Blog do Magru – 06 de outubro de 2025 – apresentação

A terceira via de fato

Estamos iniciando um novo trabalho aqui no nosso prestigiado Diarinho. A nossa proposta é promover a discussão sadia sobre temas de relevância para a nossa comunidade, com ênfase nos setores de POLÍTICA e CULTURA. 

Vamos buscar elaborar um contraponto entre os dois principais colunistas políticos atualmente em atividade no Município de Itajaí: JC  (Diarinho) e João Martins (Sem Censura).  O tom do Blog do Magru será mais informativo e analítico, deixando de lado julgamentos e sermões pra cima dos políticos. 

Como todo mundo sabe não existe a menor possibilidade de um conteúdo jornalístico ser NEUTRO. Portanto, vou deixar aqui, no texto de apresentação, as linhas centrais do meu arcabouço ideológico:

1 – sou um pensador de centro-esquerda – o que significa dizer que aceito os conceitos da ESQUERDA DEMOCRÁTICA. Uma linha moderada defendida por pessoas que acreditam que a SOLIDARIEDADE deve prevalecer sobre o EGOÍSMO; o BEM COMUM deve prevalecer sobre a GANÂNCIA INDIVIDUAL; o PÚBLICO tem prioridade sobre o PARTICULAR.

2 – sou contra regimes ditatoriais de esquerda e direita. Luto a favor da moderação democrática e contra o radicalismo.

3 – ofender, caluniar, difamar, mentir, promover fake news … não é liberdade de expressão.

4 – o texto ideal é aquele que consegue ouvir os dois lados envolvidos em uma determinada questão. Por isso deixo aqui o whatsApp: (47) 99215 – 1842 e o email: magrufloriano2008@gmail.com. 

5 – não tenho político de estimação ou filiação a partido político e grupos organizados. 

6 – a vida particular do agente público não me interessa e não deve ser conteúdo  utilizado neste blog.

7 – o agente que traz para o setor público a sua vida particular tem de saber que é ele que está misturando o PÚBLICO e o PRIVADO e, portanto, tem de arcar com as consequências da crítica oriunda daqueles que defendem o interesse público. Afinal, ele transformou sua vida particular em algo de interesse público.

8 – toda contribuição dos leitores na seção de comentários é bem-vinda, desde que utilize termos próprios, não ofensivos à honra de outras pessoas envolvidas. 

ESPERO CONTAR COM A LEITURA DIÁRIA DE TODOS.

A cracolândia digital

Magru Floriano*

Após a pandemia da Covid (2019-2023) o mundo mergulhou em definitivo na Era da Tecnologia Absoluta com a utilização desenfreada da IA – Inteligência Artificial. O ambiente da Internet ficou ainda mais sofisticado e a relação homem – máquina ganhou novos desdobramentos. Como toda mudança social e tecnológica os benefícios e malefícios são fáceis de enumerar. Contudo, consideramos que os pontos positivos são muito mais interessantes do que os negativos, mas estes, em sua qualidade e extensão, impõem grandes prejuízos ao desenvolvimento da humanidade na sua caminhada história em busca da felicidade.

Um desses danos é a notória ascensão de uma nova classe de ‘intelectuais imbecis’ que conhecemos usualmente como influencers. Gente que não estuda, não aprende, não tem compromisso com a ética e se dá muito bem financeiramente por influenciar milhões de pessoas nas redes sociais. Não que o fenômeno da imbecilidade notória seja algo completamente novo. O dramaturgo Nelson Rodrigues, antes do advento da Internet, sentenciou: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.

Umberto Eco, pensador da era da Internet, seguiu a mesma linha de Nelson Rodrigues ao sentenciar: “A Internet deu voz a uma legião de imbecis. Estes idiotas ganharam o mesmo espaço de um Prêmio Nobel.” O economista e intelectual brasileiro Eduardo Giannetti qualificou esse movimento na Internet, notadamente através das redes sociais, de ‘Cracolândia digital’. Como sabemos, a Cracolândia é um espaço público em São Paulo – capital – onde usuários de drogas vivem como zumbis, à margem da sociedade produtiva.

