{"id":909,"date":"2025-09-27T21:41:36","date_gmt":"2025-09-28T00:41:36","guid":{"rendered":"https:\/\/magru.com.br\/web\/?p=909"},"modified":"2026-01-17T12:11:02","modified_gmt":"2026-01-17T15:11:02","slug":"a-cracolandia-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/magru.com.br\/web\/a-cracolandia-digital\/","title":{"rendered":"A cracol\u00e2ndia digital"},"content":{"rendered":"<p>Magru Floriano*<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a pandemia da Covid (2019-2023) o mundo mergulhou em definitivo na Era da Tecnologia Absoluta com a utiliza\u00e7\u00e3o desenfreada da IA \u2013 Intelig\u00eancia Artificial. O ambiente da Internet ficou ainda mais sofisticado e a rela\u00e7\u00e3o homem \u2013 m\u00e1quina ganhou novos desdobramentos. Como toda mudan\u00e7a social e tecnol\u00f3gica os benef\u00edcios e malef\u00edcios s\u00e3o f\u00e1ceis de enumerar. Contudo, consideramos que os pontos positivos s\u00e3o muito mais interessantes do que os negativos, mas estes, em sua qualidade e extens\u00e3o, imp\u00f5em grandes preju\u00edzos ao desenvolvimento da humanidade na sua caminhada hist\u00f3ria em busca da felicidade.<\/p>\n<p>Um desses danos \u00e9 a not\u00f3ria ascens\u00e3o de uma nova classe de \u2018intelectuais imbecis\u2019 que conhecemos usualmente como <em>influencers<\/em>. Gente que n\u00e3o estuda, n\u00e3o aprende, n\u00e3o tem compromisso com a \u00e9tica e se d\u00e1 muito bem financeiramente por influenciar milh\u00f5es de pessoas nas redes sociais. N\u00e3o que o fen\u00f4meno da imbecilidade not\u00f3ria seja algo completamente novo. O dramaturgo Nelson Rodrigues, antes do advento da Internet, sentenciou: \u201c<em>Os idiotas v\u00e3o tomar conta do mundo; n\u00e3o pela capacidade, mas pela quantidade. Eles s\u00e3o muitos.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Umberto Eco, pensador da era da Internet, seguiu a mesma linha de Nelson Rodrigues ao sentenciar: \u201c<em>A Internet deu voz a uma legi\u00e3o de imbecis. Estes idiotas ganharam o mesmo espa\u00e7o de um Pr\u00eamio Nobel.<\/em>\u201d O economista e intelectual brasileiro Eduardo Giannetti qualificou esse movimento na Internet, notadamente atrav\u00e9s das redes sociais, de \u2018Cracol\u00e2ndia digital\u2019. Como sabemos, a Cracol\u00e2ndia \u00e9 um espa\u00e7o p\u00fablico em S\u00e3o Paulo \u2013 capital \u2013 onde usu\u00e1rios de drogas vivem como zumbis, \u00e0 margem da sociedade produtiva.<\/p>\n<p>Aqui, parece fundamental conceituar o imbecil. No nosso entendimento a imbecilidade \u00e9 uma qualifica\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia. Podemos considerar como ignorante aquela pessoa que n\u00e3o sabe, n\u00e3o tem conhecimento. E, algumas pessoas entre estas, conhecidas como <em>influencers<\/em>, utilizam de expedientes sensacionalistas ou produzindo <em>fake news &#8230;<\/em> somente para ganhar visualiza\u00e7\u00f5es e seguidores, tendo orgulho de sua pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia ao transformar o espa\u00e7o cibern\u00e9tico em caos e barb\u00e1rie. Esse orgulho se sustenta por uma evid\u00eancia: seu sucesso social e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Acontece que o <em>influencer<\/em> acaba sendo um emblema, um padr\u00e3o, uma refer\u00eancia para toda uma gera\u00e7\u00e3o de usu\u00e1rios das redes sociais e, como j\u00e1 dizia Conf\u00facio: &#8220;<em>A palavra convence, mas o exemplo arrasta<\/em>&#8220;. Come\u00e7a a virar normal a pessoa menosprezar o estudo e fazer carreira solo como intelectual de Internet. Entra em diversos grupos de discuss\u00e3o, principalmente sobre pol\u00edtica e costumes, e passa a liberar sobre tudo com ares de doutor. No passo seguinte, ele seleciona os usu\u00e1rios entre os que concordam com suas ideias e aqueles que n\u00e3o concordam com suas ideias. Mais um passo a frente, os usu\u00e1rios \u2018amigos\u2019 do segundo grupo (discordantes) come\u00e7am a ser deletados do grupo de discuss\u00e3o, dando in\u00edcio a uma \u2018bolha digital\u2019.<\/p>\n<p>A \u2018bolha digital\u2019 come\u00e7a a funcionar por mecanismo id\u00eantico a uma c\u00e2mara de eco, confirmando um ambiente entr\u00f3pico. As informa\u00e7\u00f5es come\u00e7am a formar um padr\u00e3o na medida que o esp\u00edrito contradit\u00f3rio come\u00e7a a ser censurado e descartado. O usu\u00e1rio que n\u00e3o reproduz o discurso-padr\u00e3o do grupo acaba perdendo status e vai migrando para a periferia de forma gradual at\u00e9 anular por completo sua sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento. A reprodu\u00e7\u00e3o de palavras-chave e conceitos ideologicamente articulados formam uma \u2018barreira algor\u00edtmica\u2019, atrav\u00e9s de mecanismo de reprodu\u00e7\u00e3o (eco dentro da bolha).