magru-floriano_o-passado-presente Fevereiro chega abrindo as portas do inferno para o pagador de impostos. Os primeiros boletos que encontramos pelo caminho são aqueles de renovação de seguros, depois, os tradicionais IPTU e Taxa de Lixo. Mais para a frente encontramos o leão do Imposto de Renda e o IPVA do carro … assim segue o ano inteiro, sem descanso.

Mas, será que pagar imposto e taxas é algo tão deplorável assim? Será que o cidadão que paga por serviços prestados está sendo roubado ou jogando dinheiro fora? O serviço prestado é muito caro? Todo o dinheiro recolhido é desviado nos drenos da corrupção da máquina pública brasileira?

Vamos dar como exemplo a coleta de lixo na área urbana de Itajaí. O Município de Itajaí conta com uma população próxima a 300 mil habitantes. Atualmente a empresa Ambiental disponibiliza funcionários e caminhões coletores em duas modalidades de lixo: orgânica e reciclável. Também fica responsável por dar o destino correto a tudo que é recolhido pela cidade, buscando causar o menor impacto ambiental possível.

Em 2026 estou pagando a taxa anual de R$ 663,88, correspondente à coleta de lixo do meu apartamento no Centro. Dividindo esse valor por 365 dias do ano, estou pagando valor aproximado de R$ 1,82 por dia de coleta e destinação correto do lixo. O meu trabalho é acondicionar todo o lixo da minha residência em pequenas sacolas, geralmente reaproveitadas das compras de supermercado, e, colocá-las na lixeira central do edifício. O resto é da responsabilidade da Ambiental.

No meu tempo de criança, no Bairro São João, não existia a coleta de lixo e cada família fazia o que bem entendia para se livrar do lixo doméstico. As primeiras vítimas eram os terrenos baldios. Mas, era muito comum ocorrem fogueiras semanais nos quintais. Um perigo à segurança de todos, já que as casas da periferia eram todas construídas com madeira e Itajaí era uma verdadeira madeireira a céu aberto. O lixo orgânico servia de alimento para os animais domésticos, como galinhas, patos, marrecos, coelhos e porcos. O restante era enterrado no fundo do quintal, servindo de adubo para as hortas.

Naquele tempo o lixo não tinha a proporção de hoje, devido ao baixo uso de embalagens descartáveis. Leite, refrigerante, cerveja … tudo era comercializado com recipientes reutilizáveis. Grandes latas eram reutilizadas, como o caso da lata de banha de porco que servia para guardar biscoitos artesanais, farinha, etc; Arroz, feijão, trigo, farinha … eram produtos comprados por quilo nas tradicionais vendas e armazéns de secos e molhados. Ossos, vidros quebrados, peças metálicas… eram recolhidas pelas crianças para serem vendidas no ferro-velho; restos de madeira, cepilho, casca de arroz, palha de cana e milho, papel e papelão … eram utilizados no fogão a lenha.

Contudo, essa realidade – de baixo impacto ambiental – mudou de forma drástica à partir da década de 1970, quando o Brasil entrou para valer na Era do Plástico e das embalagens descartáveis. Hoje, o consumo é de tal monta que fica simplesmente impossível imaginar a cidade de Itajaí sem um serviço eficiente de coleta regular de lixo. O problema em termos de saúde pública seria tão grave que estaríamos arriscando voltarmos aos padrões sanitários da Idade Média. Temos uma mostra disso acompanhando a falta estrutural de coleta e tratamento do esgoto doméstico em diversas cidades do litoral de Santa Catarina. Ainda em plena temporada de verão 2025/2026 o setor de saúde pública do Estado de Santa Catarina está alertando os veranistas sobre um forte surto de virose (doença diarreica aguda – DDA) devido o saneamento precário, higiene no manuseio de alimento e balneabilidade.

Então, é isso. Quando vejo o caminhão do lixo passar pela frente da minha casa fico pensando aqui com os meus botões: estou pagando menos de dois reais por um caminhão, motorista e dois coletores; pelo recolhimento, transporte e destinação correta do lixo. Vou reclamar do que mesmo? Saudade do meu tempo de infância não tenho não.

Posted in: Blog.
Last Modified: fevereiro 2, 2026