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Novas tecnologias facilitando o trabalho

No mês de abril de 2026 a Confraria Café de Quinta se reuniu para comemorar o aniversário de 90 anos do engenheiro Paulo Kodaira na Cafeteria Dona Ana. Em certo momento do evento, o artista visual Alfabile Santana pediu para todos saírem até o passeio da Rua XV de Novembro porque iria filmar o grupo com seu novo drone denominado de ‘Orion’.

O pessoal estava reunido na calçada e o Orion começou o seu sobrevoo na pista asfáltica da Rua XV de Novembro para logo em seguida sumir da nossa vista. Horas depois, Alfabile postou as imagens nas redes sociais. Era uma panorâmica da cidade de Itajaí, pegando toda a foz do Rio Itajaí.

Nesse momento eu e Robert Grantham lembramos que, no ano de 2008, quando trabalhávamos na diretoria da Superintendência do Porto de Itajaí, tivemos de alugar um helicóptero para o fotógrafo Ronaldo da Silva Júnior fazer imagens de todos os estabelecimentos que formavam a cadeia logística do Porto de Itajaí. Além do custo altíssimo, enfrentamos as dificuldades operacionais e de segurança. O levantamento aéreo das empresas deu um trabalhão enorme, tendo custos na mesma proporção. Coisa que o drone fez em minutos, com baixo custo e segurança total. Sem falar que as imagens apresentadas pelo drone ‘Orion’ eram de alta qualidade e precisão.

O sobrevoo do ‘Orion’ a partir da Rua XV de Novembro demonstra que a tecnologia efetivamente é uma grande aliada na captação de imagens, não obstante algumas pessoas estarem fazendo mau uso dela e corrompendo o ambiente com distorções primárias do acervo histórico, como é o caso da colorização de fotos antigas contendo erros grosseiros.

Fica estabelecido que não devemos criticar ou combater o uso de novas tecnologias no setor de coleta e divulgação de imagens, mas combater o uso irresponsável de determinadas tecnologias que acabam ameaçando a integridade de todo o banco de dados pictórico que o Município de Itajaí possui. Combater o mau uso ou a manipulação inadequada de tecnologias é diferente de combater a tecnologia em si. O problema não está no equipamento, mas em quem opera o equipamento.

Inteligência Artificial: o perigo da manipulação de imagem

As pilhas de madeira foram transformadas em casas populares.

Nas minhas aulas de Sociologia da Comunicação na Univali – Universidade do Vale do Itajaí – mantinha uma coleção de lâminas para retroprojetor com reproduções de fotos que foram manipuladas pela ditadura stalinista, visando defenestrar Leon Trotsky da História da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Isso, nas décadas de 80 e 90, era considerada uma exceção, algo tecnicamente muito difícil de ser feito. Passadas algumas décadas temos recursos tecnológicos em nossos celulares para fazer muito mais do que apenas tirar uma pessoa indesejada da foto. Aquilo que apenas um regime totalitário conseguia fazer, agora, pode ser feito por qualquer pessoa. Eis o mundo contemporâneo na sua imposição tecnológica absoluta.

Nos últimos meses ocorreu uma adesão em massa a programas que manipulam imagens e textos com o uso de IA – Inteligência Artificial – potencializando de forma exponencial a manipulação de todo o conteúdo digital existente nos computadores. O primeiro alerta dos especialistas veio com a confirmação de que a IA ‘alucina’, inventando, manipulando, corrompendo textos e suas respectivas traduções. Quando algo não é ‘inteligível’ para o robot ele simplesmente inventa algo para colocar no lugar.

