UM CATADOR DE PAPELÃO SALVANDO LIVROS

Catador de papelão na Praça Governador Irineu Bornhausen – foto Magru Floriano

 

Observo um catador de papelão andando pela cidade e fico imaginando quantos livros ele já salvou do lixo. Quantos livros, por suas mãos foram parar em sebos e bibliotecas particulares. As pessoas jogam coisas fora sem terem a minha preocupação em saber do seu valor de uso, muito menos ainda do seu valor histórico. Uma pessoa da família morre e os herdeiros, insensíveis, querem se desfazer rapidamente de todos os objetos pessoais sem valor aparente. Jogar fora é a única regra.

Por isso, há cerca de quarenta anos, me empenho muito em colecionar livros publicados na Região da Grande Itajaí. Meu acervo é composto por mais de dois mil volumes adquiridos principalmente em livrarias e sebos localizados entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas tenho muitos exemplares conseguidos junto a catadores de papelão e vendedores ambulantes, como é o caso do histórico ‘Chocolate’ – um homem analfabeto que vende livros no Mercado Velho. Também recebo muitos livros por doações feitas por amigos e conhecidos.

Atualmente, participo de leilões na Internet para adquirir livros em todo o Brasil e na Europa. São livros que fazem referência à história dos municípios da Foz do Rio Itajaí e, também, livros publicados por autores nascidos ou residentes nesta região. A biblioteca conta ainda com alguns originais manuscritos e centenas de exemplares autografados. O objetivo é criar o MUSEU DO LIVRO visando preservar as obras e memórias dos escritores locais. Com esse objetivo, participo de leilões na Internet, frequento sebos [livrarias de livros usados] entre São Paulo e Porto Alegre pelo menos duas vezes ao ano e, através do grupo no Facebook ‘Itajaí de Antigamente’ conto com doações de herdeiros de obras isoladas.

Foi assim, por exemplo, que consegui as obras raras ‘A pequena pátria’ – editada por Marcos Konder no ano de 1923 – doada pela Família Zaguini; e ‘História do Município de Penha’ – do consagrado historiador José Ferreira da Silva – conseguida junto a Carlos Guérios. Pela Internet adquiri recentemente, na Alemanha, o livro de Maria Rahle intitulado ‘Siedler am Itajahy’. O acervo do futuro museu também conta com a ajuda de muitos escritores e colecionadores. Os principais doadores de livros e peças históricas foram o colecionador Carlos Guérios – atual presidente da ACRI – Associação dos Colecionadores da Região de Itajaí, e, o escritor Isaque de Borba Corrêa, que doou, inclusive, muitos originais de seus livros. O empresário Dollor Silva doou recentemente o livro ‘Spies’ publicado nos EUA por Paula Schmitt.

A coleção conta com centenas de obras autografadas e com edições diferenciadas. O livro ‘Memórias de um menino pobre’ de Silveira Júnior, por exemplo, conta com cinco edições. No acervo do futuro museu também estão incluídas peças raras, como é o caso de guardanapos manuscritos do poeta Bento Nascimento; ‘edição-piloto’ de livros de Isaque de Borba Corrêa e Magru Floriano; manuscritos e textos datilografados de José Eliomar da Silva [Timbuca] e Irene Boemer; três livros ‘Celacanto’ com anotações de poemas inéditos do autor Bento Nascimento; dezenas de monografias apresentadas pelos alunos do Curso de Jornalismo da Univali; coleção de cartões postais e fotos – com destaque para imagens do porto de Itajaí; hemeroteca com milhares de jornais – inclusive jornais alternativos e um jornal manuscrito de 1940; coleção completa da revista Blumenau em Cadernos.

Entre os autores com maior número de obras no acervo do futuro museu encontramos: Cláudio Bersi de Souza – com 26 livros; Enéas Athanásio e Fernanda Mazetto Moroso – 25 livros; Magru Floriano – 23 livros; Isaque de Borba Corrêa e Saulo Adami – 19 livros; Marcos José Konder – 16 livros; Henrique da Silva Fontes, Silveira Júnior e Luigi Murici – 15 livros; Nilson Weber e Odilon Fehlauer – 14 livros;  Lausimar Laus e Marcos Konder – 13 livros; Rosa de Lourdes Vieira Silva – 12 livros.

Na lista de obras raras que ainda procura adquirir destaca o ‘Álbum fotográfico – descritivo da Praia de Camboriú’ de Silveira Júnior [1952]; Anuário de Itajaí – edições de 1924 e 1960; ‘Itajahy’ de Reis Netto [1920]. Entre os livros raros que já possuo em posso destacar ‘Os ideaes republicanos’ de Lauro Müller [1912] e ‘Anuário de Itajaí de 1959’ – autografado por Marcos Konder.