Aqui, parece fundamental conceituar o imbecil. No nosso entendimento a imbecilidade é uma qualificação da ignorância. Podemos considerar como ignorante aquela pessoa que não sabe, não tem conhecimento. E, algumas pessoas entre estas, conhecidas como influencers, utilizam de expedientes sensacionalistas ou produzindo fake news … somente para ganhar visualizações e seguidores, tendo orgulho de sua própria ignorância ao transformar o espaço cibernético em caos e barbárie. Esse orgulho se sustenta por uma evidência: seu sucesso social e econômico.

Acontece que o influencer acaba sendo um emblema, um padrão, uma referência para toda uma geração de usuários das redes sociais e, como já dizia Confúcio: “A palavra convence, mas o exemplo arrasta“. Começa a virar normal a pessoa menosprezar o estudo e fazer carreira solo como intelectual de Internet. Entra em diversos grupos de discussão, principalmente sobre política e costumes, e passa a liberar sobre tudo com ares de doutor. No passo seguinte, ele seleciona os usuários entre os que concordam com suas ideias e aqueles que não concordam com suas ideias. Mais um passo a frente, os usuários ‘amigos’ do segundo grupo (discordantes) começam a ser deletados do grupo de discussão, dando início a uma ‘bolha digital’.

A ‘bolha digital’ começa a funcionar por mecanismo idêntico a uma câmara de eco, confirmando um ambiente entrópico. As informações começam a formar um padrão na medida que o espírito contraditório começa a ser censurado e descartado. O usuário que não reproduz o discurso-padrão do grupo acaba perdendo status e vai migrando para a periferia de forma gradual até anular por completo sua sensação de pertencimento. A reprodução de palavras-chave e conceitos ideologicamente articulados formam uma ‘barreira algorítmica’, através de mecanismo de reprodução (eco dentro da bolha).

Um exemplo desse algoritmo seria a palavra ‘bananinha’, para a bolha da esquerda, como sinônimo de Eduardo Bolsonaro; e de ‘ladrão de nove dedos’, para a bolha da direita, como sinônimo de Lula. Obviamente que quem reproduz sistematicamente um desses termos está fadado a cair em uma ‘malha fina’ dos mecanismos que formam a barreira algorítmica. A partir daí pode receber mais ou menos mensagens de igual teor, dependendo das conveniências de cada emissor. Está formada a bolha.

Como um dos padrões reconhecidos como indicador de sucesso na rede social é a quantidade de ‘amigos’ e ‘seguidores’, nos últimos tempos tem ocorrido dos dissidentes receberem cada vez mais mensagens com ameaças do seguinte tipo: ‘perdeu um seguidor’, ‘depois do que falou deixei de te seguir’. Isto é, o usuário resolve punir o seu interlocutor por não ter encontrado em suas palavras o conteúdo esperado. Está dentro de uma bolha e não consegue mais conviver com o contraditório e resolve punir o infrator com a perda de um seguidor. ‘Seguir’, portanto, começou a ser visto como moeda, como valor digital. Ter seguidor é evidência de sucesso. Perder seguidor é ‘pena capital’.

O Intelectual de Internet demonstra claramente que sabe ler, mas não sabe interpretar o texto que lê. Tem mais, demonstra pressa em reproduzir e responder, dedicando pouco tempo a prestar atenção no conteúdo em discussão. Ouve apenas para responder e não para entender a fala de seu interlocutor.  Sempre está em busca do ‘viés de confirmação’ e para obtê-lo considera razoável utilizar recursos que atentam contra a lógica e a dialética. Os conteúdos que encontramos nessas argumentações enviesadas estão cheios da lógica ‘um erro justifica o outro’ e, também, exemplos comparando fatos históricos completamente diferenciados ou colocados fora de contexto.

Um bom exemplo desse tipo de argumentação enviesada encontramos quando do debate sobre a anistia a ser concedida ao grupo que atentou contra a democracia brasileira no oito de janeiro de 2023. Quando os artistas Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso e Paulinho da Viola, subiram em um carro de som na Praia de Copacabana para criticar a anistia, em setembro de 2025, seus oponentes, ato contínuo, argumentaram que eles estavam sendo incoerentes, já que foram beneficiados por anistia política anos antes. Ora, acontece que há uma diferença muito grande entre estas duas anistias. No primeiro caso, Chico e Caetano foram condenados pela ditadura por lutar pela democracia; enquanto Bolsonaro e seus generais foram condenados pela democracia por pretenderem instaurar a ditadura. “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” sentencia o dito popular.

