Adeus ao Dinheiro

Ninguém tem mais dúvida de que o dinheiro vivo – em cédula e moeda – vai deixar de circular ainda nesta década. Chegaremos em 2030 sem dinheiro no bolso. Essa tendência que, à primeira vista, parecia ser de longo prazo, passou a ser uma tendência de médio prazo a partir da pandemia do Covid e a criação do PIX, no ano de 2020.

Neste ano, as pessoas das classes mais abastadas e escolarizadas já tinham decidido deixar o dinheiro físico de lado em troca das comodidades do dinheiro eletrônico – à mão do usuário através de cartões magnéticos e aplicativos de aparelhos celulares. Mas, em novembro o Banco Central do Brasil lançou o PIX e incluiu no sistema financeiro nacional quase 72 milhões de usuários. O Governo Federal colocou todos os assistidos com programas sociais do Estado no sistema eletrônico, levando esse enorme contingente de cidadãos invisíveis ao sistema bancário nacional a terem acesso a um celular e uma conta bancária digital. Agora, as classes menos favorecidas recebiam seus auxílios governamentais com dinheiro eletrônico.

Como eu gosto muito de fazer experiências nesse setor que envolve mudança social através do implemento de novas tecnologias, resolvi todo mês pegar uma quantia de dinheiro físico no banco e tentar pagar contas com cédulas e moedas. No início, ainda em 2021, tinha dificuldade de pagar contas em padarias e supermercados com notas mais altas, duzentos e cem reais. Mas a partir de 2022 comecei a perceber a dificuldade em pagar com presteza qualquer conta independente de valor. A dificuldade maior ocorrida quando da necessidade de moedas. A primeira moeda que sumiu por completo dos caixas foram as pequeninas moedas de um centavo. Depois, sumiram as moedas de cinco centavos. Por último, sumiram todas as moedas.

O sumiço das moedas era o prenúncio de uma tendência irreversível. Agora, em pleno ano de 2024, quando puxo a carteira e apresento dinheiro físico alguns caixas demonstram espanto e até certa irritabilidade, porque sabem que vão ter problemas para arrumar o troco correto para me entregar. Nos supermercados é comum o caixa apertar o botão da luz vermelha para chamar o assistente de caixa, para poder trocar notas maiores por notas menores e até conseguir algumas preciosas moedas. Nos restaurantes tornou-se usual os caixas arredondarem as contas, para fugir ao supremo sacrifício de conseguir notas de baixo valor e moedas. A partir deste ano, não lembro uma vez que tenha apresentado uma nota de cem reais a um comerciante que não tenha de perder mais tempo do que um usuário de cartão. Geralmente um caixa acode ao outro ou uma pessoa de apoio é acionada, como os tradicionais assistentes de caixas e até os gerentes.

O caso mais extremo que vivenciei este ano ocorreu na Drogaria Catarinense. Fui fazer uma compra na loja da Rua Hercílio Luz e ao apresentar o dinheiro físico o caixa simplesmente me comunicou que não tinha como me dar o troco e desfez o registro da minha compra. Insisti, dizendo que tinha o direito de pagar com dinheiro de circulação nacional e ele simplesmente disse-me: ‘Hoje é domingo, não tenho como conseguir o troco para lhe dar”. Encerrada a conversa, sai sem a mercadoria apesar de ter o dinheiro para compra-la. No mês de agosto, em duas oportunidades fiquei devendo no caixa do restaurante onde almoço com regularidade. Motivo: “não temos troco, fica no fiado”.

Então é isso, quem deseja se incomodar no comércio que utilize dinheiro físico para pagar suas contas. Por enquanto ainda estão aceitando os cartões magnéticos. Acontece que as maquinazinhas de cartões também estão com seus dias contados. Tenho notado uma certa tendência entre os integrantes das classes mais abastadas e escolarizadas a utilizarem o celular pelo sistema de aproximação para pagar todas as contas. Nem dinheiro, nem cartão magnético, teremos apenas dinheiro eletrônico acessado através do celular.

Adeus dinheiro. Quando alguém quiser ver uma raridade dessas que procure um colecionador. Isso já havia acontecido com outras peças que passaram a ser consideradas peças históricas, como é o caso do selo, ficha telefônica e o belíssimo cartão postal. [Magru Floriano – 2024].

O futuro da imprensa

O futuro da imprensa é não ter imprensa. Isto se levarmos em conta que o termo imprensa remete diretamente à atividade de impressão. Não teremos mais jornais/revistas impressos. Mas, não é só isso. Não teremos também jornalismo enquanto atividade profissional remunerada. Teremos comentaristas, apresentadores e animadores de programas em rádio e TV, comentaristas e colunistas nos jornais digitais e nas múltiplas plataformas ocupadas pelas redes sociais na Internet. Atualmente [2024] estima-se que noventa por cento dos jornalistas graduados pelas universidades catarinenses esteja trabalhando no setor de assessoria de imprensa e produção própria de conteúdo digital.

Jornalistas Gracie e Ivan Rupp no ateliê de Magru Floriano – 2024.

Entre os anos de 1970 e 2000 o normal seria que o jornalista tivesse emprego prioritário em um órgão de imprensa [rádio, TV, jornal, site de notícia] e, fizesse ‘bico’ em assessorias ocasionais.  Nos dias atuais [2024] a pirâmide ocupacional se inverteu e a assessoria de imprensa virou o principal mercado do jornalista. São elas que pautam todos os jornais – os que resistiram à concorrência com as mídias digitais – rádio e televisão.  