Por enquanto todo o acervo está guardado no meu próprio escritório, mas a ideia é criar o MUSEU DO LIVRO nos próximos anos, com ou sem o apoio do poder público. Alguns amigos já sinalizaram com o apoio do aluguel de um imóvel e a criação de um Instituto. Contudo, avalio que ainda é prematuro pensar na criação de uma entidade particular, porque o acervo pode muito bem ser assimilado por uma instituição já existente que tenha projeto de ampliação de suas instalações e acervos. O negócio é não ter pressa e continuar na missão de salvar os livros. Depois, o tempo dirá se realmente todo o acervo pode se transformar em um Museu do Livro e do Escritor.

MEMÓRIA: IMAGENS SOBREPOSTAS

Terreno baldio na Rua Alberto Werner ainda com a escadinha da frente da casa

Dia desses fui visitar o ateliê do artista visual Wenceslau Neto que, por coincidência, está instalado defronte do terreno baldio que abrigou a casa de meus avós maternos na rua Alberto Werner, bairro Vila Operária. Antes de entrar no ateliê do Wences, fiquei por um tempo admirando o terreno e botando a minha memória para funcionar. Junto com a imagem presente via instantâneos de imagens do passado. Era como se eu conseguisse ver tudo ao mesmo tempo, apesar de serem imagens que representavam fatos passados pelo longo período de sessenta anos. Fiquei imaginando que minha memória era uma cebola, com camadas sucessivas, uma sobreposta a outra de forma simétrica e harmoniosa.

Quando estava nos fundos do terreno, recordando detalhes da estrebaria que meu vô Doca mantinha no local [com sua carroça e carro-de-mola, a máquina de cortar traço para os animais, equipamentos de montaria e de encilhamento para os animais …. ] apareceram os amigos Luan, Álfabile Santana e Rômulo Mafra – que também estavam convidados para uma oficina no ateliê do Wences. Eles, curiosos, foram logo perguntando o que eu estava fazendo ali no meio do mato. Ato contínuo, expliquei que se tratava do terreno dos meus avós maternos e passei, de imediato, a relatar alguns fatos que ocorreram comigo naquele local.

Falei onde minha avó tinha o forno e o fogão a lenha para fazer pão, roscas de polvilho, polenta e musse de mamão com coco … e, numa pequena escadaria – que antes dava acesso à varanda da casa – sentei e comecei a relatar o que eu vivi, aos oito anos de idade, quando do velório, ali naquela casa, do meu tio Odílio Garcia. Fiquei um bom tempo apresentando detalhes e mais detalhes que me vinham à mente em forma de fotografias instantâneas. Ia, naturalmente, servindo-me das coisas da memória como se estivesse desmanchando uma cebola, camada após camada, misturando imagens e tempos. Ali naquele terreno eu revivi, ao mesmo tempo, sessenta anos sobrepostos uns sobre os outros de forma tão nítida que parecia estar diante da realidade concreta.

A memória tem essa característica interessante, de puder misturar tudo sem se perder a exata noção das coisas vivenciadas. Ali, entre os matos do terreno baldio, eu via carroças, carros-de-mola, cavalos, galinhas, forno de lenha, rosca de polvilho, conversas e sociabilidades em família, bolos de aniversários e o velório de um tio que se fez o grande herói de Itajaí. Tudo junto e misturado com uma nitidez que parecia real. No final, ao sair do terreno, resumi todas essas lembranças em uma única lágrima que escorreu vagarosamente por meu rosto de idoso.

LUGARES E NÃO-LUGARES DE UMA CIDADE

Igreja Imaculada Conceição – foto Magru Floriano

Algumas pessoas ainda não perceberam que a cidade é um ambiente vivo, dinâmico (composto por muitos lugares e não-lugares) e por isso andam pela cidade como se ela fosse constituída por um território homogêneo. A vida moderna leva as pessoas a permanecerem a maioria do tempo em três lugares: residência, trabalho, igreja. Uma parcela também opta por um quarto lugar: clube recreativo ou local onde pratica seu hobby. A cidade se transforma, para essa maioria, em um círculo-vicioso, um território marcado, um sítio cercado. Fora desses locais pontuais, tudo é não-lugar onde a população acelera rumo aos tradicionais abrigos seguros, como se fossem abrigos subterrâneos em período de guerra. Passamos correndo por tudo e todos e mal conseguimos perceber cheiros, cores e rostos.

De nossa parte tomamos o cuidado de “aproveitar” melhor a cidade, frequentando outros lugares para além da residência, trabalho, igreja e clube recreativo. Lugares onde sentamos para conversar com pessoas e promover a tradicional crônica diária ou semanal. Itajaí tem muitos lugares especiais como a “Cocada” – nosso senadinho – e os mercados (Mercado Velho + Mercado de Peixe).

