{"id":350,"date":"2022-06-30T11:13:53","date_gmt":"2022-06-30T14:13:53","guid":{"rendered":"https:\/\/magru.com.br\/web\/?p=350"},"modified":"2022-06-30T15:17:32","modified_gmt":"2022-06-30T18:17:32","slug":"cecilia-meireles-e-seu-grito-de-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/magru.com.br\/web\/cecilia-meireles-e-seu-grito-de-liberdade\/","title":{"rendered":"CEC\u00cdLIA MEIRELES E SEU GRITO DE LIBERDADE"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-352 alignright\" src=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia-206x300.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia-206x300.jpg 206w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia-768x1120.jpg 768w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia-702x1024.jpg 702w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia-1170x1707.jpg 1170w, https:\/\/magru.com.br\/web\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/cecilia.jpg 1755w\" sizes=\"auto, (max-width: 206px) 100vw, 206px\" \/>No col\u00e9gio era comum estudarmos os grandes escritores nacionais relacionando seus nomes e obras em uma listinha quase imposs\u00edvel de ser decorada. Ali\u00e1s, lista era o que n\u00e3o faltava em tempos de provas. Geralmente eram listas contendo os \u2018dez mais\u2019: rios, montanhas, lagos, pa\u00edses &#8230; Quem conseguia decorar estas listinhas era considerado aluno nota dez. Mas, na escola que nos ensinava quais eram as dez maiores montanhas do mundo seus professores sequer subiam o Morro da Cruz. Falavam dos grandes rios e n\u00e3o molhavam seus p\u00e9s no Rio Itaja\u00ed. Os alunos \u2018nota dez\u2019 decoravam listas dos escritores e n\u00e3o liam seus livros. Eram listas, apenas listas, formando uma cultura vazia. Foi nesse contexto que tive contato com o nome da poetisa Cec\u00edlia Meireles e sua grande obra: Romanceiro da Inconfid\u00eancia. Cec\u00edlia era um nome na lista, junto com Castro Alves, Olavo Bilac, Machado de Assis, Jos\u00e9 de Alencar, Monteiro Lobato, Guimar\u00e3es Rosa, Graciliano Ramos &#8230; Dependendo do professor, era a \u00fanica mulher inclu\u00edda entre tantos homens. Vez e outra apareciam os nomes de Clarice Lispector, Ligia Fagundes Teles e Raquel de Queiroz &#8230; mas, o mundo era dos homens.<\/p>\n<p>Apesar de nunca ter sido um aluno \u2018nota dez\u2019 sempre guardei na mem\u00f3ria a listinha dos maiores escritores brasileiros e, ao longo da vida, tentei l\u00ea-los. Alguns dos meus \u2018eleitos\u2019 passei a recomendar aos meus alunos do Curso de Jornalismo da Univali (Machado de Assis, Guimar\u00e3es Rosa, Graciliano Ramos, Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Lima Barreto &#8230;) argumentando que o bom jornalista era antes de tudo um bom leitor. A grande maioria fazia ouvidos moucos, mas sempre tinha aquela minoria valiosa que lia e, depois, vinha compartilhar impress\u00f5es de leitura. Para estes, n\u00e3o se tratava de mais uma listinha ou uma extensa refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica da disciplina \u2018Realidade Brasileira\u2019, mas sugest\u00f5es de leitura de quem leu mais que uma simples listinha para tirar nota em uma prova protocolar.<\/p>\n<p>Quando iniciei um curso &#8211; fora do hor\u00e1rio regular da disciplina de Sociologia da Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; que buscava ensinar aos alunos da Univali a ler cinema, utilizando o m\u00e9todo \u2018An\u00e1lise de Conjuntura\u2019, deparei com um curta-metragem intitulado \u2018Ilha das Flores\u2019. Ali, aparecia de forma destacada os versos de Cec\u00edlia Meireles:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2018Liberdade \u2013 essa palavra<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Que o sonho humano alimenta:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que explique,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E ningu\u00e9m que n\u00e3o entenda!\u2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esses versos passaram e me servir de refer\u00eancia quando o tema em discuss\u00e3o era LIBERDADE. Cec\u00edlia, a que sempre esteve presente nas listinhas, mas pouco lida Brasil afora, cada vez mais se tornava cita\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria em minhas palestras e cursos. Al\u00e9m dos versos acima transcritos, usava tamb\u00e9m diversos outros versos da escritora, como \u00e9 o caso ainda sobre liberdade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2018A palavra liberdade<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Vive na boca de todos:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quem n\u00e3o a proclama aos gritos,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Murmura-a em t\u00edmido sopro.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8230; sobre opress\u00e3o e injusti\u00e7a:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2018Toda vez que um justo grita,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Um carrasco o vem calar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quem n\u00e3o presta, fica vivo;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Quem \u00e9 bom, mandam matar.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8230; sobre gan\u00e2ncia:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2018os homens matam-se e morrem,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ficam mortos, mas n\u00e3o fartos.\u2019<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8230; sobre o poder da palavra:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2018Ai, palavras, ai, palavras,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Que estranha pot\u00eancia, a vossa!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Ai, palavras, ai, palavras,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Sois de vento, ides no vento,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">No vento que n\u00e3o retorna,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E, em t\u00e3o r\u00e1pida exist\u00eancia,<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tudo se forma e transforma!\u2019<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agora, em tempos de reclus\u00e3o social por imposi\u00e7\u00e3o da pandemia da Covid, busquei passar o tempo em boa companhia e me propus, inclusive, a reler algumas obras que considerava fundamentais na minha forma\u00e7\u00e3o intelectual. Assim, acabei relendo o livro de Cecilia \u2018Romanceiro da Inconfid\u00eancia\u2019. Um livro que deveria ser leitura obrigat\u00f3ria em todas as escolas, notadamente, agora, nesses tempos sombrios que abriga o planejamento, nos compartimentos mais secretos dos pal\u00e1cios governamentais, da retomada sistem\u00e1tica das ideias conservadoras autorit\u00e1rias. Cec\u00edlia, portanto, \u00e9 atual &#8230; atual\u00edssima e necess\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No col\u00e9gio era comum estudarmos os grandes escritores nacionais relacionando seus nomes e obras em uma listinha quase imposs\u00edvel de ser decorada. Ali\u00e1s, lista era o que n\u00e3o faltava em tempos de provas. 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