A imprensa está pautada por dois grandes focos produtores de informações: assessoria de imprensa e redes sociais digitais. O problema é que ambos os conteúdos produzidos por eles são tecnicamente medíocres. Enquanto a assessoria só vê o lado da empresa que trabalha, as redes sociais são condicionadas pelo mal do ‘achismo’ e da opinião sem qualificação técnica. O quadro fica ainda mais grave quando colocamos nas redações gente que não sabe escrever e repassa para a IA – Inteligência Artificial – a missão de elaborar o texto a partir de algumas informações coletadas apressadamente na Internet.

No dia 11 de janeiro de 2018 publiquei um texto com o título ‘Quem reclama? Do que reclama?’ na plataforma Facebook. Em 24 horas o material contava com 1.500 curtidas, 1.200 compartilhamentos, 500 comentários vindos de todas as regiões de Santa Catarina. No dia seguinte, o Diário do Litoral publicou um depoimento meu sobre o aniversário de 39 anos do jornal – já que fui um dos seus primeiros repórteres. Apenas uma pessoa me enviou mensagem comentando sobre minha participação na edição do jornal mais lido da cidade.

A pandemia do Covid simplesmente acelerou uma tendência que vinha se desenrolando por muito tempo e, tudo indicava, ainda ia demorar um tempo relativo para se completar. O tempo histórico foi acelerado na pandemia a partir de 2019. Por conta do auxílio do Governo Federal, por exemplo, todas as pessoas com baixa renda tiveram de abrir conta digital e indicar um número de celular, migrando compulsoriamente para o banco digital e seus produtos revolucionários não presenciais, como é o caso de ‘Aplicativo Bancário’ e o sistema de pagamento ‘Pix’. A totalidade da sociedade brasileira foi incorporada à era digital … o resto é história.

Tendo um celular em mãos conectado à Internet por que motivos a população iria esperar até o dia seguinte para ler as notícias em um jornal impresso? Principalmente a plataforma WhattsApp, ao formar grupos de interesses, conecta a pessoa ao mundo real instantâneo. Um acidente na BR-101 é filmado/fotografado e no mesmo instante transmitido por toda a rede na velocidade de segundos. O jornal tinha dois produtos que interessavam ao leitor: notícia e opinião. A notícia é veiculada instantaneamente pelos grupos digitais via WhattsApp, Instagran, Facebook …; a opinião é expressa à exaustão nas redes sociais. Sobrou o que para o jornal do dia seguinte?

Mas, calma, nunca está suficientemente ruim que não possa piorar um pouco mais. Devido ao quadro bipolarizado do cenário político brasileiro, as pessoas começaram a ter o péssimo hábito de desqualificar qualquer conteúdo jornalístico transmitido por determinado veículo de comunicação que não esteja alinhado ao seu grupo ideológico. A Rede Globo é uma das vítimas dessa realidade contaminada ideologicamente, mas está longe de ser a única. Junto a esta escolha pelo órgão de imprensa alinhado ideologicamente vem a tendência de aceitar com muita naturalidade ‘fake news’, desde que a mesma esteja de acordo com suas ideias e interesses ideológicos.

Temos um cenário de tempestade perfeita: fake news, escolha ideológica da fonte de notícia, manipulação de imagens por mecanismos de IA – Inteligência Artificial, fim do jornalismo de múltiplas fontes … tudo isso leva à ascensão e hegemonia do idiota como o comunicador de sucesso. O especialista, o técnico, aquele que estudou durante décadas um determinado assunto, tem de disputar vorazmente com o idiota seu espaço de opinião nas plataformas digitais. No mundo digital todo mundo é doutor de tudo. Ler e estudar deixa-se para depois, porque o agora exige que se lance a opinião para conquistar seguidores.

CIDADE DE CIMENTO

Magru Floriano

Itajaí está correndo um sério risco de se tornar mais uma cidade de cimento, como já vem ocorrendo com as cidades de Balneário Camboriú e Itapema. A facilidade como a Prefeitura decreta a derruba de árvores é espantosa e causa extrema preocupação a qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Não bastasse ter transformado a Rua Hercílio Luz em uma rampa de concreto-armado, a municipalidade colocou vasos de bonsais aqui e ali para disfarçar, aparentando ter algum verde em toda a sua extensão. Bem poderíamos denominar a principal rua da cidade de RUA DOS BONSAIS… porque o resto é cimento. Agora, anuncia uma reforma geral na Avenida Marcos Konder, retirando dela quase uma centena de árvores. Uma obra, diga-se, a bem da verdade, completamente desnecessária. Dinheiro público que poderia ser utilizado em obras muito mais úteis e socialmente desejáveis na periferia da cidade.

Rua Hercílio Luz passou a ser uma rampa de concreto-armado … sem vida.

Itajaí tem um histórico na questão ecológica que nos preocupa. As árvores sempre foram derrubadas sem o menor pudor. Quem lê um pouco sobre os tempos de antanho não terá muita dificuldade em detectar diversas ocasiões em que as árvores foram derrubadas em nome do progresso, não tendo a devida compensação ecológica. Foi assim nas diversas reformas ocorridas na Praça Vidal Ramos no tempo que Irineu Bornhausen era o prefeito e, foi assim também, com a Avenida Joca Brandão e rua José Eugênio Müller – na Vila Operária. A Avenida Joca Brandão e a Rodovia Osvaldo Reis perderam árvores e plantas para dar lugar às palmeiras, árvores sem sombras que cumprem apenas designíos estéticos. Está viva na minha memória a derrubada das figueiras para dar lugar ao Terminal de Ônibus da Fazenda …. 