A Cocada surgiu no tempo em que a própria Rua Hercílio Luz era um lugar. Ali tínhamos a loja do Narciso, Alfredinho, Balinho, Laercinho, Germano…. Mas, o tempo transformou esse lugar em um não-lugar, onde encontramos as lojas Pernambucanas, Bahia, Marisa, Salfer …. cujos donos não conhecemos e jamais conheceremos. O passado do lugar Rua Hercílio Luz guarda as conversas com o “Seu Macedo” e o “Seu Graff”. No início da rua tínhamos o resumo desse lugar, a Cocada, onde no final do dia, no Café do Zena, os homens da cidade faziam sua crônica política e social. Para a juventude tínhamos o “muro do guarani” onde iniciava o tradicional namoro (footing) antes e depois das missas e também das sessões cinematográficas.

Contudo, a cidade resiste e busca mecanismos não convencionais para manter a Praça Vidal Ramos como um lugar. O Café Democrático e o Bar do Zena deram lugar a uma farmácia, mas os homens sentam à mesa da Lanchonete da Beti, cujas portas abriram a alguns metros para dentro da Rua Hercílio Luz. Quase ninguém mais senta nos bancos sombreados pelos oitis da Praça Vidal Ramos, mas a Cocada mantém seu espírito público, preservando o lugar histórico da cidade. Quem frequenta a Cocada, antes de tudo preserva o lugar e a memória da cidade pelo simples fato de ali estar.

Também temos nos sábados ao meio-dia os encontros nos restaurantes dos mercados (Mercado Velho e Mercado de Peixe). Muitas pessoas percebem nesse lugar o espírito de ser do itajaiense. O cheiro do pescado, a conversa na mesa ao ar livre, a descontração ao som de música ao vivo, os chapéus do Pedrinho, a banca dos japoneses …. Os mercados formam um lugar especial na cidade de Itajaí. Quem ainda não frequentou os restaurantes dos mercados não pode dizer com convicção que conhece o espírito do itajaiense.

Por muito tempo mantivemos a Pastelaria Marilú como um lugar, assim como a Baiúca do Egídio, Rangal´s Dusky´s, Lanchonete 1040 com sua canja da meia-noite e o Seare´s Bar do nosso memorialista Sebastião Armando Reis. Nossos clubes recreativos (Vila, Fazenda, Tiradentes, Sebastião Lucas, Guarani, Itaipava, Fiúza Lima, Grêmio XXI de Julho ….) foram lugares para uma grande parcela de nossa gente. Assim como também o foram os estádios dos clubes Almirante Barroso e Marcílio Dias nos tempos dos clássicos futebolísticos e a Praia de Cabeçudas.

Assim como a Rua Hercílio Luz deixou de ser lugar para estruturar-se como um “não lugar” por não espelhar mais a identidade da cidade e sua gente, nada representando para seu povo além de um espaço de passagem cotidiana, assim também deixaram de ser “lugar” nossas sociedades recreativas e nossos clubes de futebol profissional. Muitos desses lugares cederam espaço para o “não-lugar midiático e digital”. Eu próprio frequento dois lugares comunitários digitais: o grupo “Itajaí de antigamente” no Facebook; e, o grupo “confraria” em sistema coletivo de e-mail.

No grupo “Itajaí de antigamente” postamos fotos antigas de Itajaí, suas instituições e famílias, para depois provocar nossas memórias coletivas. Interessantíssimo sob todos os aspectos, apesar de pouco convencional. No grupo “confraria” enviamos a um grupo fechado de amigos mensagens eletrônicas temáticas acerca da realidade político-social brasileira e esperamos dos parceiros respostas analíticas e reflexivas sobre o mesmo tema.

O problema é que a internet simplesmente não é. Não tem cheiro, não tem expressão. Não tem sentimento exposto à flor da pele…. A internet não é lugar algum. Não podemos dizer que o grupo “Itajaí de antigamente” tem lugar na cidade. Não podemos dizer que seus milhares de “amigos” efetivamente se relacionam comunitariamente. Afinal, deve ser corriqueiro eu passar por uma pessoa na rua com a qual me relaciono diariamente na internet sem reconhecê-la como minha companheira de lembranças e reminiscências no “Itajaí de antigamente”. Somos íntimos no mundo virtual e desconhecidos nos lugares da cidade.

No meu tempo de criança no Bairro São João a rua de macadame era nosso lugar especial. A Rua Max se transformava diariamente em parque infantil completo. Ali brincávamos de futebol, de corrida, pega-ladrão, cantigas de rodas, carrinhos de rolimã … As ruas dos nossos bairros foram asfaltadas e transformadas todas, sem exceções, em não-lugares, onde é muito perigoso parar até mesmo para conversar. É o carro que passa em alta velocidade ou o ladrão que está à espreita esperando a oportunidade de assaltar. As crianças foram para dentro de casa jogar videogame.

Bem, é assim que eu identifico os “lugares” e os “não-lugares” da cidade de Itajaí. Uma cidade é mais especial na proporção que oferece lugares para seus moradores. Quanto mais lugares e menos “não-lugares” oferecer, mais aconchegante é a cidade e mais qualidade de vida ela apresenta ao seu povo.