O problema maior é que não há como manter um diálogo saudável com um usuário que está confortavelmente instalado dentro de uma bolha digital. A Câmera de Eco é um lugar confortável, socialmente agradável e prazeroso. Em nome da nossa saúde mental, então, resta, reduzir o tempo gasto nestas redes ao mínimo necessário. Não é o caso de sair em definitivo delas, para não se tornar, em plena Era da Tecnologia Absoluta, um Robinson Cruzoé digital.

 

*Magru Floriano é historiador e professor universitário aposentado.

Gente que foge das páginas dos livros para ficar ao nosso lado

Muitos personagens são tão impactantes em nossas vidas que eles passam a habitar nosso dia a dia, como se fossem nossos amigos ou pessoas com as quais temos a obrigação de nos relacionar por imposições sociais. Alguns personagens passam a servir de paradigma, referência para tudo que vemos e analisamos. Clubin, protagonista do livro Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, por exemplo, sempre me serviu de referência para duvidar das boas intenções de algumas pessoas de aparente honestidade. Rei Lear, de Shakespeare, me ajuda a perceber que algumas pessoas envelhecem sem se tornarem sábias; enquanto Iago, do livro Otelo, também de Shakespeare, mostra que a maldade humana não tem fim. Mas, nenhum personagem me ajudou tanto a refletir sobre mim mesmo que Jean Valjean, protagonista de Os miseráveis,  de Victor Hugo.

Essa convivência diária que tenho com Jean Valjean, como se fosse uma pessoa viva que está ao meu lado me orientando, deve-se à minha decisão de combater uma lógica mental que carrego há muito comigo. A lógica de ser muito severo na minha autocrítica e estar sempre me condenando, me criticando, acentuando meus deslizes, erros e defeitos. Por um caminho mental que não sei explicar, agora, sempre que fico buscando fragmentos de coisas supostamente erradas que fiz, coloco Jean Valjean como referência e digo pra mim mesmo: “Não seja tão severo consigo mesmo. Não seja um Valjean. Não se puna eternamente.”

Esta postura extremamente autocrítica está sintetizada em uma frase de Goethe: “É muito raro que a gente se satisfaça a si mesmo; é mais doce ter satisfeito os outros. Quando olhamos nossa vida passada, ella parece-nos toda fragmentada, porque nossas negligências, nossos revezes se apresentam sempre em primeiro lugar ao nosso espírito e levam vantagem, na imaginação, sobre nossos trabalhos e nossos sucessos”.

A minha filosofia de vida está mais embasada em personagens fictícias – que saíram das páginas dos livros para viverem comigo o meu dia a dia – que em livros de Filosofia propriamente dito. Claro que A Ética para Nicômaco, de Aristóteles, tem seu peso em tudo o que penso e faço, assim como as obras de Sêneca, Nietzsche, David Henry Thoreau, Jean-Jacques Rousseau … mas, o Sidarta, de Herman Hesse e, também, Alberto Caeiro e seu O guardador de rebanhos [Fernando Pessoa] são pessoas vivas dentro de mim. Amigos que ajudam a deixar a minha vida mais leve, por possibilitar uma compreensão do meu lado humano e imperfeito, pedindo menos coisas da vida em troca de mais vida. Ter uma vida mais intensa, sendo simples.