O pior de tudo é perceber que a Prefeitura, o poder público, é o péssimo exemplo a ser seguido pela iniciativa privada. Ela derruba árvores frondosas e planta palmeiras ou bonsais, promove terraplanagem e terraplenagem em locais como o Saco da Fazenda, canaliza o Ribeirão da Caetana e autoriza construção sobre o mesmo, não tem uma política definida para preservar áreas com nascentes para captação de água potável, não olha com atenção a ocupação das margens dos rios e ribeirões, legaliza loteamentos feitos em grandes áreas de margem de rio e baixios antes utilizados na plantação de arroz irrigado, colocando a vida e o patrimônio de milhares de pessoas em risco constante, como é o caso dos loteamentos Santa Regina e Portal…..

Temo em dizer, dado o histórico aqui levantado de memória, que as centenas de árvores da Avenida Marcos Konder não serão as últimas a serem derrubas na cidade. O cimento e o asfalto tomarão conta de tudo e, depois… bem, depois, vem o choro e a lágrima, com a natureza simplesmente querendo sua parte de volta. Já que não aprendemos nada com as enchentes de 1983 e 2008, será que temos capacidade de aprender com o que está acontecendo no Rio Grande do Sul?

CHEGA DE CIMENTO E BONSAIS. QUEREMOS ÁRVORES!

MAIS TECNOLOGIA MENOS EMPREGO

Magru Floriano

No dia cinco de abril de 2023 a Prefeitura de Itajaí apresentou os dois carros que passariam a ser usados na atividade de monitoramento do novo sistema público de estacionamento nas ruas do Centro da cidade. Conversando com os funcionários públicos responsáveis pelo projeto de monitoramento por câmeras instaladas nos veículos, notei o orgulho deles pelo uso da alta tecnologia e, a forma positiva como sentenciavam que os dois carros substituíam trinta e cinco pessoas. Os veículos passavam, filmavam e já enviavam a imagem para uma central, responsável pela expedição da respectiva notificação ao proprietário de veículo infrator.

O sistema de estacionamento nas ruas de Itajaí, elaborado pela empresa ‘Vago’, é todo digital. O carro da Codetran passa em baixa velocidade, registra a placa do carro estacionado, confere se ele está inscrito no sistema e está pagando pela vaga. O motorista tem diversas opções para quitar a vaga que vai usar: a primeira é utilizar seu próprio celular, através de um aplicativo; a segunda é comprar um cartão no comércio local; a terceira é comparecer até um dos totens que a empresa instalou em diversos pontos da cidade e pagar em dinheiro, cartão ou pix – no celular.

Não tente encontrar alguém da empresa ou da Codetran para receber qualquer tipo de orientação. As pessoas sumiram. Elas não são necessárias e foram substituídas por carros, aplicativos, câmeras, Internet, cartões, totens … As poucas pessoas empregadas estão no volante dos carros e atrás das telas dos computadores aplicando as multas que você vai receber tempo depois pelo correio ou no seu celular, via aplicativo específico da ‘Vago’ ou da ‘Codetran’.

A máquina tudo vê e é implacável no cumprimento da lei. Inútil querer argumentar, porque não há mais com quem dialogar. Daí, eu começo a entender porque está se tornando mais frequente encontrar pessoas fazendo caretas e trejeitos em lugares públicos, dando sinais de alguma anormalidade psicológica e comportamental. São pessoas que estão reagindo, sadiamente, à vigilância implacável das câmeras. Ao notarem que estão sendo filmadas – no elevador ou na porta do edifício – fazem ‘caras e bocas’ para a máquina. As mesmas máquinas que estão ameaçando roubar-lhes os empregos.

Por outro lado, todo mundo fala que é um absurdo o uso intensivo de tecnologias na área da Inteligência Artificial, mas acaba utilizando a tecnologia que as empresas incorporam a seus produtos. No primeiro semestre de 2023 comprei um carro automático, pela primeira vez não precisei utilizar um pedal resistente – embreagem – para passar a marcha. A minha coluna e o meu joelho agradeceram. A tecnologia embarcada é cada vez maior nos veículos. No meu novo Honda também experimentei utilizar ‘bluetooth’ para conectar diretamente o meu celular ao sistema de som ambiente, fazer ligações de celular a partir de comandos no volante, a utilizar o sistema ‘cruiser’ para o carro controlar a velocidade média durante a viagem … ou seja, passei a utilizar um grande número de tecnologias que facilitam a minha vida no trânsito.

Também este ano passei a utilizar o cartão magnético por aproximação e a pagar contas pelo sistema ‘pix’. Lembro que sempre fui resistente às inovações nessa área bancária. Primeiro, resisti até quando pude em utilizar os cartões eletrônicos  para fazer pagamentos no comércio. Dava preferência ao uso de cheque e dinheiro que retirava direto no caixa do banco. Também evitava totalmente o uso dos caixas eletrônicos para fazer pagamentos ou retirar dinheiro. Ficava em filas enormes, mas preferia ser atendido por um ser humano. Muito tempo se passou até que, por necessidade, passei a utilizar os caixas eletrônicos para pagar boletos e retirar dinheiro. Passei um tempo utilizando os cartões magnéticos somente para retirar dinheiro nos caixas eletrônicos das agências bancárias, nunca para pagar contas diretamente no comércio. Mas, acabei utilizando os cartões e gostando da facilidade. Mesmo assim, quando recebia um cartão novo pedia para o atendente anular a opção de pagamento por ‘aproximação’ por questão de segurança. Foi a última batalha contra a tecnologia bancária. Antes dela, tive uma batalha de trincheira no uso de aplicativo bancário no celular. Primeiro, só utilizava o aplicativo para ver saldo. Muito depois comecei a pagar alguns boletos e, por último, fazer pagamento por pix e TED.

