Magru Floriano*
Após a pandemia da Covid (2019-2023) o mundo mergulhou em definitivo na Era da Tecnologia Absoluta com a utilização desenfreada da IA – Inteligência Artificial. O ambiente da Internet ficou ainda mais sofisticado e a relação homem – máquina ganhou novos desdobramentos. Como toda mudança social e tecnológica os benefícios e malefícios são fáceis de enumerar. Contudo, consideramos que os pontos positivos são muito mais interessantes do que os negativos, mas estes, em sua qualidade e extensão, impõem grandes prejuízos ao desenvolvimento da humanidade na sua caminhada história em busca da felicidade.
Um desses danos é a notória ascensão de uma nova classe de ‘intelectuais imbecis’ que conhecemos usualmente como influencers. Gente que não estuda, não aprende, não tem compromisso com a ética e se dá muito bem financeiramente por influenciar milhões de pessoas nas redes sociais. Não que o fenômeno da imbecilidade notória seja algo completamente novo. O dramaturgo Nelson Rodrigues, antes do advento da Internet, sentenciou: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”
Umberto Eco, pensador da era da Internet, seguiu a mesma linha de Nelson Rodrigues ao sentenciar: “A Internet deu voz a uma legião de imbecis. Estes idiotas ganharam o mesmo espaço de um Prêmio Nobel.” O economista e intelectual brasileiro Eduardo Giannetti qualificou esse movimento na Internet, notadamente através das redes sociais, de ‘Cracolândia digital’. Como sabemos, a Cracolândia é um espaço público em São Paulo – capital – onde usuários de drogas vivem como zumbis, à margem da sociedade produtiva.
Aqui, parece fundamental conceituar o imbecil. No nosso entendimento a imbecilidade é uma qualificação da ignorância. Podemos considerar como ignorante aquela pessoa que não sabe, não tem conhecimento. E, algumas pessoas entre estas, conhecidas como influencers, utilizam de expedientes sensacionalistas ou produzindo fake news … somente para ganhar visualizações e seguidores, tendo orgulho de sua própria ignorância ao transformar o espaço cibernético em caos e barbárie. Esse orgulho se sustenta por uma evidência: seu sucesso social e econômico.
Acontece que o influencer acaba sendo um emblema, um padrão, uma referência para toda uma geração de usuários das redes sociais e, como já dizia Confúcio: “A palavra convence, mas o exemplo arrasta“. Começa a virar normal a pessoa menosprezar o estudo e fazer carreira solo como intelectual de Internet. Entra em diversos grupos de discussão, principalmente sobre política e costumes, e passa a liberar sobre tudo com ares de doutor. No passo seguinte, ele seleciona os usuários entre os que concordam com suas ideias e aqueles que não concordam com suas ideias. Mais um passo a frente, os usuários ‘amigos’ do segundo grupo (discordantes) começam a ser deletados do grupo de discussão, dando início a uma ‘bolha digital’.
A ‘bolha digital’ começa a funcionar por mecanismo idêntico a uma câmara de eco, confirmando um ambiente entrópico. As informações começam a formar um padrão na medida que o espírito contraditório começa a ser censurado e descartado. O usuário que não reproduz o discurso-padrão do grupo acaba perdendo status e vai migrando para a periferia de forma gradual até anular por completo sua sensação de pertencimento. A reprodução de palavras-chave e conceitos ideologicamente articulados formam uma ‘barreira algorítmica’, através de mecanismo de reprodução (eco dentro da bolha).
Um exemplo desse algoritmo seria a palavra ‘bananinha’, para a bolha da esquerda, como sinônimo de Eduardo Bolsonaro; e de ‘ladrão de nove dedos’, para a bolha da direita, como sinônimo de Lula. Obviamente que quem reproduz sistematicamente um desses termos está fadado a cair em uma ‘malha fina’ dos mecanismos que formam a barreira algorítmica. A partir daí pode receber mais ou menos mensagens de igual teor, dependendo das conveniências de cada emissor. Está formada a bolha.
Como um dos padrões reconhecidos como indicador de sucesso na rede social é a quantidade de ‘amigos’ e ‘seguidores’, nos últimos tempos tem ocorrido dos dissidentes receberem cada vez mais mensagens com ameaças do seguinte tipo: ‘perdeu um seguidor’, ‘depois do que falou deixei de te seguir’. Isto é, o usuário resolve punir o seu interlocutor por não ter encontrado em suas palavras o conteúdo esperado. Está dentro de uma bolha e não consegue mais conviver com o contraditório e resolve punir o infrator com a perda de um seguidor. ‘Seguir’, portanto, começou a ser visto como moeda, como valor digital. Ter seguidor é evidência de sucesso. Perder seguidor é ‘pena capital’.
O Intelectual de Internet demonstra claramente que sabe ler, mas não sabe interpretar o texto que lê. Tem mais, demonstra pressa em reproduzir e responder, dedicando pouco tempo a prestar atenção no conteúdo em discussão. Ouve apenas para responder e não para entender a fala de seu interlocutor. Sempre está em busca do ‘viés de confirmação’ e para obtê-lo considera razoável utilizar recursos que atentam contra a lógica e a dialética. Os conteúdos que encontramos nessas argumentações enviesadas estão cheios da lógica ‘um erro justifica o outro’ e, também, exemplos comparando fatos históricos completamente diferenciados ou colocados fora de contexto.
Um bom exemplo desse tipo de argumentação enviesada encontramos quando do debate sobre a anistia a ser concedida ao grupo que atentou contra a democracia brasileira no oito de janeiro de 2023. Quando os artistas Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso e Paulinho da Viola, subiram em um carro de som na Praia de Copacabana para criticar a anistia, em setembro de 2025, seus oponentes, ato contínuo, argumentaram que eles estavam sendo incoerentes, já que foram beneficiados por anistia política anos antes. Ora, acontece que há uma diferença muito grande entre estas duas anistias. No primeiro caso, Chico e Caetano foram condenados pela ditadura por lutar pela democracia; enquanto Bolsonaro e seus generais foram condenados pela democracia por pretenderem instaurar a ditadura. “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” sentencia o dito popular.
O problema maior é que não há como manter um diálogo saudável com um usuário que está confortavelmente instalado dentro de uma bolha digital. A Câmera de Eco é um lugar confortável, socialmente agradável e prazeroso. Em nome da nossa saúde mental, então, resta, reduzir o tempo gasto nestas redes ao mínimo necessário. Não é o caso de sair em definitivo delas, para não se tornar, em plena Era da Tecnologia Absoluta, um Robinson Cruzoé digital.
*Magru Floriano é historiador e professor universitário aposentado.