Thoreau, Hesse, Fernando Pessoa, Valjean, Sêneca, Aristóteles … todos saíram das páginas dos livros para me habitar. Assim, estou sempre rodeado de bons amigos… e, se alguém me encontrar por aí falando, aparentemente, comigo mesmo, lembre-se que nunca estou só quando estou só, porque tenho o privilégio de ter sempre um Hamlet com quem conversar. [magrufloriano2008@gmail.com.br]

O Ocaso de uma era ou Ditadura do consenso

Uma árvore tombada em plena avenida Marcos Konder nos fornece a imagem emblemática de um governo que experimenta o seu ocaso. Mais que um governo, uma era se finda. Com o término do terceiro Governo Morastoni termina o cenário ocupado por figuras políticas do Pós-64, tempo histórico iniciado com a eleição de 1982 e a volta do pluripartidarismo. No dia primeiro de janeiro de 2025, teremos um prefeito – e muitos elementos de su

Árvore cortada na Avenida Marcos Konder em novembro de 2024

a equipe de governo – oriundo de uma geração que não sofreu o peso da botina de 64 e 68. Robison Coelho, Rubens Angioletti, Níkolas Reis, Anna Carolina Martins … eis o novo em Itajaí. Um novo completamente refém de ideologia única. Um novo que já nasceu velho, refém do extremismo de direita. Uma onda mundial, gigantesca e avassaladora que, em Itajaí, não deixou pedra sobre pedra no castelo ideológico da esquerda. Cenário de protagonismo uniforme, uníssono, que comporta discurso único e padronizado.

De certa forma estamos vivendo uma ditadura da mesma intensidade daquela que experimentamos em 64 e 68. A única diferença é que o povo está elegendo uma massa de políticos de direita e ultradireita. O povo está retirando do cenário a esquerda e suas variações ideológicas do centro à extrema. Então é uma ditadura desejada, consentida. Essa ditadura sem golpe está sendo sustentada eleitoralmente pelos erros grosseiros e reincidentes da esquerda. Tantos são esses erros que sobrou para toda a esquerda brasileira apenas um nome: Luis Inácio da Silva. O presidente, contudo, já demonstrou na última eleição que não pode mais contar apenas com o voto da esquerda e há muito namora com grupos de centro direita. Sobraram a direita e uma versão light de Lula.

Como pensador inorgânico, pacifista, democrata, comprometido com a vida de todos os seres indistintamente … nada espero do futuro imediato tendo essa gente no comando. Se Volnei Morastoni foi uma decepção política, a nova era e sua ‘juventude senil’ não tem essa potencialidade de me decepcionar. Isto porque, nada espero dessa juventude que nasceu embrulhada em ideias velhas, ultrapassadas, que está conduzindo a humanidade e nosso planeta ao desequilíbrio total e irreversível.

A ÁRVORE TOMBADA EM PLENA AVENIDA CENTRAL DE ITAJAÍ É O EMBLEMA DE UM OCASO …. nuvens negras pairam sobre o palácio símbolo do poder republicano em Itajaí.,, e, eu, temo estar falando sozinho ao pedir moderação, equilíbrio, alteridade, compaixão, fraternidade … [Magru Floriano].

Cerimônia fúnebre e mudança de comportamento

Determinadas mudanças ocorrem de maneira tão visível que qualquer pessoa pode perceber a diferença sem grande esforço. A substituição do telefone fixo pelo móvel (celular), da máquina de escrever pelo computador, o sumiço dos jornais impressos, a quantidade de carros nas ruas … são alguns dos exemplos que podemos apresentar para atestar estas mudanças que todos percebem. Contudo, nossa sociedade também está passando por muitas mudanças que não são tão visíveis assim, pelo menos aos olhos daqueles menos acostumados a parar para pensar sobre o seu processo de desenvolvimento.

Por muitos anos nos acostumamos a ler textos filosóficos e sociológicos denunciando que a modernidade trocou o ‘ser’ pelo ‘ter’, tornando o ser humano mais materialista e egoísta. Por muitos e muitos anos, notadamente com o advento do capitalismo e a sociedade industrial, a crítica do modelo ‘time is money’ tomou conta das mentalidades que visavam à desconstrução desta mesma modernidade.

Contudo, agora, o que percebemos é um movimento muito interessante onde o ‘ter’ dá lugar ao ‘ver’. Quando todos esperavam que a humanidade poderia dar um passo para trás e voltar seus valores novamente ao ‘ser’, eis que surge uma nova geração de pessoas dando um passo à frente – seria em direção ao abismo? – instituindo o império total do ‘ver’ sobre o ‘ter’ e o ‘ser’. Nesse novo arcabouço de valores comunitários o que temos é uma lógica muito parecida com a lógica anterior. Se antes tínhamos a ideia de que nada valia a pena se não gerasse valor, riqueza, dinheiro; agora, temos a ideia central de que nada vale a pensa se não gera uma imagem que possa ser compartilhada nas redes sociais ou nas diversas plataformas digitais, como é o caso do Youtube.

