Algumas tecnologias são rapidamente incorporadas ao cotidiano das pessoas mais comuns sem que elas sequer tomem conhecimento do seu uso. Estão ali, servindo a todos, de maneira invisível, transparente, imperceptível, totalmente ocultas. Mas, existem sistemas e tecnologias que precisam da aquiescência e adesão direta do usuário para entrar em operação. Essas, geralmente, demandam mais tempo porque são incorporadas gradativamente ao longo de anos, partindo das classes mais esclarecidas em direção ao povão.
Boa parte dessas novidades não são incorporadas imediatamente pela simples e definitiva questão econômica. Afinal, não bastava ao pobre querer ver televisão ou ter uma máquina de lavar roupa, micro-ondas, geladeira. Esses bens do cotidiano doméstico tiveram de ser transferidos classe a classe, por descartes e, muito depois, pelo advento do crediário facilitado – que hoje deixa boa parcela da população simplesmente endividada à beira da inadimplência e refém do cartão de crédito.
Um evento extremo pode facilitar o processo de adesão a um novo sistema e tecnologia, de forma a pular décadas. O banco digital via celular não seria utilizado pela classe mais desvalida, porque ela ainda prefere o dinheiro físico. Acontece que a pandemia da Covid, a partir de 2019, levou muita gente a evitar aglomeração e locais fechados, jogando muitos para dentro dos sistemas do banco digital pagando contas por QR Code, pagamentos automáticos, boletos via email, etc. Agora, em 2022, o Governo Federal promoveu um ‘pacote de bondade eleitoral’ oferecendo bolsas de auxílio a caminhoneiros, taxistas … depositando dinheiro em contas eletrônicas com retirada pelo novíssimo sistema bancário nomeado de PIX.
Foi aí, então, que o pobre atendido pelo ‘Bolsa Família’ e o caminhoneiro, entre tantos milhões das classes baixa e média, se viram usuários do Banco Digital via celular e seu moderníssimo sistema de pagamento por PIX. Uma adesão que poderia demorar décadas foi consolidada no prazo de vinte dias, porque todos correram, nas pontas dos dedos das mãos, para ter sua conta digital e um celular. Agora, cem por cento da população tem celular e, nem todos têm o que comer, já que o auxílio do governo geralmente acaba na metade do mês.
O caso de uma criança que telefonou para a Polícia Militar garantindo que não tinha o que comer naquele dia é emblemático. Ele ligou para a polícia de um celular que estava em pleno uso por sua família que está cadastrada nos programas de ajuda humanitária do Governo Federal. Tinha um telefone celular funcionando enquanto a panela da família estava completamente vazia. Esse simples telefonema da criança escancara a realidade da pobreza no Brasil. Todos tem de ter o celular porque é através dele que chega o auxílio do Governo Federal. O dinheiro é eletrônico, em forma de PIX via banco digital. Assim, estabelecemos uma ideia bem simples sobre pobreza e tecnologia no Brasil, uma ideia adaptada de Descartes com o seguinte enunciado: ‘Tenho um celular, logo existo!’ pelo menos para o Governo Federal.
Recentemente, três membros da minha família anunciaram que começaram a instalar equipamentos para coleta de energia solar em suas residências e estabelecimentos comerciais. Ali no bairro São Judas, na periferia da cidade, olho para a casa da minha irmã e vejo o seu telhado já tomado por placas brilhantes vindas da Alemanha. É o futuro se consubstanciando no presente. Contudo, fazendo um triste contraponto com este cenário de alto desenvolvimento tecnológico, os ladrões e os mendigos continuam nas esquinas da cidade. Uns, levando nossos celulares; outros, nossas moedas.
No primeiro final de semana do mês de agosto [2022], fiquei de ‘cuidador’ da minha mãe Julita Garcia dos Santos – idosa de 93 anos de idade – respeitando uma escala entre irmãos para dar folga à cuidadora contratada para fazer companhia para ela durante o período noturno. Aproveite os dois dias para organizar a minha coleção de cartões postais de Itajaí em sete álbuns temáticos. A coleção é composta por cerca de trezentos cartões, alguns com quase cem anos de existência. Diante daqueles cartões, muitos ainda em preto e branco, Julita parece que se sentiu estimulada para liberar sua memória privilegiada e, a cada cartão que pegava em mãos, iniciava relatos de vivência de forma contínua e espontânea.