Hoje, tomei a decisão de não reagir mais ao uso intensivo de tecnologia no meu cotidiano: seja o que Deus quiser!

QUANDO A MAIORIA SILENCIA ANUNCIA A OPRESSÃO

Magru Floriano

As eleições de 2022 vão ficar na história eleitoral brasileira como o momento em que a sociedade brasileira passou por um processo eleitoral onde apenas uma tendência política teve ambiente favorável a se manifestar publicamente. Quem andava pelas ruas do Brasil via apenas material de campanha dos nacionalistas de direita e ultradireita, ornando carros, sacadas de prédios, fachadas de lojas e camisetas de eleitores. Nem no tempo da Ditadura da Arena, na década de 70, tivemos uma ausência da manifestação da oposição de forma tão expressiva.

Mas o que levou a oposição ao governo ultradireitista silenciar de forma espontânea? Obviamente que foi a forma agressiva como essas manifestações democráticas eram recebidas por seus oponentes. Para os militantes da ultradireita todos os opositores ao Governo Bolsonaro eram, irremediavelmente, tachados de comunistas e inimigos do Brasil. Aquele que manifestava, mesmo que timidamente, seu voto a um outro candidato que não Jair Bolsonaro, era ofendido e hostilizado de forma agressiva, principalmente nas redes sociais [Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube, Linkedln, Twitter, Pinterest, Tik Tok, Skype, Snapchat, Messenger …]. Mesmo para os eleitores mais moderados, que optaram por candidaturas mais ao centro, fora da polarização esquerda-direita representada pelas candidaturas Luis Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro, o ambiente ficou por demais insalubre. Manifestar voto para Simone Tebet, Ciro Gomes, Felipe d’Ávila, Soraya Thronicke … era o suficiente para arriscar desencadear uma escalada de ações agressivas do seu interlocutor ‘bolsonarista’. Então, o silêncio foi o recurso utilizado pelos mais moderados para evitar esse conflito desnecessário ou abusivo.

Na década de 1960 a pensadora Elisabeth Noelle cunhou a expressão ‘Espiral do Silêncio’ justamente para explicar esse fenômeno que ocorre com uma pessoa ou grupo que tem opinião divergente. Noelle detectou inicialmente uma espiral do silêncio em subgrupos que tinham opinião divergente de grupos majoritários. O oponente, temendo a reação desfavorável da maioria acabava espontaneamente optando pelo silêncio como forma de evitar a represália e o mal-estar em seu próprio grupo. Era silenciar para não perder os amigos e espaços de sociabilidades.

A grande imprensa nacional acabou utilizando os termos ‘Voto Envergonhado’ e ‘Voto Silencioso’ para dar nome a esse fenômeno ampliado da ‘Espiral do Silêncio’. Um termo utilizado nos EUA durante a eleição Trump versus Biden. Na verdade, não se trata de vergonha do voto, mas apenas uma estratégia para evitar o incômodo com reações agressivas da militância de ultradireita. Uma pesquisa divulgada pela CNN assegurou que cerca de 53% dos usuários de Internet mudaram o comportamento nas redes sociais para evitar o conflito com amigos, familiares e parceiros de trabalho. As principais justificativas para o silenciamento espontâneo foram: medo de agressão físico-verbal; evitar constrangimento público; respeitar o outro; medo de comprometer negócios, emprego e relacionamentos; insegurança pessoal; evitar mal-estar em momento social determinado; medo de rejeição; evitar julgamentos desfavoráveis …

Como a militância da ultradireita ficou sozinha nas ruas e a visibilidade da campanha do candidato Jair Bolsonaro – principalmente ostentando a bandeira do Brasil – era expressiva, quando saiu o resultado da eleição ela não quis aceitar a realidade desfavorável e voltou à rua para contestar a lisura do processo eleitoral. Fecharam as principais rodovias do país e pediram – em nome da democracia – a intervenção constitucional das Forças Armadas. Em Itajaí, nos dias 31 de outubro e primeiro de novembro, fecharam a BR-101 e Rodovia Antônio Heil. No dia dois de novembro – feriado de Finados – convocaram os eleitores de Bolsonaro para uma manifestação defronte ao prédio da Capitania dos Portos, onde pediram que as Forças Armadas intervissem para não deixar o presidente eleito, Luis Inácio Lula da Silva, assumir novamente a presidência do Brasil, para ‘não deixar o Brasil cair em mãos de comunistas’. Ficaram acampados no local por cerca de setenta dias, rezando e discursando em praça pública, implorando por um Golpe de Estado.

Novamente a oposição calou e ficou em casa vendo tudo pela televisão. Justamente porque a oposição ficou assustada com a agressividade da ultradireita e buscou preservar sua segurança. Não havia espaço para o contraditório, para o diálogo, para a manifestação democrática do contraponto, da argumentação … qualquer manifestação oposicionista era sumariamente reconhecida como ‘coisa de comunista’ e um atentado contra o Brasil. Então, o silêncio reinou como reina a paz nos cemitérios. Mas essa gente não quer ver o óbvio: a maioria votou na oposição e, mais, muito mais, a maioria esmagadora reconheceu a vitória da oposição nas urnas. Uma parcela significativa dos eleitores de Jair Bolsonaro pensa assim também. Então sobra uma minoria radical de ultradireita, fascista, que não aceita parte do resultado eleitoral – sim, parte, porque só questiona a eleição que perdeu, sem questionar eleições que a situação saiu vitoriosa para deputado federal, deputado estadual, governador e senador – e, impõe o caos à sociedade brasileira.

