{"id":330,"date":"2022-04-18T19:36:17","date_gmt":"2022-04-18T22:36:17","guid":{"rendered":"https:\/\/magru.com.br\/web\/?p=330"},"modified":"2022-04-18T19:36:17","modified_gmt":"2022-04-18T22:36:17","slug":"as-sementes-da-minha-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/magru.com.br\/web\/as-sementes-da-minha-infancia\/","title":{"rendered":"AS SEMENTES DA MINHA INF\u00c2NCIA"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-331 alignright\" src=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas-300x225.jpg 300w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas-768x576.jpg 768w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas-1170x878.jpg 1170w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/baguinhas.jpg 2016w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>No in\u00edcio do m\u00eas de abril [2021] afixei na parede da minha casa de praia em Mariscal [Bombinhas \u2013 SC] um quadro-montagem contendo centenas de baguinhas [sementes] que coletei durante d\u00e9cadas em passeios junto \u00e0 natureza. Eram coletadas sempre em um clima de reminisc\u00eancia do tempo de crian\u00e7a. Naquele tempo, d\u00e9cadas de 1950 e 1960, ainda n\u00e3o tinha sido incorporada no nosso cotidiano a ind\u00fastria do pl\u00e1stico, e, as fam\u00edlias pobres e de classe m\u00e9dia n\u00e3o tinham poder aquisitivo para comprar os brinquedos mais sofisticados ofertados nas lojas. Restava, portanto, a criatividade infantil. Sendo assim, todos os elementos encontrados no entorno de uma crian\u00e7a acabam sendo utilizados na elabora\u00e7\u00e3o de brinquedos, de lata velha a osso de boi, de sementes a galhos de \u00e1rvores; de peda\u00e7os de madeira a cepilho e p\u00f3 de serra. Tudo era utilizado para compor o mundo l\u00fadico em que viv\u00edamos.<\/p>\n<p>A baga de mamona era a nossa preferida para promovermos guerrinhas individuais ou coletivas. Muitas vezes, dependendo da intensidade da rivalidade existente entre os grupos, as sementes eram arremessadas atrav\u00e9s da tradicional funda [estilingue]. Outro artefato b\u00e9lico era a pequena semente do bir\u00fa. Ela era introduzida na boca e soprada em um canudinho feito de galho de mamoeiro, servindo desta forma como uma zarabatana improvisada. Uma das sementes mais requisitadas no meu grupo de inf\u00e2ncia era a conhecida coronha ou olho-de-boi, por n\u00f3s denominada de \u2018esquenta\u2019 porque ao ser friccionada sobre uma pedra acabava adquirindo temperatura expressiva a ponto de ser detectada na pele.<\/p>\n<p>Sobre a coronha tenho um aprendizado doloroso. Acontece que sempre brincava com essas bagas em Cabe\u00e7udas, onde minha fam\u00edlia tinha casa de praia. Quando levava elas para o Bairro S\u00e3o Jo\u00e3o, onde residi at\u00e9 os quinze anos de idade, elas sempre faziam muito sucesso. Acontece que, por imagina\u00e7\u00e3o infantil, sempre pensei que a coronha era a semente desgastada pela a\u00e7\u00e3o do mar e do sol dos tradicionais sombreiros de Cabe\u00e7udas. Por\u00e9m, durante uma expedi\u00e7\u00e3o cultural que fiz em companhia do memorialista Isaque de Borba Corr\u00eaa \u00e0 Praia do Forte, em S\u00e3o Francisco do Sul, por volta do ano 2000, ele me apresentou a coronha como sendo a baga de um cip\u00f3. Ficamos discutindo durante toda a caminhada: eu argumentando tratar-se da semente da \u00e1rvore sombreiro; ele, argumentando tratar-se da semente de um cip\u00f3.