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Brincando com a história: inventando nosso passado

Quem acompanha na Internet os principais sites de notícias sobre a comunidade itajaiense recebe uma grande quantidade de informações diariamente de sorte a ter pouco tempo para fazer uma análise mais depurada de tudo que lhe é transmitido pela imprensa tradicional (jornais, revistas) e os outsiders digitais, incluindo os famosos influencers. Os conteúdos que circulam na Internet são produzidos na velocidade do som, para serem consumidos na velocidade da luz. Isso significa admitir que não temos tempo para pesquisar o que escrevemos e, não temos tempo de analisar e criticar o que lemos. Assim como a culinária, o setor de informação saiu da cozinha da vovó diretamente para o fast food. Servir ‘a la carte’ ficou mais complexo que servir-se ‘por quilo’ no estilo ‘americano’.

A história de Itajaí também está deixando a ‘cozinha da vovó’ para ser servida ‘a quilo’. Cada vez mais endereços na Internet produzem conteúdos rápidos envolvendo o passado de nossa comunidade sem que os dados sejam devidamente conferidos à luz da literatura consolidada, como as obras dos historiadores José Ferreira da Silva e Edison d’Ávila.  Nada de pesquisar porque o tempo é sempre escasso. Qualquer erro grosseiro ou informação truncada fica por conta da condição do espírito da modernidade, sintetizado na expressão ‘time is money’; agora, na pós-modernidade, na expressão ‘eu preciso de mais likes’.

Por conta dessa corrida para ganhar mais ‘curtidas’ os produtores de conteúdo pouco se importam se estão pisando na estrutura lógica da narrativa histórica, se estão reproduzindo conteúdos falsos ou distorcidos, porque não buscam esclarecer, dialogar ou ensinar, buscam o sucesso mediático. E esse sucesso é medido pela unidade-padrão ‘like’.

Dia desse vi um ‘comunicador ofsider’ fazendo um pequeno vídeo localizando o navio Revesbydyke próximo à encosta do Morro do Farol, quase defronte ao Iate Clube Cabeçudas. Quem ver seu vídeo vai ter a convicção de que o navio está naufragado no lado sul da enseada, quando na verdade ele está naufragado no lado norte desta enseada, mais próximo da foz do Rio Itajaí.

O mesmo ocorre com a maioria dos textos sobre nossa primeira igreja católica, a Igreja Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Eles reportam que a igreja começou a ser construída por volta de 1824 pelo escravo Simeão. Depois, inferem que esta primeira igreja é a mesma que temos ainda hoje na Praça Vidal Ramos. Ocorre que esta primeira capela, datada de 1824, era de pau-a-pique e desabou por completo no ano de 1851 com seus pertences sendo recolhidos à residência de Agostinho Alves Ramos. Somente em 1852 iniciam as obras da nova capela, com a primeira fase da construção sendo finalizada no ano de 1865, sem a torre do sino e as duas naves laterais, ampliação assinada pelo arquiteto Reinhold Roenick em 1899.

Apesar do prédio da Igreja da Imaculada Conceição não ter absolutamente nada da primeira igrejinha construída por Simeão em 1824 em pau-a-pique, a maioria dos textos utilizados nas comemorações da passagem de aniversário da emancipação do Município de Itajaí inferem ser ela uma construção de 1824. A instituição ‘igreja’ é de 1824, mas o prédio da igreja não!

NOVAS ESTRATÉGIAS DE DOMINAÇÃO DE MASSA

Ninguém tem mais dúvidas sobre as mudanças que ocorreram no Brasil durante as eleições de 2022 no setor de comunicação social. Principalmente durante o período de propaganda eleitoral do segundo turno – mês de outubro – ficou claro para todos os estudiosos que está em evidência uma nova estratégia para se buscar o convencimento de grande parcela da população via instrumentos mediáticos, notadamente as conhecidas mídias sociais, como é o caso do Instagram, Facebook, You Tube, Messenger, TikTok, Twitter, Linkedln, Pinterest, WhatsApp, WeChat. O TSE concedeu, na última semana de campanha, nada menos do que 116 ‘direito de resposta’ à coligação de oposição no Horário Eleitoral Gratuito no rádio e Televisão.

Quem está provocando todas essas mudanças é a extrema-direita. Os pontos referenciais dessa estratégia midiática são os seguintes: 1 – produção em larga escala de fake news em estúdios; 2 – utilização da robótica para divulgação do material produzido; 3 – descredenciamento da imprensa convencional como canal de divulgação; 4 – utilização de redes de simpatizantes como replicantes automáticos dessas informações; 5 – rapidez na produção da informação para criar um círculo de produção/circulação/consumo de maneira que não haja tempo para checagem sobre a veracidade da informação; 6 – total impunidade para os replicantes e dificuldade extrema da justiça em alcançar as fontes originais das informações.

A todo esse mecanismo físico de rede acrescenta-se o discurso ininterrupto que visa o descredenciamento das instituições públicas e sociais como entidades avalizadas para interferir no processo. Congresso Nacional, Tribunal Superior Eleitoral, Supremo Tribunal Federal, mídias convencionais – televisão, rádio, jornal, perdem a capacidade de se apresentarem ao grande público como autoridades credenciadas para falar, opinar e orientar. Das instituições tradicionais sobra, para o grupo ideologicamente vinculado à direita, o discurso e o engajamento oficial das igrejas. Esse vínculo entre o discurso conservador e a igreja possibilita a atualização e avivamento de ideias superadas ao longo dos séculos, notadamente as que dizem respeito à condição da mulher na sociedade, liberdades individuais, direitos civis e estado laico.