Interessante perceber que esses manifestantes que fecham as rodovias, queimam pneus, enfrentam a polícia para pedir o golpe contra o sistema democrático empunham em grande número a bandeira brasileira com o seu vistoso lema ORDEM E PROGRESSO. Mas que ordem é esta? Que democracia é esta que silencia a oposição e deseja desesperadamente que as Forças Armadas golpeiem o Estado de Direito?

Uma coisa é certa: quando a maioria silencia, este silêncio está anunciando aos berros a opressão.

MINHA PAIXÃO PELOS LIVROS E O DESPREENDIMENTO DE DOAR

Magru Floriano

Considero que comecei ler tardiamente. Ler de forma apaixonada, como uma pessoa que escolhe estar em companhia de um livro. Aos quinze anos de idade – tendo como referência o acervo da biblioteca do Colégio Salesiano – fui me iniciando na leitura como atividade de entretenimento, leitura espontânea, fora das obrigações escolares. Li de Platão a Aristóteles, passando pelo teatro grego; depois, li os clássicos do Renascimento seguindo uma trilha intensa e surpreendente. No caminho me apaixonei por Fernando Pessoa, Willian Shakespeare, Herman Hesse, Khalil Gibran, Lobsang Rampa, Jean-Jacques Rousseau, Victor Hugo, Jorge Amado … Essa paixão me levou a ter uma biblioteca com mais de cinco mil exemplares. Era o meu maior orgulho. Era a materialização da minha autoimagem de leitor.

Acontece que sofri drasticamente com as enchentes de 1983 e 1984 no Vale do Itajaí. Era morador do bairro de Cordeiros – Itajaí SC – e retirar os livros de casa foi um trabalho exaustivo. Na volta à normalidade tomei uma iniciativa drástica: antes de devolver os livros às estantes, resolvi promover uma triagem, ficando somente com os livros que: 1 – serviam como fonte de consulta aos meus estudos; 2 – tinha interesse em reler; 3 – continham alguma importância afetiva. O restante resolvi doar aos amigos e bibliotecas de escolas. O mesmo voltou a ocorrer quando me aposentei, em 2015, como professor da Univali. Resolvi doar aos amigos todos os meus livros técnicos de Comunicação Social, assim como livros que utilizava para lecionar Sociologia, Sociologia Brasileira, Filosofia, História da Educação. Doei de Paulo Freire a Antônio Gramsci; de Celso Furtado a Hannah Arendt.

Atualmente, tenho uma biblioteca geral com menos de quinhentos títulos e uma coleção de livros de autores da Região da Grande Itajaí que ultrapassa a casa dos dois mil exemplares. A minha biblioteca, então, passou por três estágios bem distintos: no início ela era uma biblioteca com títulos gerais, com predominância dos livros que comprei como acadêmico dos cursos de Biblioteconomia, História, Direito e Pedagogia, além dos livros dos meus clássicos preferidos; em um segundo momento, já como professor universitário, predominavam títulos técnicos, indispensáveis para o preparo das minhas aulas; atualmente, a tônica é para a minha coleção de autores do Baixo Vale do Itajaí.

Acontece que como administrador da página no Facebook ‘Itajaí de Antigamente’ recebo muitas doações de livros de autores da região. Então, eu faço uma triagem e mantenho uma boa relação com os amigos nessa atividade de doar e receber doação de livros antigos. No final do ano de 2022 cheguei a receber quase uma centena de livros. Na triagem, fiquei com cerca de trinta títulos e, os demais, doei para amigos que também são colecionadores de livros de Itajaí, como é o caso de Eliezer Patissi, Carlos Guerios e Dolor Silva. A ideia é estimular outras pessoas a também colecionarem livros de autores da região, formando uma rede de colecionadores de livros de Itajaí. De minha parte, tenho o sonho de criar o MUSEU DO LIVRO, onde pesquisadores e leitores poderão encontrar todos, absolutamente, todos os livros escritos em Itajaí e/ou por itajaienses. Na minha avaliação não falta muito para completar este acervo. Entre as faltas, destaco um exemplar do ‘Anuário de Itajaí para o ano de 1924’, um ou outro livro de Lausimar Laus, Arnaldo Brandão e Marcos Konder.  Na medida do possível empreendo um bom esforço em adquirir as novas obras publicadas, mantendo o acervo o mais atualizado possível.

O bom de receber livro em doação e, também, de doar, é que você tem a oportunidade de colocar os exemplares em mãos de pessoas que sabem dar valor a eles. No caso dos livros técnicos que tinha em minha biblioteca, fiquei muito feliz por doá-los a professores que terão neles uma base de consulta rápida. Aposentado da docência, não fazia mais sentido tê-los em casa. A doação, portanto, teve como referência o objetivo de utilidade. Meus livros técnicos são mais úteis nas casas de professores que estão na lida. Fico feliz de saber que eles estão sendo lidos, consultados, emprestados.

O ato de doação de um livro, vale destacar, não é um simples ato de se desfazer de um objeto sem valor que está atrapalhando seu cotidiano, um estorvo, um lixo dentro de casa. Muito pelo contrário, a doação é um ato de desprendimento, porque você considera que o livro tem um determinado valor, mas, que mesmo assim deve seguir seu caminho sendo mais útil em mãos de outras pessoas. Na contramão dessa paixão pelos livros tem aqueles que jogam livros na lata do lixo reciclável como joga uma garrafa vazia de vinho. Para a felicidade dos colecionadores e apaixonados por livros, nos dias atuais, os catadores de papel já têm consciência do valor econômico desses exemplares e a maioria absoluta deles acaba nas prateleiras das livrarias especializadas em livros usados, nossos tradicionais sebos.