Acontece que agora, com o uso massivo de IA para colorizar e restaurar imagens, o mesmo fenômeno parece estar ocorrendo. O robot ‘alucina’, inventando formas e completando imagens com algum dano ou pouca definição. Parece que a IA utiliza de forma incorreta a ideia da Gestalt que estabelece que o cérebro humano tem a tendência natural de ‘completar’ algo que se apresenta à sua frente de forma incompleta …

Então, o robot está reproduzindo grandes defeitos da mente humana: está alucinando diante do que não conhece ou não tem capacidade de identificar; está completando e preenchendo imagens que não consegue definir com precisão visual no seu todo. Pelo menos em um ponto o ser humano leva vantagem na disputa com a IA. Trata-se do fato de que a alucinação humana leva a uma criatividade ilimitada, com mitos, fantasias, contos, literatura, mitologia …

O perigo dessa ‘alucinação’ e tendência de definir o que não está definido em imagem, nos leva a corromper todo o nosso banco de dados sobre a memória de nossa comunidade. As fotos que atualmente estão sendo colorizadas por IA, deixando o original preto e branco de lado, estão circulando muito rapidamente nas redes sociais. Esses erros, logo ali na frente, não serão detectados pelas novas gerações de estudantes, professores e pesquisadores e a imagem distorcida será considerada a expressão da realidade.

Dia desses uma foto aérea de Itajaí em preto e branco apareceu colorizada por IA nas redes sociais. Nela recebia destaque o prédio do Instituto Nacional do Pinho e seu pátio de depósito de madeira à margem da ferrovia EFSC (atual Avenida Vereador Abrão João Francisco – Contorno Sul). As pilhas de madeira foram transformadas em casas, com telhados e janelas. A IA transformou pilhas de madeira em casas, e o depósito de madeira do INP em loteamento popular. A foto já está circulando nas redes, como impedir que ela seja reproduzida nas escolas? Não tem mais como … eis o grande problema.

Duvido, logo penso!

Estamos adentrando uma nova era na história da humanidade. Estamos diante da realização de tudo o que a ficção científica sempre nos apresentou como uma distopia futura. A máquina está conquistando seus ares de humanidade e ganhando a capacidade de pensar como um ser humano.

O primeiro sinal sobre a derrubada das fronteiras entre máquina e ser humano foi dada no ano de 1996 quando o computador da IBM – com o sugestivo nome de Deep Blue [azul profundo] – venceu uma partida de xadrez do insuperável Garry Kasparov. Fez mais, no ano seguinte, atualizado, venceu o match contra Kasparov, selando por definitivo a quebra das fronteiras entre inteligência natural e inteligência artificial. Estava dada a largada para o estabelecimento da Era da Inteligência Artificial.

Agora, em pleno ano de 2024, vejo uma foto de autoria do francês Jerome Brouillet onde o surfista brasileiro Gabriel Medina paira no ar ao lado de sua prancha sobre uma gigantesca onda do mar do Taiti – praia de Teahupoo – onde estavam sendo realizadas as provas de surf das Olimpíadas de Paris. Ao ver a foto fiquei na dúvida sobre sua veracidade. Depois, pesquisando na Internet tive a confirmação de se tratar de foto verdadeira. O fato retratado na foto é verdadeiro.

Desta minha dúvida inicial me adveio um questionamento sobre a minha própria postura diante da mídia atual. Devido ao uso exagerado de ‘fake news’ durante as campanhas eleitorais e, também, nas redes sociais em todos os tempos, comecei a perceber que a minha tendência inicial é sempre duvidar de fotos, vídeos e textos noticiosos cujos conteúdos sejam considerados ‘poucos prováveis’. Foi assim, por exemplo, quando vi uma foto do governador de Santa Catarina com as mãos apoiadas nas nádegas da esposa de um ex-presidente. Comecei a perceber que, dia após dia, cada vez mais fiquei propenso a duvidar das imagens por conta do grande número de manipulações que estão sendo feitas mundo afora.

A coisa ficou tão séria que os grandes conglomerados de notícias resolveram criar serviços especiais para garantir que tal informação ‘não é fake news’ ou, ao contrário, alertar seu leitor de que se trata de ‘fake news’. Neste ano eleitoral de 2024, parece que o uso da IA – Inteligência Artificial – para manipular fotografias e até mesmo modificar o discurso de um político vai dar o tom de muitas campanhas Brasil afora.

Na Era da Inteligência Artificial, portanto, a primeira vítima é o consumidor de informação. Este terá, sempre, de duvidar. Terá de criar um mecanismo próximo da ‘dúvida sistemática’ de Renée Descarts.  No mundo atual a máxima será “Duvido, logo penso !” [Magru Floriano].