A estratégia de inundar o ambiente com informações falsas/distorcidas produzidas em estúdios visa criar uma sensação de não se saber mais exatamente o que é verdade e o que é mentira. Com as instituições tradicionais desacreditadas, com a grande imprensa jogada no canto, em segundo plano, com a opinião do vulgo se sobrepondo à análise do especialista, com a religião rejeitando a ciência … temos um ambiente onde nada é passível de ser imediatamente detectado como fato/realidade ou falso/mentira. A ideia é confundir para reinar. Espalhar a mentira com tal intensidade que a verdade fique asfixiada. A pauta é sempre negativa, porque trata-se de estar sempre desmentindo, desfazendo, corrigindo. Há uma desconstrução da verdade/realidade e o estabelecimento do império da dúvida. Uma dúvida que acaba favorecendo quem pratica o mal porque solapa a autoridade das instituições.

A matéria-prima dessas informações criadas em laboratório são os próprios fatos, portanto, a ideia é sair da realidade para a distorção sistemática a ser reproduzida em grande escala. No segundo turno o candidato a governador de São Paulo – Tarcisio de Freitas – estava visitando uma escola na localidade de Paraisópolis – periferia da Grande São Paulo – quando a polícia trocou tiros com um grupo de marginais. Imediatamente a rede foi tomada por milhares de comunicados ‘urgentes’ assegurando que o candidato bolsonarista havia sofrido um atentado eleitoral. Não adiantou as grandes redes de televisão e rádio divulgarem a versão correta – identificando o episódio como ocorrência policial corriqueira – na rede correu como rastilho de pólvora a versão fake de que Tarcísio tinha sofrido atentado.

O mais interessante desse processo de divulgação de fatos distorcidos em estúdios é que as pessoas comuns que replicam o material disparado por redes robóticas não possuem qualquer compromisso em desmentir a informação depois de constatarem que tudo não se tratava de apenas mais um caso de polícia. Essas pessoas já estavam preocupadas em divulgar a mais nova fake news, a mais nova novidade, a próxima … e a vida segue.  Há pressa em se divulgar a informação truncada, mas não há qualquer compromisso ou interesse em desfazer o erro. Isso porque não se trata exatamente de um erro, já que a informação foi divulgada por tratar-se de material de interesse ideológico de campanha. A fake news é sempre uma informação que interessa ideologicamente a quem a replica. A essa pessoa não interessa se é verdade ou mentira, mas tão-somente se a informação está de acordo com seus interesses político-ideológicos. Não há compromisso com a verdade, mas com a campanha do seu candidato. Nesse ponto, há uma convergência de interesses entre quem produz a informação distorcida e quem a replica na rede.

As redes sociais viraram um grande monstro marinho ameaçando a livre navegação pelos mares democráticos. O Facebook conta com quase 3 bilhões de usuários, seguido pelo You Tube [2,56 bi], WhatsApp [2 bi], Instagram [1,45 bi], WeChat [1,25 bi], Messenger [1 bi], Tik Tok [970 milhões], Linkedln [830 mi]. Uma extensa rede internacional que faz a mensagem ser produzida em qualquer lugar do mundo para fugir da legislação local. O problema da interferência desse material internacional nas eleições brasileiras só não está sendo imensamente maior porque a Rússia invadiu a Ucrânia e, há um ano, colocou toda a sua inteligência interna a serviço da guerra. Estava previsto que aconteceria com o Brasil o mesmo que aconteceu na eleição entre Biden e Trump nos EUA, com um bombardeamento de informações oriundas da Rússia e países amigos visando interferir diretamente no processo eleitoral.

Por isso mesmo não é uma tarefa fácil às instituições combaterem essa prática predadora dos valores democráticos. Primeiro porque trata-se de material produzido por especialistas, gente que domina técnicas de comunicação de massa e sabe exatamente o que faz; segundo, há muito dinheiro disponível para estruturar a rede em nível internacional com uso da robótica; terceiro, a mensagem original é replicada por metade da população que se identifica com seu conteúdo; quarta, não há como colocar todos os replicantes sob a tutela da justiça obrigando imediatamente a correção do erro, criando um sistema de total impunidade; quinto, a própria justiça já foi anteriormente descredenciada/desacreditada como autoridade para interferir no processo. Os ataques sistemáticos ao TSE/STF fazem parte de toda essa lógica perversa que atenta contra o sistema democrático.

Mas qual a melhor estratégia para combater esse ‘gabinete do ódio’ produtor de uma infinidade de conteúdo distorcido visando solapar os alicerces democráticos? Não é uma tarefa fácil e ainda não se encontrou o antídoto ideal. TSE/STF, grandes mídias, ONGs, organizações internacionais … estão todos perplexos, desorientados, sem saber exatamente o que fazer para defender o sistema democrático sem utilizar medidas restritivas que possam, lá na frente, fazer com que o remédio aplicado em dose errada vire ele mesmo um grande veneno.