Um exemplo claro dessa nova mentalidade coletiva está nas cerimônias fúnebres. Cada vez menos pessoas se propõem a comparecer às cerimônias fúnebres. Não que a pessoa morta seja desprezada socialmente ou não tenha amealhado uma boa quantidade de amigos e admiradores em vida. Não! Ninguém se interessa em participar de cerimônias fúnebres porque elas, devido nossa cultura cristã de respeito aos mortos, não cria um ambiente de espetáculo mediático digital. Não é prudente e aconselhável gravar vídeos e fazer ‘selfie’ em um ambiente como a capela mortuária ou um cemitério.

Fosse no tempo antigo, a cidade parava diante do féretro de um empreendedor como Edison Villela, ocorrido em setembro de 2024. Mas, o que vimos foram algumas pessoas dando depoimentos frios e aleatórios sobre sua contribuição ao desenvolvimento da cidade de Itajaí e ao ensino superior do Estado de Santa Catarina. Depoimentos isolados, conversas isoladas, discursos isolados …. e Edison Villela passou à história. O mesmo aconteceu com sua assessora, que morreu dias antes, professora e escritora Rosa de Lourdes Vieira e Silva. Já estou ficando acostumado a ir nesses eventos e ver no local uma dezena de pessoas, geralmente aparentados e amigos muito próximos.

No mundo do ‘ver’ o ‘time is money’ foi substituído pelo ‘olha eu aqui’. Por essa nova visão de ver as coisas do mundo incorpora-se uma nova escala de valores de forma que até o dinheiro é subestimado diante da possibilidade real de se tirar uma boa foto ou gravar alguns segundos de vídeo. Podemos gastar horas e dias, viajar para outros países, gastar dinheiro para comprar algo inusitado e desejado por muitos … para simplesmente bater uma foto e anunciar nas redes sociais: ‘Olhem eu aqui!’ Nessa nova concepção de mundo Paris é apenas uma foto, assim como o carro novo, a cerimônia de casamento, o aniversário surpresa do melhor amigo … menos a cerimônia fúnebre, esta, para arrepio dos arautos do mundo do ‘ver’ ainda resiste, permanecendo no mundo do ‘ser’ e sua finitude. [Magru Floriano]

Educação à distância

LÁ NO INÍCIO

Considero que fui um dos primeiros acadêmicos de Itajaí a frequentar um curso internacional por via digital. Isso ocorreu no ano de 1998 quando cursava mestrado na FURB – Fundação Universidade Regional de Blumenau. A entidade promoveu convênio com a Lund Univerty Sweden – que mantinha o projeto experimental de ensino à distância por plataforma eletrônica intitulada ‘Universidade Virtual Latinoamericana’.  Por dois meses participei do seminário à distância ‘New Tecnologies and Pedagogical Challenges’. A principal ferramenta era o email. Recebíamos textos na nossa caixa de correspondência e tínhamos um prazo para realizar determinas tarefas. Também fazíamos discussões em grupo promovido nos ambientes do mestrado da Furb. O tema principal era justamente como estaríamos nos preparando para educar utilizando as novas ferramentas digitais.

NOS DIAS ATUAIS

O tempo passou, agora, aposentado, estou percebendo que aquilo que discutíamos em 1998 como sendo o futuro da educação já se tornou obsoleto, passado. A tecnologia avançou muito mais rápido e de forma muito mais intensa do que podíamos prever naquele momento. Nesse período – 1998 a 2014 – ocorreu uma verdadeira tempestade tecnologia na educação. Para ter uma base de referência dessa mudança basta promover uma rápida visita à escola piloto que o SESI montou em Itajaí. Os alunos estão sendo envolvidos por um projeto pedagógico que visa, sobretudo, a inserção no mercado de trabalho – filosofia que está na essência do sistema educacional Sesi. Ali, vi poucas salas de aula e muitos laboratórios de informática. Os alunos constroem robôs, trabalham com impressoras 3D e, frequentam alunas intensivas de programação digital.