Quais são os teus “lugares” na cidade de Itajaí?

A ALEGRIA DE UM COLECIONADOR

Parte da coleção de livros temáticos sobre a Região da Grande Itajaí pertencente à Magru Floriano

A alegria de um colecionador não é ter um amontoado de peças, mas chegar a um ponto que sente a falta de certas peças específicas e sair a campo à sua procura. Na minha coleção de livros da Região de Itajaí, por exemplo, sinto falta dos Anuários de 1924 e 1960, do ‘Album descritivo da Praia de Camboriú’ [Silveira Júnior], do pequenino ‘Itajahy’ [Reis Netto] … Tenho esses livros em cópias xerografadas encadernadas, mas procuro seus originais há décadas.

O negócio é não desistir e curtir a prática da garimpagem em sebos, livrarias, bibliotecas particulares e leilões virtuais pelo mundo afora. A coleção acaba trazendo um prazer a mais para o colecionador porque o motiva a sair de casa, viajar, procurar, garimpar, pesquisar na Internet, se relacionar com outros colecionadores e buscar contatos com herdeiros de colecionadores de livros … A coleção é motivadora de sociabilidades.

É indescritível o prazer de ter em mãos um exemplar procurado por um longo período. Foi o que me aconteceu recentemente ao receber do colecionador Carlos Guérios o livro ‘História do Município da Penha’ do historiador José Ferreira da Silva. Fiquei emocionado e, por dias, deixei o livro por perto para ficar admirando sua graciosa beleza. Logo em seguida recebi, de um colecionador de Porto Alegre, o exemplar do ‘Anuário de Itajaí para o ano de 1949’ editado por Marcos Konder e Silveira Júnior. Além de estar em perfeito estado de conservação o livro continha o autógrafo de Marcos Konder. Uma preciosidade.

Atualmente a minha coleção de livros da Região da Grande Itajaí conta com 2.100 exemplares. É uma coleção única e quase perfeita. Considero que faltam cerca de dez exemplares para fechar um ciclo na coleção. Gostaria de ter, por exemplo, todos os ‘Anuários de Itajaí’, ‘Blumenau em Cadernos’ e ‘Vicente Só’. Mas me faltam alguns exemplares que busco em todos os cantos possíveis, principalmente em sebos espalhados entre São Paulo e Porto Alegre. Sei que um dia vou encontra-los e, por isso mesmo o esforço da procura não é sacrifício, muito pelo contrário, é uma atividade extremamente prazerosa.

Dar tempo ao tempo, contar com a oportunidade, estar no lugar certo na hora certa, não desistir, fazer contatos … isto é colecionismo. Dizem que o colecionador de livro é um bibliófilo – um amante dos livros. Não sei se já posso ser considerado um bibliófilo por ter mais de dois mil livros sobre Itajaí em minha biblioteca, o certo é que vê-los por perto me faz muito bem. Sinto-me em boa companhia.

NOVAS TECNOLOGIAS NO COTIDIANO

Parece que ficou tão comum incorporar rapidamente novas tecnologias ao cotidiano que as pessoas nem dão mais a devida importância às novidades nessa área, mesmo que elas representem um grande avanço científico e ameaçem mudar por completo o futuro de toda a humanidade. Testam uma primeira vez e pronto, a tecnologia é reconhecida e automaticamente passa a integrar nosso cotidiano, numa naturalidade absoluta, como se sempre estivesse ali ao nosso dispor.

Essa semana vi pela primeira vez um robô atendendo pessoas. Era o ‘Robô Sundae’ que servia sorvete aos clientes no Balneário Shopping substituindo um funcionário da empresa Roboteria. As crianças compravam o sorvete, escolhiam o tipo, o robô pegava um copo, colocava sorvete dentro, alguns ingredientes selecionados como cobertura e servia na bandeja com uma portinhola para a criança pegá-lo. Quando a criança pegava o sorvete o robô abanava uma das mãos e agradecia.  Recebia em troca muitos sorrisos.

Gradativamente esses robôs vão adentrando em nossas vidas e entre acenos e sorrisos vão substituindo a mão-de-obra humana, sem que as pessoas percebam que eles estão prontos para nos substituir em um contingente ilimitado. Em minha casa já conto com dois robôs que trabalham na limpeza do piso, pego dinheiro no banco servido por máquinas eletrônicas, na universidade máquinas self-service de salgadinhos e refrigerantes estão espalhadas por todo o campus e, no supermercado, você já pode escolher se quer passar por um caixa controlado pelo ser humano ou utilizar o serviço automatizado.

Em casa, no banco, no supermercado, na universidade, no shopping … os robôs e computadores já estão substituindo o ser humano, numa marcha lenta e gradual, mas irreversível. Agora, na invasão da Rússia ao território da Ucrânia, estão sendo utilizados drones suicidas. Pequenas máquinas voadoras que identificam o alvo previamente programado e se explodem. A inteligência artificial está chegando a tal desenvolvimento que é apenas uma questão de tempo ela receber a missão de decidir, em campo de batalha, qual a melhor decisão a tomar, sem que para isso tenha de passar obrigatoriamente pela avaliação de um comando superior humano.