CRIATIVIDADE ARTÍSTICA E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Magru Floriano*

Nos últimos tempos tive diversas oportunidades em ouvir falar de programas que estão utilizando AI – Inteligência Artificial – para desenvolver inúmeras tarefas no mundo digital, algumas delas no campo das artes. Mais recentemente ouvi falar do ChatGPT e, aproveitando a experiência em computação do meu filho Thiago Floriano – Analista de Sistema – resolvi dar algumas tarefas ao robô inteligente, testando fundamentalmente sua capacidade criativa. Fiquei impressionado com a rapidez das respostas e o potencial criativo de todo o sistema. Como não poderia deixar de ser, também fiquei um pouco assustado, pensando no futuro da arte com essas máquinas aprendendo a realizar obras autorais.
Das diversas tarefas solicitadas, por incrível que pareça, só avaliei como inválidas duas respostas: a primeira, foi a resposta dada à questão ‘Quem é o fundador do Município de Itajaí/SC?’ Considero a hipótese do ChatGPT ter misturado informações da Itajaí – em Santa Catarina -, com uma localidade no interior da Bahia que também responde pelo mesmo nome; a segunda, foi a resposta à questão ‘Quem é o escritor Magru Floriano’. Nesse caso, perdoei o robô por não me conhecer. Afinal, ele é jovem e não lhe faltará oportunidade para isto.
De resto, chega a ser assustador o nível de resposta que o robô forneceu. Pedi para escrever uma poesia sobre ‘tempestade’ e em segundos enviou uma extensa poesia com rimas: ‘O céu se torna escuro e cinzento / O vento sopra forte e violento / Os raios rasgam o firmamento / E a chuva cai sem cessar um momento …’. Pedi para refazer incluindo a palavra ‘escuridão’ e recebi um poema com o seguinte final: ‘E assim, a tempestade passa / Deixando a paz que não se esvai em massa / E o mundo retoma sua trajetória / Guardando na memória a força da Escuridão’.
Resolvi sofisticar um pouco mais a minha relação com o ChatGPT e apresentei a ele a seguinte questão: ‘Escreva variações deste verso mantendo a ideia original: Quando a opressão se impor a arte será liberdade’. Ele me enviou a seguinte resposta em segundos: “Quando a tirania prevalecer, a arte será nossa libertação. / Quando a censura nos calar, a arte será nossa voz. / Quando a opressão nos desumanizar, a arte será nossa humanização.” Também pedi para ele escrever um novo poema a partir desse verso. Respondeu: “Como um gripo que ecoa pelos ares / Como um sopro que liberta mendes / Como uma luz que ilumina caminhos / A arte será a nossa força, a nossa resistência.”

Em seguida solicitei que escrevesse uma mensagem de parabéns pela passagem do Dia Internacional da Mulher para que pudesse enviar à minha esposa e ele respondeu em tom de intimidade: ‘Claro, aqui está uma sugestão de mensagem: Querida Sílvia …”. Depois, resolvi propor uma tarefa um pouco mais complexa e pedi o roteiro de um curta-metragem tendo como tema a busca por ouro no Vale do Itajaí. O início da resposta é surpreendente: “CENA 1: PLANO ABERTO – MONTANHAS DE ITAJAÍ – Vemos as montanhas de Itajaí, em Santa Catarina, envoltas em uma leve neblina. A câmera se aproxima de uma montanha específica, o Monte Taió, onde se diz que há muitas riquezas escondidas”.
Para completar o teste propus tarefas um pouco mais burocráticas: ‘Escreva uma legenda para uma foto do Museu Histórico’ e ‘Altere as hashtags para usar no site História de Itajaí’. Ambas as respostas foram muito satisfatórias.
Como despedida do nosso primeiro encontro pedi algo que, sinceramente, não esperava que ele respondesse. Propus: ‘Faça uma receita de tainha recheada com pinhão’. Ele além de me oferecer uma receita sofisticada, apresentou todos os passos necessários para a atividade e, no final, disse: ‘Bom apetite!’.

No final de tudo fiquei com a sensação de que estava sentado em um sofá no meio da rua. Algo estava fora da ordem …
Obs: texto publicado na revista ‘Sopa de Siri’, maio 2023, nº 250, pag. 27.

NOVAS ESTRATÉGIAS DE DOMINAÇÃO DE MASSA

Ninguém tem mais dúvidas sobre as mudanças que ocorreram no Brasil durante as eleições de 2022 no setor de comunicação social. Principalmente durante o período de propaganda eleitoral do segundo turno – mês de outubro – ficou claro para todos os estudiosos que está em evidência uma nova estratégia para se buscar o convencimento de grande parcela da população via instrumentos mediáticos, notadamente as conhecidas mídias sociais, como é o caso do Instagram, Facebook, You Tube, Messenger, TikTok, Twitter, Linkedln, Pinterest, WhatsApp, WeChat. O TSE concedeu, na última semana de campanha, nada menos do que 116 ‘direito de resposta’ à coligação de oposição no Horário Eleitoral Gratuito no rádio e Televisão.

Quem está provocando todas essas mudanças é a extrema-direita. Os pontos referenciais dessa estratégia midiática são os seguintes: 1 – produção em larga escala de fake news em estúdios; 2 – utilização da robótica para divulgação do material produzido; 3 – descredenciamento da imprensa convencional como canal de divulgação; 4 – utilização de redes de simpatizantes como replicantes automáticos dessas informações; 5 – rapidez na produção da informação para criar um círculo de produção/circulação/consumo de maneira que não haja tempo para checagem sobre a veracidade da informação; 6 – total impunidade para os replicantes e dificuldade extrema da justiça em alcançar as fontes originais das informações.

