{"id":321,"date":"2022-03-25T21:34:21","date_gmt":"2022-03-26T00:34:21","guid":{"rendered":"https:\/\/magru.com.br\/web\/?p=321"},"modified":"2022-03-25T21:38:13","modified_gmt":"2022-03-26T00:38:13","slug":"arte-ou-pichacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/magru.com.br\/web\/arte-ou-pichacao\/","title":{"rendered":"ARTE OU VANDALISMO ?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_322\" style=\"width: 380px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-322\" class=\"wp-image-322\" src=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/vandalismo-e-arte-4-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"487\" \/><p id=\"caption-attachment-322\" class=\"wp-caption-text\">Monumento alusivo aos 500 anos do descobrimento do Brasil &#8211; Pra\u00e7a Jo\u00e3o Bauer &#8211; tendo ao fundo o muro do Grupo Escolar Victor Meirelles.<\/p><\/div>\n<p>Quem costuma andar com calma pela cidade est\u00e1 habituado a apreciar in\u00fameras obras de arte elaboradas tendo como base grandes \u00e1reas muradas. Terminal Portu\u00e1rio de Itaja\u00ed \u2013 rua Blumenau; Forum Universit\u00e1rio &#8211; avenida vereador Abra\u00e3o Jo\u00e3o Francisco; Casa da arte \u2013 rua Silva; Grupo Escolar Victor Meirelles &#8211; Pra\u00e7a Jo\u00e3o Bauer &#8230; s\u00e3o alguns bons exemplos da arte do <strong>grafite<\/strong> exercida com maestria em Itaja\u00ed. Contudo, tamb\u00e9m encontramos muita <strong>picha\u00e7\u00e3o <\/strong>[<strong>pixo<\/strong>], principalmente nas pra\u00e7as p\u00fablicas e seus monumentos. A diferen\u00e7a entre <strong>grafite<\/strong> e <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong> j\u00e1 rendeu muita pol\u00eamica no meio art\u00edstico e, pelo jeito, vai continuar rendendo por muito tempo.<\/p>\n<p>A Pra\u00e7a Jo\u00e3o Bauer, em pleno centro da cidade de Itaja\u00ed, \u00e9 um bom exemplo desse embate feroz entre <strong>grafite<\/strong> e <strong>pixo<\/strong>. Enquanto os muros do Grupo Escolar Victor Meirelles est\u00e3o servindo de base para a arte do <strong>grafite<\/strong> &#8211; merecendo de todos os transeuntes aprova\u00e7\u00e3o e reconhecimento &#8211; pisos e bustos dessa mesma pra\u00e7a est\u00e3o servindo de base para a manifesta\u00e7\u00e3o dos adeptos da <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong>. Contudo, ao contr\u00e1rio do que acontece com a arte no muro, a <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong> n\u00e3o tem a aprova\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e usu\u00e1rios da pra\u00e7a, muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A arte de muro tem um apelo est\u00e9tico voltado para a imagem colorida, com um visual muito pr\u00f3ximo das artes de galerias e, por isso mesmo, dando um aspecto mais saud\u00e1vel para o ambiente da cidade. Bonitas e coloridas as obras do <strong>grafite<\/strong> acabam at\u00e9 mesmo valorizando o im\u00f3vel que utilizam como refer\u00eancia. Obviamente que todo mundo prefere o <strong>grafite<\/strong> \u00e0 est\u00e9tica do abandono. Em contrapartida o <strong>pixo<\/strong> deteriora e desvaloriza o patrim\u00f4nio que usa como base. Na Pra\u00e7a Jo\u00e3o Bauer o pr\u00f3prio busto do pol\u00edtico que empresta seu nome \u00e0quele espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 reiteradamente pichado, o mesmo ocorrendo com o monumento alusivo aos quinhentos anos do descobrimento do Brasil.<\/p>\n<p>O <strong>grafite<\/strong> usa mais a imagem, enquanto o <strong>pixo<\/strong> utiliza mais a escrita. O <strong>gravite<\/strong> \u00e9 uma arte de rua que valoriza o espa\u00e7o que ocupa, enquanto o <strong>pixo<\/strong> est\u00e1 vinculado ao protesto contra a sociedade de modo geral. \u00c9 a pol\u00edtica da degrada\u00e7\u00e3o de um bem para ferir valores da sociedade, como propriedade e est\u00e9tica burguesas. O <strong>pixo<\/strong>, portanto, ser\u00e1 sempre vinculado \u00e0 arte de protesto, arte marginal ao sistema, seus valores e vultos. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o busto de Jo\u00e3o Bauer sempre merece por parte dos pichadores um bigodinho no estilo Hitler, apesar dos pichadores saberem muito pouco ou quase nada sobre a vida e obra desse pol\u00edtico itajaiense. \u00c9 o protesto pelo protesto. O protesto que se basta em si mesmo. \u201cO meio \u00e9 a mensagem\u2019 como sentenciava o canadense Marshall Macluhan.