Bem, voltando à minha experiência pessoal, eu adquiri pela Internet em 2023 um curso intitulado Chessflix onde, simplesmente, passei a ter aulas em casa com diversos grandes mestres de xadrez brasileiros: Evandro Barbosa, Luiz Paulo Supi, Júlia Alboredo e Henrique Mecking. Antes da Internet, para ter aulas nesse nível teria de me deslocar semanalmente para Curitiba ou São Paulo, pagar hotel, ter agenda mais flexível durante toda a semana, sem falar no alto custo da logística e do próprio curso. Agora, fico na minha casa podendo economizar com transporte, hotel, alimentação fora de casa; escolho horário, quantidade de horas estudadas, nível de aprendizado; posso repetir quantas vezes considerar necessário uma determinada aula …

Em agosto de 2024 resolvi comprar pela Internet um curso de filosofia. Ao preço de duzentos reais, estou frequentando pela plataforma HotMart o curso ‘Demasiado humano’ sobre as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche. Só a primeira aula introdutória vale um seminário presencial inteiro que poderia frequentar nos grandes centros do Brasil ao custo de milhares de reais, considerando inscrição, transporte, hotel, alimentação …

DIGITAL VERSUS PRESENCIAL

Aqui cabe uma ressalva: é claro que eu estou disposto a conhecer pessoalmente toda essa gente que está na Internet me dando aula. Se essas pessoas estiverem por perto, vou atrás delas, ouvi-las pessoalmente, conhece-las em carne e osso, apertar suas mãos e dizer simplesmente – Parabéns, mestres! [Magru Floriano]

Tecnologia da educação: aprendendo xadrez sem sair de casa

Há muito que temos boa parte do conhecimento produzido pela humanidade na ponta de nossos dedos através dos dispositivos eletrônicos que nos oferece a Era Digital. Muitos desses mecanismos nos levaram, em um primeiro momento, pensar que a grande conquista a ser alcançada no setor educacional seria tão-somente o ‘ensino à distância’ em tempo real na comunicação educador-educando. Mas, agora em 2024, percebemos que a tecnologia nos levou muito além. Tudo, absolutamente tudo, está à nossa disposição em qualquer lugar e hora. Podemos aproveitar o tempo perdido na sala de espera de um consultório médico para estudar sobre um determinado assunto ou acompanhar os últimos acontecimentos mundiais via sites noticiosos. O conhecimento está disponível, em tempo real, seja qual for o local ou circunstância que a pessoa esteja envolvida. Eis a grande revolução.

No final de 2023 eu adquiri um ‘Curso de xadrez’ pela plataforma ‘Chessflix’ passando a aprofundar minha base de conhecimento sobre o jogo de xadrez em casa, contando com o apoio de diversos Grandes Mestres, alguns GM Internacionais. Ter aula em casa com enxadristas graduados como Evandro Barbosa, Luis Paulo Supi, Roberto Molina, Júlia Alboredo … é algo inacreditável. Primeiro, porque o custo de um curso presencial individual com um desses mestres deveria ter um preço quase que inacessível; segundo porque eu posso escolher onde e quando vou estudar; terceiro, posso refazer quantas vezes quiser a aula sem qualquer custo adicional e sem perda de qualidade; quarto, posso parar a transmissão da aula para promover, com calma, minhas anotações de aprendizado; quinto, tenho a opção de estudar por níveis diferenciados de conhecimento, facilidade didática extraordinária que auxilia em todo o processo de aprendizagem. Você pode escolher ‘Partindo do zero’ e ir subindo de categoria até chegar ao nível ‘A trilha dos 2000+’.