Neste meado de agosto [2022], recebo um telefonema do professor Gilson convidando para o evento alusivo à passagem dos quarenta anos da fundação da Assipam – Associação Itajaiense de Preservação Ambiental. Contando com a liderança carismática e visionária do professor Amaro da Silva Neto, a instituição foi a pioneira no enfrentamento contra o progresso desenfreado e desmensurado que a Região da Grande Itajaí assiste há quatro décadas. Um pioneirismo, infelizmente, que não contou com muito apoio, e, sequer, conseguiu sobreviver por muito tempo. Pior, ao fechar suas portas ‘nada ficou no lugar’ e o progresso grassa ‘livre, leve e solto’ como se não houvesse amanhã. Assim, é fácil concluir que a ASSIPAM faz muita falta para as cidades da Região da Grande Itajaí.
Lendo o livro ‘Egídio Narciso, presença que não se apaga’ – autoria de Janete Narciso de Souza, Raquel Narciso Rosa, Humberto Rebello Narciso – tive uma das sensações mais incríveis que um leitor por sentir: perceber que sua memória está dialogando com as memórias dos autores do livro. Na medida que a leitura ia avançando, fatos relatados no livro iam se intercalando com fatos guardados na minha memória desde a infância.
A primeira vez que peguei no volante de um automóvel foi no início da década de 1970, quando tinha meus quinze anos de idade. Meu pai estava me dando aulas teóricas de volante durante algum tempo até que, de forma abrupta e inesperada, parou o carro no acostamento da Rodovia Antônio Heil e me passou o volante. Diante do nervosismo de toda a família, principalmente de minha mãe, a aventura de dominar pela primeira vez o volante do AeroWillys não demorou mais do que uns dez quilômetros. Depois, tive oportunidade de pegar no volante de uma Kombi que meu irmão mais velho, Ilson, trazia para casa quando trabalhava em uma empresa de telefonia terceirizada da Telesc. Ao fazer dezoito anos comprei diversas motos de pequeno porte, começando com uma Mobylette e, depois, uma Yamaha dois tempos de oitenta cilindradas. A partir daí foi um sucessão de fuscas … A carteira de motorista veio sem muito esforço, fazendo o teste de volante e cumprindo a burocracia de praxe.
Resolvi, faz algum tempo, ajudar meus amigos a encontrarem um bom lugar para objetos que estão atrapalhando. São objetos que precisam ser descartados não obstante ainda manterem valor de uso e troca, principalmente entre colecionadores. Livro, lápis, caneta, chaveiro, disco, equipamentos eletrônicos, obras de arte, coleções, fotos, documentos … muita coisa boa acaba sendo descartada no lixo por simples falta de opção ou, até mesmo, por pressa em descartar grande volume de objetos. Isso ocorre com frequência, por exemplo, quando uma pessoa migra de uma casa para um apartamento, quando se aposenta, quando vende um imóvel, quando o proprietário morre e o herdeiro não tem identidade com o objeto herdado …
No colégio era comum estudarmos os grandes escritores nacionais relacionando seus nomes e obras em uma listinha quase impossível de ser decorada. Aliás, lista era o que não faltava em tempos de provas. Geralmente eram listas contendo os ‘dez mais’: rios, montanhas, lagos, países … Quem conseguia decorar estas listinhas era considerado aluno nota dez. Mas, na escola que nos ensinava quais eram as dez maiores montanhas do mundo seus professores sequer subiam o Morro da Cruz. Falavam dos grandes rios e não molhavam seus pés no Rio Itajaí. Os alunos ‘nota dez’ decoravam listas dos escritores e não liam seus livros. Eram listas, apenas listas, formando uma cultura vazia. Foi nesse contexto que tive contato com o nome da poetisa Cecília Meireles e sua grande obra: Romanceiro da Inconfidência. Cecília era um nome na lista, junto com Castro Alves, Olavo Bilac, Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos … Dependendo do professor, era a única mulher incluída entre tantos homens. Vez e outra apareciam os nomes de Clarice Lispector, Ligia Fagundes Teles e Raquel de Queiroz … mas, o mundo era dos homens.