A criança que troca acenos com um robô que lhe serve sundae em um shopping está com um pé nesse futuro em que terá de abrir mão de seu emprego para um robô. Mas, nesse momento, nem ela, nem seus pais, estão conscientes da Caixa de Pandora que estão abrindo com um sorriso e um aceno de mão.

AS FRENTES DEMOCRÁTICAS COMO INSTRUMENTOS DE RESISTÊNCIA POLÍTICA

Participei ativamente da vida política desde tenra idade. Iniciei no movimento estudantil, passei pela militância partidária e mantive longa carreira profissional no jornalismo político. Nessas cinco décadas fui testemunha de três grandes ações visando à defesa do sistema democrático: MDB, Diretas Já, Frente Ampla Pela Democracia. Essas ações suprapartidárias tinham como característica principal a união de forças políticas, geralmente constituídas oficialmente em grandes partidos políticos, visando preservar, defender e reconstituir o sistema democrático.

A primeira grande ação suprapartidária com a qual convivi como partidário e como profissional da imprensa foi o MDB – Movimento Democrático Brasileiro. O MDB foi constituído em 1966 após o AI-2 – Ato Institucional Número Dois – instituir no Brasil o sistema bipartidário. As forças que apoiavam o governo ditatorial eram representadas pela ARENA – Aliança Renovadora Nacional -, e, a oposição representada pelo MDB. Portanto, o MDB era uma grande frente que abrigava em seu bojo todos aqueles que pretendiam restabelecer o sistema democrático golpeado em 1964. Reunia políticos e militantes da esquerda, centro e direita; de comunistas [como Miguel Arraes] a liberais [como Ulisses Guimarães].

Em 1983 a Ditadura da Arena havia perdido todo o apoio popular e não tinha mais condições de se manter no poder com uma linha autoritária que ainda permitia a sobrevivência legal da oposição. Sem apoio popular a Ditadura da Arena ficou em uma encruzilhada histórica, com duas alternativas: abrir para o sistema democrático, fechar radicalmente para constituir um regime totalitário. A ditadura branda, autoritária, já não era mais possível porque o povo estava nas ruas e praças e, o MDB começava a ganhar todas as eleições regionais, de governador a prefeito, de senador a vereador.

Foi nesse ambiente hostil ao autoritarismo que surgiu, em 1983, a Emenda Dante de Oliveira, exigindo do Congresso Nacional a volta da eleição direta para presidente da República. Na movimentação político-popular surgida no entorno da votação da Emenda Dante de Oliveira foi possível a criação de uma frente ampla visando restituir o sistema democrático. A derrota da Emenda no Congresso, fez surgir uma candidatura de oposição forte para combater o candidato da Ditadura da Arena no Colégio Eleitoral. Na eleição indireta ficou a disputa Paulo Maluf versus Tancredo Neves, com a vitória do oposicionista Tancredo Neves. O retorno ao sistema democrático era uma questão de tempo.

Agora, em 2022, vejo surgir novamente uma composição política suprapartidária visando à manutenção do regime democrático, ameaçado pelo avanço eleitoral das forças conservadores, representadas nestas eleições pela candidatura do presidente Jair Messias Bolsonaro. A Frente Ampla Pela Democracia é constituída por Lula [PT], Geraldo Alckmin [PSB], Ciro Gomes [PDT], Simone Tebet [PMDB], Fernando Henrique Cardoso [PSDB], Marina Silva [Rede Sustentabilidade / PSOL] e lideranças de diversos setores da sociedade brasileira, do esporte à economia.

O simples fato dessa frente se fazer necessária e viável já demonstra o ambiente político que atravessa o país.  O MDB e o movimento das Diretas-Já, enquanto frentes em defesa da democracia, surgiram em momentos de extrema tensão, onde a democracia estava completamente debilitada. Agora, não é diferente. Se a democracia não estivesse realmente ameaçada a Frente Ampla Pela Democracia, contando com FHC e Lula, Marina Silva e Alckmin … jamais seria possível.  Quando essas forças e personalidades se juntam é porque chegaram à conclusão de que se faz necessário deixar de lado as divergências para lutar em defesa de algo maior, no caso a democracia. Dessa forma, a simples existência de uma Frente Ampla já fala por si sobre o tempo político em que vivemos.