A todo esse mecanismo físico de rede acrescenta-se o discurso ininterrupto que visa o descredenciamento das instituições públicas e sociais como entidades avalizadas para interferir no processo. Congresso Nacional, Tribunal Superior Eleitoral, Supremo Tribunal Federal, mídias convencionais – televisão, rádio, jornal, perdem a capacidade de se apresentarem ao grande público como autoridades credenciadas para falar, opinar e orientar. Das instituições tradicionais sobra, para o grupo ideologicamente vinculado à direita, o discurso e o engajamento oficial das igrejas. Esse vínculo entre o discurso conservador e a igreja possibilita a atualização e avivamento de ideias superadas ao longo dos séculos, notadamente as que dizem respeito à condição da mulher na sociedade, liberdades individuais, direitos civis e estado laico.

A estratégia de inundar o ambiente com informações falsas/distorcidas produzidas em estúdios visa criar uma sensação de não se saber mais exatamente o que é verdade e o que é mentira. Com as instituições tradicionais desacreditadas, com a grande imprensa jogada no canto, em segundo plano, com a opinião do vulgo se sobrepondo à análise do especialista, com a religião rejeitando a ciência … temos um ambiente onde nada é passível de ser imediatamente detectado como fato/realidade ou falso/mentira. A ideia é confundir para reinar. Espalhar a mentira com tal intensidade que a verdade fique asfixiada. A pauta é sempre negativa, porque trata-se de estar sempre desmentindo, desfazendo, corrigindo. Há uma desconstrução da verdade/realidade e o estabelecimento do império da dúvida. Uma dúvida que acaba favorecendo quem pratica o mal porque solapa a autoridade das instituições.

A matéria-prima dessas informações criadas em laboratório são os próprios fatos, portanto, a ideia é sair da realidade para a distorção sistemática a ser reproduzida em grande escala. No segundo turno o candidato a governador de São Paulo – Tarcisio de Freitas – estava visitando uma escola na localidade de Paraisópolis – periferia da Grande São Paulo – quando a polícia trocou tiros com um grupo de marginais. Imediatamente a rede foi tomada por milhares de comunicados ‘urgentes’ assegurando que o candidato bolsonarista havia sofrido um atentado eleitoral. Não adiantou as grandes redes de televisão e rádio divulgarem a versão correta – identificando o episódio como ocorrência policial corriqueira – na rede correu como rastilho de pólvora a versão fake de que Tarcísio tinha sofrido atentado.

O mais interessante desse processo de divulgação de fatos distorcidos em estúdios é que as pessoas comuns que replicam o material disparado por redes robóticas não possuem qualquer compromisso em desmentir a informação depois de constatarem que tudo não se tratava de apenas mais um caso de polícia. Essas pessoas já estavam preocupadas em divulgar a mais nova fake news, a mais nova novidade, a próxima … e a vida segue.  Há pressa em se divulgar a informação truncada, mas não há qualquer compromisso ou interesse em desfazer o erro. Isso porque não se trata exatamente de um erro, já que a informação foi divulgada por tratar-se de material de interesse ideológico de campanha. A fake news é sempre uma informação que interessa ideologicamente a quem a replica. A essa pessoa não interessa se é verdade ou mentira, mas tão-somente se a informação está de acordo com seus interesses político-ideológicos. Não há compromisso com a verdade, mas com a campanha do seu candidato. Nesse ponto, há uma convergência de interesses entre quem produz a informação distorcida e quem a replica na rede.

As redes sociais viraram um grande monstro marinho ameaçando a livre navegação pelos mares democráticos. O Facebook conta com quase 3 bilhões de usuários, seguido pelo You Tube [2,56 bi], WhatsApp [2 bi], Instagram [1,45 bi], WeChat [1,25 bi], Messenger [1 bi], Tik Tok [970 milhões], Linkedln [830 mi]. Uma extensa rede internacional que faz a mensagem ser produzida em qualquer lugar do mundo para fugir da legislação local. O problema da interferência desse material internacional nas eleições brasileiras só não está sendo imensamente maior porque a Rússia invadiu a Ucrânia e, há um ano, colocou toda a sua inteligência interna a serviço da guerra. Estava previsto que aconteceria com o Brasil o mesmo que aconteceu na eleição entre Biden e Trump nos EUA, com um bombardeamento de informações oriundas da Rússia e países amigos visando interferir diretamente no processo eleitoral.

Por isso mesmo não é uma tarefa fácil às instituições combaterem essa prática predadora dos valores democráticos. Primeiro porque trata-se de material produzido por especialistas, gente que domina técnicas de comunicação de massa e sabe exatamente o que faz; segundo, há muito dinheiro disponível para estruturar a rede em nível internacional com uso da robótica; terceiro, a mensagem original é replicada por metade da população que se identifica com seu conteúdo; quarta, não há como colocar todos os replicantes sob a tutela da justiça obrigando imediatamente a correção do erro, criando um sistema de total impunidade; quinto, a própria justiça já foi anteriormente descredenciada/desacreditada como autoridade para interferir no processo. Os ataques sistemáticos ao TSE/STF fazem parte de toda essa lógica perversa que atenta contra o sistema democrático.

Mas qual a melhor estratégia para combater esse ‘gabinete do ódio’ produtor de uma infinidade de conteúdo distorcido visando solapar os alicerces democráticos? Não é uma tarefa fácil e ainda não se encontrou o antídoto ideal. TSE/STF, grandes mídias, ONGs, organizações internacionais … estão todos perplexos, desorientados, sem saber exatamente o que fazer para defender o sistema democrático sem utilizar medidas restritivas que possam, lá na frente, fazer com que o remédio aplicado em dose errada vire ele mesmo um grande veneno.