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que podemos considerar a picha\u00e7\u00e3o de um monumento, este em si um objeto de arte, como uma forma de express\u00e3o art\u00edstica? At\u00e9 que ponto <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong> e arte podem tem fins comuns? Qual a fronteira entre vandalismo e <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong>? A arte que destr\u00f3i e corrompe uma outra obra de arte pode ser considerada arte? Ela \u00e9 \u00fatil, necess\u00e1ria, aceit\u00e1vel, desej\u00e1vel, \u00e9tica &#8230;? Em um mundo padronizado, acinzentado, polu\u00eddo &#8230; agir para deteriorar obras de artes em ambientes abertos p\u00fablicos, deixando tudo ainda mais feio, \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que tem m\u00e9rito? A\u00e7\u00e3o que enfeia o que \u00e9 belo pode ser considerada uma a\u00e7\u00e3o art\u00edstica? O feio tamb\u00e9m pode pertencer ao campo da arte? Enfim, o <strong>pixo<\/strong> \u00e9 arte ou deve, t\u00e3o-somente, ser visto como uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia de desvalorizar o patrim\u00f4nio [p\u00fablico e privado] que lhe serve de base, obviamente, confere ao <strong>pixo<\/strong> uma condi\u00e7\u00e3o existencial de marginalidade. Destruir, enfear, desvalorizar, desmotivar&#8230; s\u00e3o todos verbos negativos que, inevitavelmente, est\u00e3o sempre vinculados \u00e0 pr\u00e1tica do <strong>pixo<\/strong>. Uma negatividade marginal que \u00e9 desejada por seu autor, sempre um militante, um ator engajado na luta contra a sociedade e seu <em>status quo<\/em>. Ao pichar um monumento o que se busca \u00e9 agredir o sistema e sua est\u00e9tica conformista e hegem\u00f4nica. Sem utilizar imagens e, sequer formular uma frase inteira com sentido e mensagem, o <strong>pixo<\/strong> pretende dizer tudo atrav\u00e9s do ato em si. Sendo assim, sequer precisa se explicar e ter sentido. Por isso que alguns cr\u00edticos consideram a <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong> como a mais pura das express\u00f5es art\u00edsticas, uma vez que ela n\u00e3o passa por filtros da cultura ocidental como raz\u00e3o, consci\u00eancia, l\u00f3gica &#8230;. \u00e9 lava incandescente vinda diretamente de um vulc\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o chamado inconsciente.<\/p>\n<p>Contudo, parece evidente que o movimento apresenta in\u00fameras contradi\u00e7\u00f5es. A principal delas est\u00e1 nitidamente representada na disputa por conquistar territ\u00f3rio atrav\u00e9s das picha\u00e7\u00f5es cada vez mais ousadas e onipresentes. Essa ubiquidade busca, por sua vez, conquista de <em>status<\/em> entre seus adeptos tribais. Ent\u00e3o, ao mesmo tempo que nega todos os valores da sociedade contempor\u00e2nea, volta-se sobre sua pr\u00f3pria ess\u00eancia para desejar uma <em>omni praesentia<\/em> que lhe confere <em>status<\/em> na tribo marginal. N\u00e3o fosse esse desejo de onipresen\u00e7a territorial as marcas deixadas n\u00e3o seriam todas padronizadas e seus feitores fariam marcas diferentes e aleat\u00f3rias a cada interven\u00e7\u00e3o. Mas, cada membro tribal tem sua marca e esta, por sua vez, merece reconhecimento dos demais e, por isso mesmo, tem <em>status<\/em>.<\/p>\n<p>Colocar uma marca em lugar de dif\u00edcil acesso, demonstrando ousadia e destemor, rindo do perigo, confrontando propriet\u00e1rios e autoridades, apresentando \u00e0 cidade o improv\u00e1vel e o in\u00fatil &#8230; confere ao seu autor status e reconhecimento. Essa compensa\u00e7\u00e3o social, mesmo que restrita \u00e0 pequena tribo urbana dos pichadores, confere aos demolidores da est\u00e9tica urbana burguesa a possibilidade da constru\u00e7\u00e3o de uma nova ordem est\u00e9tica. Ent\u00e3o, querendo eles ou n\u00e3o, ao destruir est\u00e3o construindo. O que resta, no sil\u00eancio de todas as madrugas em que atuam os pichadores, \u00e9 saber se o que pretendem destruir vai dar lugar a algo melhor para eles e para todos os seres vivos sobre o planeta terra.<\/p>\n<p>Afinal, o ato pol\u00edtico da <strong>picha\u00e7\u00e3o<\/strong> \u00e9 uma utopia ou distopia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem costuma andar com calma pela cidade est\u00e1 habituado a apreciar in\u00fameras obras de arte elaboradas tendo como base grandes \u00e1reas muradas. 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