O CELULAR COMO MÁQUINA DE TELETRANSPORTE PARA AS NUVENS

No mundo atual nada é mais emblemático do que o aparelho celular conectado à Internet que dá acesso às redes sociais. Tempo e Espaço são anulados pela mente que atende ao chamado de alguém que está em qualquer outro ponto do Planeta. A urgência de atender ao chamado é imperativa, autoritária, prioritária, condição de existência. Não importa se o sujeito está dirigindo em uma rodovia a cem quilômetros por hora, se está falando com o médico sobre seu câncer de mama, se está dirigindo uma moto ou bicicleta … o som da chamada do celular obriga necessariamente a atender, a dar prioridade, a deslocar-se para uma bolha fora da realidade objetiva.

Duas pessoas conectadas ficam suspensas no ar – como um holograma – conversando normalmente como se estivessem uma frente a outra.  Enquanto dura esse diálogo holográfico a pessoa não está presente ao corpo, é transportada para um outro espaço-tempo, mantendo apenas a presença corporal no lugar-tempo em que se encontra fisicamente. Seria um correspondente ao estado de coma de um paciente deitado na maca do hospital. Esse teletransporte mental retira da pessoa qualquer condição de sociabilidade presencial. Portanto, ao atender a chamada em rede, a pessoa opta por desconectar-se do mundo presencial para conectar-se ao mundo midiático. Um mundo cujo tempo-espaço tem existência nas nuvens – onde o sujeito é suspenso no ar como holograma.

Nos últimos tempos tenho testemunhado que as pessoas têm se mostrado mais irritadiças com a minha prática de não atender imediatamente às chamadas no meu celular. Se estou dirigindo, se estou conversando, se estou escrevendo ou fazendo minhas xilogravuras … deixo para atender o celular depois. Amigos, como Carlos Guérios e Amaro da Silva Neto, tomaram uma decisão ainda mais radical, optando simplesmente por não possuírem celular. São luditas e, portanto, exceções à regra geral estabelecida no mundo de hoje. Por outro lado, percebo que cada vez mais as pessoas começam a apresentar sérias dificuldades em contrariar as imposições estabelecidas pela máquina. Principalmente os mais jovens ficam impacientes, irrequietos, agitados, angustiados … se, por algum motivo imperioso, não podem atender às chamadas de suas redes sociais.

Nesse sentido, parece mais do que evidente que o celular mudou a lógica das sociabilidades. A pessoa que está presente, conversando, deixa de ser merecedora de receber a atenção plena e até de ter prioridade no diálogo. O diálogo com quem está ao telefone, na rede, corre paralelo ao diálogo com a pessoa presente, mas, contudo, ocorrendo uma escala de valores onde o diálogo presencial perde em importância para o diálogo midiático.  O diálogo presencial fica picotado, intercalado, interrompido no seu fundamento enquanto sociabilidade. Nesse ponto, o amigo presente tem de competir na conquista da atenção de seu interlocutor com uma horda de desconhecidos que estão habitando a nuvem midiática a qual ele está conectado. Há uma presença parcial, porque o interlocutor está presente fisicamente e ao mesmo tempo está conectado na nuvem querendo promover o feito de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Dessa necessidade em estar conectado ao mundo real e ao midiático ao mesmo tempo resta alguns problemas em termos de sociabilidade. O primeiro deles diz respeito ao roubo de liberdade e constrangimento do exercício pleno do livre-arbítrio, porque há uma evidente impossibilidade psicológica do sujeito dizer não ao chamado da máquina. O sujeito considera que a chamada é impositiva e não atendê-la prontamente corresponde a uma falha grave a partir do seu modo de ver-se no mundo, seu conceito de ser social, de pertencimento do grupo. O segundo problema diz respeito à perda de qualidade na vivência presencial. Você está em um show musical maravilhoso, e, no lugar de aproveitar ao máximo aquele momento, fica preocupado em gravar e transmitir as imagens para seu grupo midiático. Você está em Paris e sua cabeça está cheia de preocupação sobre a fotografia que estará enviando para os amigos midiáticos. Você está em Paris com a cabeça na nuvem, você está diante do amor da sua vida com a cabeça na nuvem, você está vendo o artilheiro do seu time fazer o gol do título com a cabeça na nuvem… você está presente e não está presente, você está na terra e na nuvem, aqui e lá.

Essa presença em dois mundos ao mesmo tempo lhe tira qualidade de vida e a única forma de resolver essa questão é dar tempo determinado para o uso da tecnologia. Você tem de se educar a ponto de conseguir dizer não ao seu celular e sua rede de amigos midiáticos.  Ter tempo para estar presente e tempo para ir para as nuvens. Ficar ao mesmo tempo na terra e na nuvem é viver estranhamente entre o real e o midiático, em um mundo quântico de estar presente estando ausente ou, se preferir, estar ausente estando presente.

O CLIMA ESTÁ MUDANDO, NOSSA MENTALIDADE NÃO!

