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Proibido olhar à direita

Dia desse estava passeando pela avenida Prefeito Paulo Bauer, às margens do Rio Itajaí, quando me deparei com um pescador jogando algumas puçás na água barrenta do rio a partir de um trapiche abandonado. Fui até o local para fotografar a atividade tradicional de nossa gente quando se aproximou um turista vindo de Porto Alegre. Ele falava que estava maravilhado com tudo que via aqui em Itajaí, enquanto meu desconforto de itajaiense ia aumentando ao ver próximo de seus pés um amontoado de lixo, provavelmente deixado no local por barcos pesqueiros que ali atracaram anteriormente.

Sinceramente não dá de entender como a Prefeitura deixa a situação chegar naquele nível de abandono. Empresas ricas simplesmente tratam os seus trapiches com um descaso impressionante. Por outro lado, é de se perguntar sobre a última vez que Vigilância Sanitária, fiscalização da Secretaria de Obras e demais órgãos da Prefeitura visitaram o local.

Interessante perceber o contraste ali existente. Enquanto no outro lado da avenida a municipalidade cobra tudo e mais um pouco dos proprietários de prédios tombados como Patrimônio Histórico Edificado – são os casos da Companhia Bauer, Casa Malburg, Fiscalização do Porto e Casa Almeida & Voigt – ali, todo o sistema de fiscalização e até mesmo a Secretaria de Turismo simplesmente fazem de contas que não veem. Tudo abandonado, entre lixo e tábuas podres.

De que adianta preservar os casarios históricos, limpar a avenida, colocar protetores laterais de metal …. se a vista dos trapiches e das casinhas neles erguidas parece coisa de desleixo institucionalizado. A Secretaria de Turismo diz o que para um turista que atravessa o ferry boat vindo do Aeroporto de Navegantes?

Quem sabe vai colocar uma placa com os dizeres: ‘Proibido olhar à direita!”

Brincando com a história: quando o Pallas vira Titanic

Dia desse li na imprensa matéria que se referia ao navio Pallas, naufragado na barra do Rio Itajaí no ano de 1893, durante a Revolução Federalista, como sendo o ‘Titanic de Itajaí’ ou o ‘Titanic de Santa Catarina’. Parece que a Internet é um poço sem fundo quando se trata da irresponsabilidade de quem elabora conteúdo para as redes sociais. Agora, contudo, o problema se torna mais grave, porque as plataformas de IA – Inteligência Artificial – estão utilizando essas postagens que distorcem fatos justificando-as em uma linguagem mais acadêmica. Replicam os erros acriticamente.

Quando perguntamos à Inteligência Artificial do Google sobre quem inventou a expressão ‘Titanic de Itajaí’ ele simplesmente responde que ‘… surgiu como uma expressão popular e midiática da própria região’. Mas, convenhamos, uma ‘expressão popular’ teria de ser algo utilizado por muitas pessoas, por muito tempo, de tal forma que se transformasse em um bem cultural da comunidade. O que, efetivamente, não é o caso.

Quando perguntamos à Inteligência Artificial do Google sobre ‘os motivos que levaram a comunidade e a imprensa local a colocarem o apelido de Titanic ao Pallas’ ele deu como principal motivo de comparação o fato dos dois navios terem se partido ao meio. Diz mais: ‘Associar o naufrágio local ao navio mais famoso do mundo funciona como uma metáfora perfeita para atrair a atenção do público e das autoridades sobre a magnitude e a importância história dos destroços.”

Seria mesmo uma ‘metáfora perfeita’? Os destroços do Pallas têm a ‘magnitude e a importância histórica’ do Titanic?

Inventando verdades

Como podemos perceber, a IA – Inteligência Artificial – está potencializando um dos grandes defeitos das redes sociais: a irresponsabilidade na elaboração e divulgação de conteúdos. A IA está replicando o erro. Pior, está dando uma redação e um status de dado técnico concreto. Quem lê uma nota elaborada pela IA tem a nítida sensação de que está recebendo conteúdo de ‘alguém’ que efetivamente sabe do que está falando. Logo ali na frente, perderemos por completo a possibilidade de saber o que é verdade e o que é mentira nas mídias sociais. Se é possível transformar o Pallas em um Titanic, então, podemos afirmar que o futuro já chegou a nós. O Pallas é o nosso Titanic e … a vida segue.