitar um versinho sobre a tragédia em tom de ironia:

Viva o Joca Brandão

Foi dar um discurso

Caiu no chão

Portanto, o local onde está colocada a cruz deitada traz em si muitas referências históricas para Itajaí: abrigou a sepultura do ex-prefeito Pedro Ferreira; serve de local para homenagear o Papa Pio XII; guarda a cruz deitada que simboliza a fé cristã do povo itajaiense e mantém vivo o legado dos padres missionários; é o local do falecimento de Joca Brandão.

BASE DE CONSULTA

– D’ÁVILA, Edson – entrevista a 16 de fevereiro de 2022 – Arquivo Histórico de Itajaí

– VIEIRA SILVA, Rosa de Lourdes. A matriz de todos nós – 02. Blumenau: Gráfica e Editora 3 de Maio ltda, 2018.

– FLORIANO, Magru – relatos orais da Família Garcia.