Muitos personagens são tão impactantes em nossas vidas que eles passam a habitar nosso dia a dia, como se fossem nossos amigos ou pessoas com as quais temos a obrigação de nos relacionar por imposições sociais. Alguns personagens passam a servir de paradigma, referência para tudo que vemos e analisamos. Clubin, protagonista do livro Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, por exemplo, sempre me serviu de referência para duvidar das boas intenções de algumas pessoas de aparente honestidade. Rei Lear, de Shakespeare, me ajuda a perceber que algumas pessoas envelhecem sem se tornarem sábias; enquanto Iago, do livro Otelo, também de Shakespeare, mostra que a maldade humana não tem fim. Mas, nenhum personagem me ajudou tanto a refletir sobre mim mesmo que Jean Valjean, protagonista de Os miseráveis, de Victor Hugo.
Essa convivência diária que tenho com Jean Valjean, como se fosse uma pessoa viva que está ao meu lado me orientando, deve-se à minha decisão de combater uma lógica mental que carrego há muito comigo. A lógica de ser muito severo na minha autocrítica e estar sempre me condenando, me criticando, acentuando meus deslizes, erros e defeitos. Por um caminho mental que não sei explicar, agora, sempre que fico buscando fragmentos de coisas supostamente erradas que fiz, coloco Jean Valjean como referência e digo pra mim mesmo: “Não seja tão severo consigo mesmo. Não seja um Valjean. Não se puna eternamente.”
Esta postura extremamente autocrítica está sintetizada em uma frase de Goethe: “É muito raro que a gente se satisfaça a si mesmo; é mais doce ter satisfeito os outros. Quando olhamos nossa vida passada, ella parece-nos toda fragmentada, porque nossas negligências, nossos revezes se apresentam sempre em primeiro lugar ao nosso espírito e levam vantagem, na imaginação, sobre nossos trabalhos e nossos sucessos”.
A minha filosofia de vida está mais embasada em personagens fictícias – que saíram das páginas dos livros para viverem comigo o meu dia a dia – que em livros de Filosofia propriamente dito. Claro que A Ética para Nicômaco, de Aristóteles, tem seu peso em tudo o que penso e faço, assim como as obras de Sêneca, Nietzsche, David Henry Thoreau, Jean-Jacques Rousseau … mas, o Sidarta, de Herman Hesse e, também, Alberto Caeiro e seu O guardador de rebanhos [Fernando Pessoa] são pessoas vivas dentro de mim. Amigos que ajudam a deixar a minha vida mais leve, por possibilitar uma compreensão do meu lado humano e imperfeito, pedindo menos coisas da vida em troca de mais vida. Ter uma vida mais intensa, sendo simples.
Thoreau, Hesse, Fernando Pessoa, Valjean, Sêneca, Aristóteles … todos saíram das páginas dos livros para me habitar. Assim, estou sempre rodeado de bons amigos… e, se alguém me encontrar por aí falando, aparentemente, comigo mesmo, lembre-se que nunca estou só quando estou só, porque tenho o privilégio de ter sempre um Hamlet com quem conversar. [magrufloriano2008@gmail.com.br]