A maré astronômica que elevou sobremaneira o nível do Rio Itajaí, esta semana, a ponto de atingir diversas ruas marginais expos de forma acentuada uma cicatriz no setor de preservação do nosso Patrimônio Histórico Edificado. A maré alta ilhou por completo o prédio da antiga fiscalização do Porto de Itajaí deixando para os itajaienses uma imagem de abandono e descaso com nosso patrimônio.
Interessante observar que os governos passam: os de direita e os de esquerda; os que prometem preservar e os que querem derrubar; os que dizem que estão ‘fazendo de tudo’ para resolver o problema e os que desconversam sempre … mas, a realidade é que o prédio está lá, abandonado, sendo corroído pelo tempo, se desmanchando.
O prédio é de propriedade de entidade vinculada diretamente ao Governo Federal e as empresas concessionárias do Porto de Itajaí não querem saber dessa responsabilidade. Os anos passam, as empresas passam, os governos passam, os políticos e os administradores passam, as promessas passam … e o prédio ciclicamente fica ilhado pelas águas barrentas do Rio Itajaí, pedindo socorro. A ideia de instalar o Museu do Porto no local já foi abandonada há muito tempo. Fazer o Mirante do Porto – com trapiche, café e concha acústica – virou ‘conversa fiada’. A verdade grita no silêncio cúmplice de muitos administradores públicos. Um silêncio que conspira contra o patrimônio e aguarda o tempo apresentar à comunidade itajaiense uma solução final: a derrocada estrutural do edifício histórico.
Todos os governos (federal, estadual e municipal) conspiram contra o pequeno prédio. Sim, o silêncio de todos revela uma conspiração tácita que há muito decretou a derrocada do prédio da Fiscalização do Porto. Resta esperar pela ‘solução final’. Esperar que o tempo faça o seu trabalho inexorável e definitivo. Depois, é só lamentar publicamente em notas oficiais lacunares e comemorar nos escritórios o desfecho há muito esperado e sempre desejado.
Que caia o prédio …. !
No primeiro final de semana do mês de agosto [2022], fiquei de ‘cuidador’ da minha mãe Julita Garcia dos Santos – idosa de 93 anos de idade – respeitando uma escala entre irmãos para dar folga à cuidadora contratada para fazer companhia para ela durante o período noturno. Aproveite os dois dias para organizar a minha coleção de cartões postais de Itajaí em sete álbuns temáticos. A coleção é composta por cerca de trezentos cartões, alguns com quase cem anos de existência. Diante daqueles cartões, muitos ainda em preto e branco, Julita parece que se sentiu estimulada para liberar sua memória privilegiada e, a cada cartão que pegava em mãos, iniciava relatos de vivência de forma contínua e espontânea.