A verdade é que eu estou em minha casa estudando com os GMs Evandro Barbosa e Supi como fazer uma boa abertura no jogo de xadrez, e, isso, sinceramente, é algo gigantesco. Não precisei sair de casa, a mensalidade é muito menor do que deveria ser no ensino presencial. Sem falar que para ter aula diária com um GM Internacional, aqui em Itajaí – Santa Catarina, seria praticamente impossível. Mas, eu estou em Itajaí e tenho aulas diárias com diversos GMs e devo isso ao uso das tecnologias da Era Digital. Ficou muito mais fácil e barato estudar. O conhecimento está disponível em diversas plataformas – algumas pagas, outras gratuitas – e os obstáculos para a aprendizagem estão praticamente se dissolvendo no ar. Principalmente agora, no Brasil, que todos os cidadãos possuem celular – isso ocorreu com a implantação do PIX e a transferência para a plataforma digital do pagamento de ‘bolsas sociais’ por parte do Governo Federal, a partir do ano de 2020, fazendo sumir o dinheiro físico.

Depois, de estudar na plataforma ‘Chessflix’ eu posso acessar a plataforma ‘Lichess’  e jogar partidas de xadrez com pessoas do mundo inteiro. O computador escolhe o meu adversário de acordo com o meu próprio ‘rating’. Contudo, se preferir, e prefiro, dá de se especializar na resolução de ‘problemas’ ou ‘quebra-cabeças’ … uma forma muito interessante de exercitar sua mente diariamente. Isso tudo gratuitamente. Querer mais o quê?

Novas e velhas palavras

Lendo o livro do memorialista Juventino Linhares ‘O que a memória guardou’ fiquei observando as palavras que eram de uso comum até a década de 1960 e que foram caindo no desuso pela população em geral e, até mesmo, para os jornalistas. Entre estas palavras que ficaram velhas destaco: alcaide [prefeito], logradouro [rua, praça], lazareto [leprosário], nosocômio [hospital], carreira [raia de corrida], facultativo [pessoa formada em faculdade], botica [farmácia]., datilógrafo [digitador].

Mas, em compensação, a nossa vida é invadida por novas palavras diariamente. Principalmente com a Era Digital, foi necessária a criação de novos termos que dessem conta de atender a uma nova realidade. Cada nova tecnologia exige novas palavras. Como o uso de novas tecnologias passou a ter uma velocidade alucinante, as palavras correspondentes a cada uma também surgem em ritmo alucinante. CD, DVD, drone, pendrive, HD externa, bluetooth …. são novos termos para novas tecnologias. Mas temos também palavras antigas que mudam de sentido para poder dar conta de denominar uma nova tecnologia. É o caso, de ‘celular’ e ‘satélite’.

Não faz muito tempo nós incorporamos o termo ‘fake news’ no nosso novíssimo vocabulário para expressar a ideia de que uma informação era falsa. Não bastava a palavra ‘mentira’ ou o termo composto ‘notícia falsa’. De uns tempos para cá deram para invadir nosso cotidiano termos com ‘voucher’ e ‘cachbak’. Todas as propagandas acabam utilizando esses termos para tentar ‘fidelizar’ os clientes a uma determinada marca. Agora, durante o processo eleitoral de 2024, emerge dos labirintos da política partidária uma tal de ‘deepfake’. Segundo consta, seria o uso de Inteligência Artificial para manipular a imagem e/ou a voz de uma pessoa, fazendo com que ela pareça dizer ou fazer algo que comprovadamente não fez. Manipulação de imagem com qualidade de realidade.

A língua oficial da Era da Inteligência Artificial é a língua inglesa. Disso ninguém tem dúvida.  Cada tempo tem sua língua oficial impregnando as demais línguas mundo afora. No tempo de Machado de Assis era comum introduzir termos franceses no texto. No tempo de Padre Antônio Vieira era impossível ser um grande orador sem intercalar no texto algumas máximas latinas. Nisso o Brasil tem um grande prejuízo, porque abriga gerações sucessivas de pessoas que falam apenas uma língua, sendo que a maioria sequer a domina de forma razoável. Encontrar uma pessoa bilingue no Brasil é mais raro do que encontrar pessoas que dominam mais de três línguas na Europa. Isso se deve à nossa realidade colonial de criar o ‘espírito nacional’ e o conceito de ‘pátria’ entre nosso próprio povo. [Magru Floriano]

Duvido, logo penso!

Estamos adentrando uma nova era na história da humanidade. Estamos diante da realização de tudo o que a ficção científica sempre nos apresentou como uma distopia futura. A máquina está conquistando seus ares de humanidade e ganhando a capacidade de pensar como um ser humano.