<\/p>\n<p>Um exemplo desse algoritmo seria a palavra \u2018bananinha\u2019, para a bolha da esquerda, como sin\u00f4nimo de Eduardo Bolsonaro; e de \u2018ladr\u00e3o de nove dedos\u2019, para a bolha da direita, como sin\u00f4nimo de Lula. Obviamente que quem reproduz sistematicamente um desses termos est\u00e1 fadado a cair em uma \u2018malha fina\u2019 dos mecanismos que formam a barreira algor\u00edtmica. A partir da\u00ed pode receber mais ou menos mensagens de igual teor, dependendo das conveni\u00eancias de cada emissor. Est\u00e1 formada a bolha.<\/p>\n<p>Como um dos padr\u00f5es reconhecidos como indicador de sucesso na rede social \u00e9 a quantidade de \u2018amigos\u2019 e \u2018seguidores\u2019, nos \u00faltimos tempos tem ocorrido dos dissidentes receberem cada vez mais mensagens com amea\u00e7as do seguinte tipo: \u2018perdeu um seguidor\u2019, \u2018depois do que falou deixei de te seguir\u2019. Isto \u00e9, o usu\u00e1rio resolve punir o seu interlocutor por n\u00e3o ter encontrado em suas palavras o conte\u00fado esperado. Est\u00e1 dentro de uma bolha e n\u00e3o consegue mais conviver com o contradit\u00f3rio e resolve punir o infrator com a perda de um seguidor. \u2018Seguir\u2019, portanto, come\u00e7ou a ser visto como moeda, como valor digital. Ter seguidor \u00e9 evid\u00eancia de sucesso. Perder seguidor \u00e9 \u2018pena capital\u2019.<\/p>\n<p>O Intelectual de Internet demonstra claramente que sabe ler, mas n\u00e3o sabe interpretar o texto que l\u00ea. Tem mais, demonstra pressa em reproduzir e responder, dedicando pouco tempo a prestar aten\u00e7\u00e3o no conte\u00fado em discuss\u00e3o. Ouve apenas para responder e n\u00e3o para entender a fala de seu interlocutor. \u00a0Sempre est\u00e1 em busca do \u2018vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o\u2019 e para obt\u00ea-lo considera razo\u00e1vel utilizar recursos que atentam contra a l\u00f3gica e a dial\u00e9tica. Os conte\u00fados que encontramos nessas argumenta\u00e7\u00f5es enviesadas est\u00e3o cheios da l\u00f3gica \u2018um erro justifica o outro\u2019 e, tamb\u00e9m, exemplos comparando fatos hist\u00f3ricos completamente diferenciados ou colocados fora de contexto.<\/p>\n<p>Um bom exemplo desse tipo de argumenta\u00e7\u00e3o enviesada encontramos quando do debate sobre a anistia a ser concedida ao grupo que atentou contra a democracia brasileira no oito de janeiro de 2023. Quando os artistas Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso e Paulinho da Viola, subiram em um carro de som na Praia de Copacabana para criticar a anistia, em setembro de 2025, seus oponentes, ato cont\u00ednuo, argumentaram que eles estavam sendo incoerentes, j\u00e1 que foram beneficiados por anistia pol\u00edtica anos antes. Ora, acontece que h\u00e1 uma diferen\u00e7a muito grande entre estas duas anistias. No primeiro caso, Chico e Caetano foram condenados pela ditadura por lutar pela democracia; enquanto Bolsonaro e seus generais foram condenados pela democracia por pretenderem instaurar a ditadura. \u201c<em>Uma coisa \u00e9 uma coisa, outra coisa \u00e9 outra coisa<\/em>\u201d sentencia o dito popular.<\/p>\n<p>O problema maior \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 como manter um di\u00e1logo saud\u00e1vel com um usu\u00e1rio que est\u00e1 confortavelmente instalado dentro de uma bolha digital. A C\u00e2mera de Eco \u00e9 um lugar confort\u00e1vel, socialmente agrad\u00e1vel e prazeroso. Em nome da nossa sa\u00fade mental, ent\u00e3o, resta, reduzir o tempo gasto nestas redes ao m\u00ednimo necess\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 o caso de sair em definitivo delas, para n\u00e3o se tornar, em plena Era da Tecnologia Absoluta, um Robinson Cruzo\u00e9 digital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>*<strong>Magru Floriano<\/strong> \u00e9 historiador e professor universit\u00e1rio aposentado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magru Floriano* Ap\u00f3s a pandemia da Covid (2019-2023) o mundo mergulhou em definitivo na Era da Tecnologia Absoluta com a utiliza\u00e7\u00e3o desenfreada da IA \u2013 Intelig\u00eancia Artificial. O ambiente da Internet ficou ainda mais sofisticado e a rela\u00e7\u00e3o homem \u2013 m\u00e1quina ganhou novos desdobramentos. 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