{"id":326,"date":"2022-04-03T11:31:18","date_gmt":"2022-04-03T14:31:18","guid":{"rendered":"https:\/\/magru.com.br\/web\/?p=326"},"modified":"2022-04-03T11:31:18","modified_gmt":"2022-04-03T14:31:18","slug":"a-pandemia-do-barulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/magru.com.br\/web\/a-pandemia-do-barulho\/","title":{"rendered":"A PANDEMIA DO BARULHO"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-327 alignright\" src=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/cabe\u00e7udas-in\u00edcio-do-s\u00e9culo-vinteTRATADA-300x184.png\" alt=\"\" width=\"522\" height=\"327\" \/>Nasci em Itaja\u00ed no ano de 1956 e nunca senti essa sensa\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o total e desordenada dos espa\u00e7os p\u00fablicos que sinto nos dias de hoje. Para todos os lados que olho tem uma multid\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais um cantinho sequer onde posso contemplar a natureza, andar calmamente ou sentar em um banco sem que escute barulhos de canos de escapes desregulados, buzinas de carros e caminh\u00f5es em engarrafamentos, sons alucinantes de pequenas caixas de som. Pra\u00e7as, ruas, praias, mirantes, rodovias, pesque-pagues &#8230; tudo lotado. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o sil\u00eancio \u00e9 a grande v\u00edtima da pandemia do Coronav\u00edrus, transformando a era p\u00f3s pandemia em um tempo de culto ao barulho.<\/p>\n<p>Sa\u00eddas do confinamento social imposto pela pandemia as pessoas demonstram uma intensa necessidade de ver gente, fazer barulho, gritar por liberdade e refazer sociabilidades. Parece que elas sentem como se estivessem acordando de um estado de coma prolongado, e, agora, desejam recuperar o tempo perdido. Demonstram que est\u00e3o com pressa, agitadas, irrequietas. Nesse momento, quanto mais barulho melhor, quanto mais gente melhor, quanto mais agita\u00e7\u00e3o melhor. As pessoas querem aproveitar intensamente o momento como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3. Elas perderam a tranquilidade e o senso de aproveitar o tempo ao seu tempo, um dia ap\u00f3s o outro, com parcim\u00f4nia. Querem tudo agora, nesse exato momento. Um ambiente psicol\u00f3gico de \u2018present\u00edssimo\u2019\u00b2, onde as refer\u00eancias existenciais de passado e futuro s\u00e3o completamente anuladas. S\u00f3 existe o presente e, ele deve ser vivido intensamente.<\/p>\n<p>Quando passo por alguns pontos do meu \u2018territ\u00f3rio de inf\u00e2ncia\u2019\u00b9 \u00e9 inevit\u00e1vel que fa\u00e7a algumas compara\u00e7\u00f5es \u2013 confrontando imagens do presente e do passado \u2013 demonstrando total perplexidade com o que est\u00e1 ocorrendo atualmente. Ali, na rua Indaial, eu andava sobre os trilhos do trem para transitar entre o Bairro S\u00e3o Jo\u00e3o e o Parque Dom Bosco. Era um caminho de brincadeiras e raramente via um carro ou carro\u00e7a passando na rua que corria paralela aos trilhos. Hoje, est\u00e1 quase imposs\u00edvel transitar pela rua Indaial, porque tem engarrafamento a toda hora em qualquer dia da semana.<\/p>\n<p>Por toda a cidade existiam grandes \u00e1reas de terras n\u00e3o cercadas que serviam para a improvisa\u00e7\u00e3o de um n\u00famero intermin\u00e1vel de campinhos de futebol. Era dif\u00edcil encontrar uma rua que n\u00e3o tivesse pelo menos um campinho de futebol com piso de cepilho e p\u00f3-de-serra. Eram as nossas \u00e1reas de lazer, improvisadas, sem a necessidade da Prefeitura gastar dinheiro com infraestrutura e equipamentos. Hoje, \u00e9 carro para todos os lados &#8211; transitando e parado. Encontrar uma vaga de estacionamento nas ruas de Itaja\u00ed \u00e9 uma miss\u00e3o que requer muita paci\u00eancia mesmo nas \u00e1reas urbanas perif\u00e9ricas. Todo mundo quer carro e moto, deixando o transporte coletivo \u00e0 mingua, sobrevivendo \u00e0s custas do favor p\u00fablico. Sem a rua para exercer suas sociabilidades o povo ruma, em fila, para a \u00e1rea litor\u00e2nea. Diariamente, uma multid\u00e3o ocupa o \u2018Caminho de Sodegaura\u2019 em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cabe\u00e7udas. A Praia Brava, que era uma praia agreste, onde cheguei a acampar e pescar em total solid\u00e3o, est\u00e1 sendo minada por condom\u00ednios de luxo compostos por edif\u00edcios gigantescos. J\u00e1 n\u00e3o existe limite vis\u00edvel entre as cidades de Itaja\u00ed e Balne\u00e1rio Cambori\u00fa e, tudo indica que em menos de uma d\u00e9cada o mesmo deve ocorrer em dire\u00e7\u00e3o a Brusque, Ilhota e Cambori\u00fa.<\/p>\n<p>Meu \u2018territ\u00f3rio de inf\u00e2ncia\u2019 foi invadido por uma horda de b\u00e1rbaros que no lugar de usar espadas usam caixas de som e buzinas. [magrufloriano2008@gmail.com].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1 \u2013 Territ\u00f3rio de inf\u00e2ncia &#8211; express\u00e3o utilizada por Lausimar Laus.<\/p>\n<p>2 \u2013 Present\u00edssimo \u2013 termo utilizado por Magru Floriano no seu ensaio intitulado \u2018O tempo da hist\u00f3ria \u2013 reflex\u00f5es sobre o tempo, mem\u00f3ria e hist\u00f3ria\u2019, ainda em manuscrito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci em Itaja\u00ed no ano de 1956 e nunca senti essa sensa\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o total e desordenada dos espa\u00e7os p\u00fablicos que sinto nos dias de hoje. Para todos os lados que olho tem uma multid\u00e3o. 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