O primeiro sinal sobre a derrubada das fronteiras entre máquina e ser humano foi dada no ano de 1996 quando o computador da IBM – com o sugestivo nome de Deep Blue [azul profundo] – venceu uma partida de xadrez do insuperável Garry Kasparov. Fez mais, no ano seguinte, atualizado, venceu o match contra Kasparov, selando por definitivo a quebra das fronteiras entre inteligência natural e inteligência artificial. Estava dada a largada para o estabelecimento da Era da Inteligência Artificial.

Agora, em pleno ano de 2024, vejo uma foto de autoria do francês Jerome Brouillet onde o surfista brasileiro Gabriel Medina paira no ar ao lado de sua prancha sobre uma gigantesca onda do mar do Taiti – praia de Teahupoo – onde estavam sendo realizadas as provas de surf das Olimpíadas de Paris. Ao ver a foto fiquei na dúvida sobre sua veracidade. Depois, pesquisando na Internet tive a confirmação de se tratar de foto verdadeira. O fato retratado na foto é verdadeiro.

Desta minha dúvida inicial me adveio um questionamento sobre a minha própria postura diante da mídia atual. Devido ao uso exagerado de ‘fake news’ durante as campanhas eleitorais e, também, nas redes sociais em todos os tempos, comecei a perceber que a minha tendência inicial é sempre duvidar de fotos, vídeos e textos noticiosos cujos conteúdos sejam considerados ‘poucos prováveis’. Foi assim, por exemplo, quando vi uma foto do governador de Santa Catarina com as mãos apoiadas nas nádegas da esposa de um ex-presidente. Comecei a perceber que, dia após dia, cada vez mais fiquei propenso a duvidar das imagens por conta do grande número de manipulações que estão sendo feitas mundo afora.

A coisa ficou tão séria que os grandes conglomerados de notícias resolveram criar serviços especiais para garantir que tal informação ‘não é fake news’ ou, ao contrário, alertar seu leitor de que se trata de ‘fake news’. Neste ano eleitoral de 2024, parece que o uso da IA – Inteligência Artificial – para manipular fotografias e até mesmo modificar o discurso de um político vai dar o tom de muitas campanhas Brasil afora.

Na Era da Inteligência Artificial, portanto, a primeira vítima é o consumidor de informação. Este terá, sempre, de duvidar. Terá de criar um mecanismo próximo da ‘dúvida sistemática’ de Renée Descarts.  No mundo atual a máxima será “Duvido, logo penso !” [Magru Floriano].

Apagão cibernético global

A ficção científica sempre nos apresentou distopias as mais dramáticas possíveis. Na Era Digital a distopia mais corriqueira é aquela que apresenta um mundo em colapso devido a uma pane geral no sistema de computação ou o controle deste mesmo sistema por um robô que ‘traiu’ o seu criador. Pensar em um apagão geral é realmente um pesadelo, porque nos dias atuais tudo, absolutamente tudo, está ligado à rede global dos satélites e computadores. Sem ela não funciona de aeroporto a semáforo na esquina da nossa casa.

Bem, acontece que no dia 29 de julho de 2004 a humanidade teve uma pequena mostra de que esta distopia, até então prevista apenas nas peças de ficção científica, é algo possível de acontecer. A imprensa chamou o fenômeno de ‘Apagão internacional’, ‘Pane global’, ‘Apagão cibernético global’, e, poeticamente, de ‘apagão azul da morte’.  A referência à cor azul deu-se pelo fato de que os telões dos aeroportos ficaram todos azuis, sem qualquer dado para apresentar aos passageiros que esperam sua hora do embarque.

A pane do sistema ocorreu por conta de uma atualização mal-sucedida no sistema de uma empresa privada nos Estados Undios de nome Crowd Strike. Uma desconhecida dos bilhões de mortais que costumam levar suas vidas sem se importarem com o mercado de ações nas bolsas de valores mundiais. Mas, a invisível Crowd Strike promoveu uma ‘espiral de telas azuis’ pelo mundo inteiro, parando por completo aeroportos, portos e até bancos no Brasil. [Magru Floriano]