Neste ano de 2022 já ocorreram três tempestades fortes, com rajadas de vento que alcançaram velocidade próxima de cem quilômetro por hora. Nossas sombrinhas foram estraçalhadas, telhados e coberturas voaram, outdoors foram ao chão e grandes placas publicitárias tiveram suas bases retorcidas, árvores foram arrancadas pelas raízes e jogadas sobre a fiação elétrica deixando milhares de consumidores sem energia por muitas horas. Mas as pessoas continuam fazendo de conta que não está acontecendo nada de extraordinário com o clima e a natureza, tentando tocar a vida dentro do que consideram a normalidade.

A verdade é que o clima está mudando. E mudando rapidamente. A temperatura está aumentando e a natureza já está reagindo de forma inequívoca. Enquanto a Floresta Amazônica está sendo devastada para dar lugar a pasto para criação de gado e para os grandes campos de plantação de soja, as grandes cidades estão asfaltando e cimentando tudo, retirando árvores das avenidas e sombreando toda a área urbana com prédios construídos um ao lado do outro, como favelas de sótãos e cortiços com elevadores. A cidade não respira. Os prédios formam corredores que facilitam o ‘encanamento’ do vento, tornando tudo ainda mais perigoso para os poucos que se aventuram a andar pela rua nesses dias tempestuosos.

O mais interessante é perceber que as empresas de outdoors continuam mantendo as mesmas técnicas rudimentares de décadas passadas, como se nada estivesse acontecendo de novo. As placas de zinco – postadas às margens das rodovias – são afixadas em cavaletes rudimentares feitos com restos de madeiras da construção civil. As coberturas dos postos de gasolina continuam recebendo placas de zinco finas e as placas publicitárias dos estabelecimentos comerciais são afixadas em uma base de alumínio que não resiste a um ventinho de cinquenta quilômetro por hora. Mesmo os grandes outdoors luminosos que são afixados em totens de ferro, aparentam uma falsa solidez estrutural – já que não foram projetados para ventos com velocidade superior a cem quilômetros por hora. Tudo isso voa sobre as cabeças das pessoas, transformando em uma grande aventura a simples ida à esquina para comprar pão.

Pior do que isso é perceber que está começando a se tornar corriqueiro ouvir relatos de janelas que despreendem dos edifícios e caem próximo aos transeuntes e carros. Com ventos acima de cem quilômetros por hora tudo voa: sombrinha, telhado, placas de publicidade e janelas. E as tempestades estão chegando com velocidades cada vez maiores, tornando corriqueiras expressões como tufão, tempestade tropical e extratropical, furacão, ciclone … Palavras que eram utilizadas, até bem pouco tempo, apenas para eventos climáticos que ocorriam na Ásia e Caribe, e, que víamos apenas na televisão.

O clima está mudando rapidamente e nossa mentalidade continua intacta. Continuamos comprando sombrinhas e ampliando nossa fronteira agrícola sobre o Pantanal e a Amazônia como se nada estivesse acontecendo. Temos facilidade em derrubar árvores e dificuldade em plantá-las. Alheia a tudo isso, a Prefeitura de Itajaí acaba de anunciar que vai plantar cem mil pés de flores nos jardins públicos da cidade. Derruba árvores para ampliar os espaços dos carros particulares e, depois, anuncia que vai plantar pequenas mudas de flores decorativas nos poucos canteiros que sobraram. Coincidentemente são flores que costumamos depositar sobre os caixões funerários.

 

TENHO UM CELULAR, LOGO, EXISTO!

Algumas tecnologias são rapidamente incorporadas ao cotidiano das pessoas mais comuns sem que elas sequer tomem conhecimento do seu uso. Estão ali, servindo a todos, de maneira invisível, transparente, imperceptível, totalmente ocultas. Mas, existem sistemas e tecnologias que precisam da aquiescência e adesão direta do usuário para entrar em operação. Essas, geralmente, demandam mais tempo porque são incorporadas gradativamente ao longo de anos, partindo das classes mais esclarecidas em direção ao povão.

Boa parte dessas novidades não são incorporadas imediatamente pela simples e definitiva questão econômica. Afinal, não bastava ao pobre querer ver televisão ou ter uma máquina de lavar roupa, micro-ondas, geladeira. Esses bens do cotidiano doméstico tiveram de ser transferidos classe a classe, por descartes e, muito depois, pelo advento do crediário facilitado – que hoje deixa boa parcela da população simplesmente endividada à beira da inadimplência e refém do cartão de crédito.

Um evento extremo pode facilitar o processo de adesão a um novo sistema e tecnologia, de forma a pular décadas. O banco digital via celular não seria utilizado pela classe mais desvalida, porque ela ainda prefere o dinheiro físico. Acontece que a pandemia da Covid, a partir de 2019, levou muita gente a evitar aglomeração e locais fechados, jogando muitos para dentro dos sistemas do banco digital pagando contas por QR Code, pagamentos automáticos, boletos via email, etc. Agora, em 2022, o Governo Federal promoveu um ‘pacote de bondade eleitoral’ oferecendo bolsas de auxílio a caminhoneiros, taxistas … depositando dinheiro em contas eletrônicas com retirada pelo novíssimo sistema bancário nomeado de PIX.