<\/p>\n<p>No meio da subida de um morro por mata nativa ele avistou \u00e0 beira do caminho um desses cip\u00f3s e mandou eu pegar uma vagem para constatar que realmente ali dentro iria ser encontrada a tal da Coronha. Eu relutei, mas peguei uma vagem com toda a for\u00e7a para retir\u00e1-la do cip\u00f3. Nesse momento senti dores por toda a minha m\u00e3o. Assim, aprendi, na dor, porque o cip\u00f3 tamb\u00e9m era conhecido como p\u00f3-de-mico. A vagem era revestida por pequen\u00edssimos espinhos que deixaram minha m\u00e3o dolorida por dias. Sofri duplamente com essa experi\u00eancia: primeiro que realmente a coronha era a semente de uma vagem de cip\u00f3: segundo, a vagem \u00e9 revestida por espinhos fin\u00edssimos que maltratam intensamente a m\u00e3o de quem as pega sem a devida prote\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje, quando o Isaque me v\u00ea com uma baguinha coronha, e eu estou sempre com uma no bolso, fica com aqueles ares de que me ensinou uma li\u00e7\u00e3o pela dor para eu deixar de ser teimoso.<\/p>\n<p>Bem, mas no quadro que afixei na parede tem ainda outras sementes. Uma que considero especial \u00e9 a semente L\u00e1grima de Nossa Senhora que eu, n\u00e3o sei tamb\u00e9m porque, sempre chamei de Semente de Santa Terezinha. Com ela faz\u00edamos todo tipo de artesanato, como colares, pulseiras, cintos e at\u00e9 ros\u00e1rios. Uma outra semente que sempre colho quando vejo \u00e9 a semente de Bir\u00fa. Pequena, preta, encho a m\u00e3o delas e saio pela rua chutando-as como se estivesse na Rua Max, no Bairro S\u00e3o Jo\u00e3o de antanho. Aqui perto de casa, nos muros da casa do artista Silvestre Jo\u00e3o de Souza J\u00fanior [casa abandonada ap\u00f3s seu falecimento] tem dois p\u00e9s de Bir\u00fa que me fornecem durante bom tempo do ano essas baguinhas. Quando passo pela Travessa Moritz sempre pegos as baguinhas e saio chutando-as, uma por uma, at\u00e9 a Jo\u00e3o Bauer. Parece at\u00e9 coisa de maluco, mas \u00e9, na verdade, minhas reminisc\u00eancias de inf\u00e2ncia n\u00e3o deixando a crian\u00e7a que tenho em mim morrer.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acho muito lindas as sementes de Garapuvu. Mas essas n\u00e3o fizeram parte da minha inf\u00e2ncia diretamente. Comecei a perceb\u00ea-las por sua beleza est\u00e9tica caminhando na estrada alta de Cabe\u00e7udas, aquela que vai para o Morro Cortado, quando j\u00e1 era adolescente. Ali tem diversos garapuvus gigantes que espalham muitas dessas sementes pelo leito da estrada. Quem passa a p\u00e9 pelo local n\u00e3o tem como n\u00e3o perceb\u00ea-las. Lindissimas.<\/p>\n<p>Garapuvu, bir\u00fa, mamona, l\u00e1grima de Nossa Senhora, olho de boi &#8230;. qual semente fez parte das suas brincadeiras de crian\u00e7a? [magrufloriano2008@gmail.com].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio do m\u00eas de abril [2021] afixei na parede da minha casa de praia em Mariscal [Bombinhas \u2013 SC] um quadro-montagem contendo centenas de baguinhas [sementes] que coletei durante d\u00e9cadas em passeios junto \u00e0 natureza. Eram coletadas sempre em um clima de reminisc\u00eancia do tempo de crian\u00e7a. Naquele tempo, d\u00e9cadas de 1950 e 1960,&hellip; <a href=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/as-sementes-da-minha-infancia\/\">Continue reading&#8230;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[39,37,40,38,41,36],"class_list":["post-330","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-biru","tag-brincadeiras-de-crianca","tag-garapuvu","tag-lagrima-de-nossa-senhora","tag-mamona","tag-sementes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":332,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330\/revisions\/332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}