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Tradição e novas tecnologias na pesca da tainha

Num dia frio de julho resolvi passear pela Praia de Mariscal observando a natureza da região abandonada pelos turistas. Passou bem pouco tempo e um grupo de pescadores formou uma pequena roda na areia da praia visualizando o monitor de um drone que sobrevoa o mar. Cheguei perto para observar do que se tratava e me surpreendi: estavam monitorando um cardume de tainha estacionário próximo ao costão entre Mariscal e Quatro Ilhas.

Assim que tive oportunidade de conversar com o controlador do drone, perguntei: “Acabou a profissão tradicional do ‘atalaia’. Não precisa mais de vigia, porque o drone vê melhor e não erra, não é mesmo?!” O jovem me respondeu prontamente: “Nada disso. O vigia ainda tem sua parte na pesca da tainha, porque ele sinaliza exatamente onde o cerco deve ocorrer. Tem toda uma tradição de comunicação entre o vigia e o patrão embarcado que possibilita o cerco correto, não deixando a canoa furar o cardume.”

Na verdade, bem sabemos, a atividade do vigia vai perder precedência e status para o operador de drone. O jovem que domina novas tecnologias vai ficar mais importante do que o velho lobo do mar, que tudo sabia e tudo via, firmando-se como os olhos de toda a aldeia de pescadores. O jovem com tecnologia em mãos e o velho com um paletó surrado, este é o cenário. O jovem na praia olhando um monitor digital, o velho de cima de uma pedra movimentando seu paletó para indicar a direção que deve seguir a canoa visando fazer o cerco correto do cardume.

Atualmente não dá de prever se realmente o atalaia vai ter sua atividade extinta. Mas, temos certeza, o jovem e seu drone nunca mais deixarão as aldeias de nossos pescadores de tainha.

NOVAS TECNOLOGIAS NO COTIDIANO

Parece que ficou tão comum incorporar rapidamente novas tecnologias ao cotidiano que as pessoas nem dão mais a devida importância às novidades nessa área, mesmo que elas representem um grande avanço científico e ameaçem mudar por completo o futuro de toda a humanidade. Testam uma primeira vez e pronto, a tecnologia é reconhecida e automaticamente passa a integrar nosso cotidiano, numa naturalidade absoluta, como se sempre estivesse ali ao nosso dispor.

Essa semana vi pela primeira vez um robô atendendo pessoas. Era o ‘Robô Sundae’ que servia sorvete aos clientes no Balneário Shopping substituindo um funcionário da empresa Roboteria. As crianças compravam o sorvete, escolhiam o tipo, o robô pegava um copo, colocava sorvete dentro, alguns ingredientes selecionados como cobertura e servia na bandeja com uma portinhola para a criança pegá-lo. Quando a criança pegava o sorvete o robô abanava uma das mãos e agradecia.  Recebia em troca muitos sorrisos.

Gradativamente esses robôs vão adentrando em nossas vidas e entre acenos e sorrisos vão substituindo a mão-de-obra humana, sem que as pessoas percebam que eles estão prontos para nos substituir em um contingente ilimitado. Em minha casa já conto com dois robôs que trabalham na limpeza do piso, pego dinheiro no banco servido por máquinas eletrônicas, na universidade máquinas self-service de salgadinhos e refrigerantes estão espalhadas por todo o campus e, no supermercado, você já pode escolher se quer passar por um caixa controlado pelo ser humano ou utilizar o serviço automatizado.

Em casa, no banco, no supermercado, na universidade, no shopping … os robôs e computadores já estão substituindo o ser humano, numa marcha lenta e gradual, mas irreversível. Agora, na invasão da Rússia ao território da Ucrânia, estão sendo utilizados drones suicidas. Pequenas máquinas voadoras que identificam o alvo previamente programado e se explodem. A inteligência artificial está chegando a tal desenvolvimento que é apenas uma questão de tempo ela receber a missão de decidir, em campo de batalha, qual a melhor decisão a tomar, sem que para isso tenha de passar obrigatoriamente pela avaliação de um comando superior humano.

A criança que troca acenos com um robô que lhe serve sundae em um shopping está com um pé nesse futuro em que terá de abrir mão de seu emprego para um robô. Mas, nesse momento, nem ela, nem seus pais, estão conscientes da Caixa de Pandora que estão abrindo com um sorriso e um aceno de mão.