Foi aí, então, que o pobre atendido pelo ‘Bolsa Família’ e o caminhoneiro, entre tantos milhões das classes baixa e média, se viram usuários do Banco Digital via celular e seu moderníssimo sistema de pagamento por PIX. Uma adesão que poderia demorar décadas foi consolidada no prazo de vinte dias, porque todos correram, nas pontas dos dedos das mãos, para ter sua conta digital e um celular. Agora, cem por cento da população tem celular e, nem todos têm o que comer, já que o auxílio do governo geralmente acaba na metade do mês.

O caso de uma criança que telefonou para a Polícia Militar garantindo que não tinha o que comer naquele dia é emblemático. Ele ligou para a polícia de um celular que estava em pleno uso por sua família que está cadastrada nos programas de ajuda humanitária do Governo Federal. Tinha um telefone celular funcionando enquanto a panela da família estava completamente vazia. Esse simples telefonema da criança escancara a realidade da pobreza no Brasil. Todos tem de ter o celular porque é através dele que chega o auxílio do Governo Federal. O dinheiro é eletrônico, em forma de PIX via banco digital. Assim, estabelecemos uma ideia bem simples sobre pobreza e tecnologia no Brasil, uma ideia adaptada de Descartes com o seguinte enunciado: ‘Tenho um celular, logo existo!’ pelo menos para o Governo Federal.

O FUTURO ESTÁ PRESENTE

Recentemente, três membros da minha família anunciaram que começaram a instalar equipamentos para coleta de energia solar em suas residências e estabelecimentos comerciais. Ali no bairro São Judas, na periferia da cidade, olho para a casa da minha irmã e vejo o seu telhado já tomado por placas brilhantes vindas da Alemanha. É o futuro se consubstanciando no presente. Contudo, fazendo um triste contraponto com este cenário de alto desenvolvimento tecnológico, os ladrões e os mendigos continuam nas esquinas da cidade. Uns, levando nossos celulares; outros, nossas moedas.

Minha geração viu o telefone fixo ser substituído pelo celular, a máquina de escrever pelo computador, a carroça pelo carro. Viu a Internet jogar na lata do lixo as enciclopédias Barsa e Delta-Larousse; o fim da era dos jornais impressos; as antenas de TVs dando lugar aos cabos de fibra ótica ou imagem por satélite; as TVs mostrando no mosaico mais de cem canais. E dizer que bem pouco tempo atrás eu era feliz vendo televisão duas horas por dia, quando era possível ‘pegar’ o sinal nas antenas caseiras sustentadas por varas de bambu.

Mas, agora, olhando para o telhado da casa de minha irmã na periferia da cidade, vendo-o todo coberto com placas coletoras de energia solar, fico pensando: qual será a próxima coisa do futuro que traremos para o nosso presente? Será o robô nosso mascote? Qual a próxima tecnologia que fará sua encarnação, sua passagem, entre futuro e presente para nos assombrar? O que o futuro está nos reservando para o nosso presente? Entregas domiciliares com drone; extinção de todos os documentos físicos de identificação e reconhecimento fácil; fim do dinheiro em cédula e moeda, cartão de crédito e débito … Será que estaremos, logo ali na frente, eliminando o prato de comida para incorporar o hábito ‘lunático’ de comer cápsulas?

Presentemente constato que o futuro chegou até mim de uma forma muito rápida. Quem sabe até, estou invertendo as coisas, pois teria sido eu que cheguei ao futuro apressadamente. A verdade é simples e direta como o é a realidade: tudo aquilo que se especulava em termos de conquista tecnológica na minha infância e juventude virou realidade diante dos meus olhos. Eu vi surgir no meu cotidiano o telefone e o celular; a televisão a cores, a cabo e por satélite; o carro elétrico e computadorizado; o xerox e o off-set; a máquina elétrica IBM e o computador; filmadoras, rádios e gravadores portáteis. Eu vi o disco de vinil sendo substituído pelo CD e DVD; a máquina fotográfica de filme sendo substituída pela máquina digital e, depois, pelo celular. Mas, agora já tem o drone que tudo vê, fotografa e filma …. e até mata.

Tudo o que era futuro para mim enquanto criança e adolescente, agora, é realidade. Muitas coisas, inclusive, já estão até ultrapassadas. Dia desse me desfiz de uma coleção de CD e fitas VHS, máquinas fotográficas digitais de pequeno porte, rádio portátil AM, máquina de escrever, TV de válvula … objetos que foram parar em mãos de colecionadores, esses aliados incondicionais de Chronos. Nessa caminhada eu andei de carro-de-mola, táxi e Uber. Andarei em um carro voador? É como se eu saísse da cidade dos Flintstones para visitar os Jetsons. É como se estivesse entrado dentro de um livro de Júlio Werner virando um de seus personagens. Eu estou vivendo no meu próprio futuro.