UM CATADOR DE PAPELÃO SALVANDO LIVROS

Catador de papelão na Praça Governador Irineu Bornhausen – foto Magru Floriano

 

Observo um catador de papelão andando pela cidade e fico imaginando quantos livros ele já salvou do lixo. Quantos livros, por suas mãos foram parar em sebos e bibliotecas particulares. As pessoas jogam coisas fora sem terem a minha preocupação em saber do seu valor de uso, muito menos ainda do seu valor histórico. Uma pessoa da família morre e os herdeiros, insensíveis, querem se desfazer rapidamente de todos os objetos pessoais sem valor aparente. Jogar fora é a única regra.

Por isso, há cerca de quarenta anos, me empenho muito em colecionar livros publicados na Região da Grande Itajaí. Meu acervo é composto por mais de dois mil volumes adquiridos principalmente em livrarias e sebos localizados entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, mas tenho muitos exemplares conseguidos junto a catadores de papelão e vendedores ambulantes, como é o caso do histórico ‘Chocolate’ – um homem analfabeto que vende livros no Mercado Velho. Também recebo muitos livros por doações feitas por amigos e conhecidos.

Atualmente, participo de leilões na Internet para adquirir livros em todo o Brasil e na Europa. São livros que fazem referência à história dos municípios da Foz do Rio Itajaí e, também, livros publicados por autores nascidos ou residentes nesta região. A biblioteca conta ainda com alguns originais manuscritos e centenas de exemplares autografados. O objetivo é criar o MUSEU DO LIVRO visando preservar as obras e memórias dos escritores locais. Com esse objetivo, participo de leilões na Internet, frequento sebos [livrarias de livros usados] entre São Paulo e Porto Alegre pelo menos duas vezes ao ano e, através do grupo no Facebook ‘Itajaí de Antigamente’ conto com doações de herdeiros de obras isoladas.

Foi assim, por exemplo, que consegui as obras raras ‘A pequena pátria’ – editada por Marcos Konder no ano de 1923 – doada pela Família Zaguini; e ‘História do Município de Penha’ – do consagrado historiador José Ferreira da Silva – conseguida junto a Carlos Guérios. Pela Internet adquiri recentemente, na Alemanha, o livro de Maria Rahle intitulado ‘Siedler am Itajahy’. O acervo do futuro museu também conta com a ajuda de muitos escritores e colecionadores. Os principais doadores de livros e peças históricas foram o colecionador Carlos Guérios – atual presidente da ACRI – Associação dos Colecionadores da Região de Itajaí, e, o escritor Isaque de Borba Corrêa, que doou, inclusive, muitos originais de seus livros. O empresário Dollor Silva doou recentemente o livro ‘Spies’ publicado nos EUA por Paula Schmitt.

A coleção conta com centenas de obras autografadas e com edições diferenciadas. O livro ‘Memórias de um menino pobre’ de Silveira Júnior, por exemplo, conta com cinco edições. No acervo do futuro museu também estão incluídas peças raras, como é o caso de guardanapos manuscritos do poeta Bento Nascimento; ‘edição-piloto’ de livros de Isaque de Borba Corrêa e Magru Floriano; manuscritos e textos datilografados de José Eliomar da Silva [Timbuca] e Irene Boemer; três livros ‘Celacanto’ com anotações de poemas inéditos do autor Bento Nascimento; dezenas de monografias apresentadas pelos alunos do Curso de Jornalismo da Univali; coleção de cartões postais e fotos – com destaque para imagens do porto de Itajaí; hemeroteca com milhares de jornais – inclusive jornais alternativos e um jornal manuscrito de 1940; coleção completa da revista Blumenau em Cadernos.

Entre os autores com maior número de obras no acervo do futuro museu encontramos: Cláudio Bersi de Souza – com 26 livros; Enéas Athanásio e Fernanda Mazetto Moroso – 25 livros; Magru Floriano – 23 livros; Isaque de Borba Corrêa e Saulo Adami – 19 livros; Marcos José Konder – 16 livros; Henrique da Silva Fontes, Silveira Júnior e Luigi Murici – 15 livros; Nilson Weber e Odilon Fehlauer – 14 livros;  Lausimar Laus e Marcos Konder – 13 livros; Rosa de Lourdes Vieira Silva – 12 livros.

Na lista de obras raras que ainda procura adquirir destaca o ‘Álbum fotográfico – descritivo da Praia de Camboriú’ de Silveira Júnior [1952]; Anuário de Itajaí – edições de 1924 e 1960; ‘Itajahy’ de Reis Netto [1920]. Entre os livros raros que já possuo em posso destacar ‘Os ideaes republicanos’ de Lauro Müller [1912] e ‘Anuário de Itajaí de 1959’ – autografado por Marcos Konder.

Por enquanto todo o acervo está guardado no meu próprio escritório, mas a ideia é criar o MUSEU DO LIVRO nos próximos anos, com ou sem o apoio do poder público. Alguns amigos já sinalizaram com o apoio do aluguel de um imóvel e a criação de um Instituto. Contudo, avalio que ainda é prematuro pensar na criação de uma entidade particular, porque o acervo pode muito bem ser assimilado por uma instituição já existente que tenha projeto de ampliação de suas instalações e acervos. O negócio é não ter pressa e continuar na missão de salvar os livros. Depois, o tempo dirá se realmente todo o acervo pode se transformar em um Museu do Livro e do Escritor.

MEMÓRIA: IMAGENS SOBREPOSTAS

Terreno baldio na Rua Alberto Werner ainda com a escadinha da frente da casa

Dia desses fui visitar o ateliê do artista visual Wenceslau Neto que, por coincidência, está instalado defronte do terreno baldio que abrigou a casa de meus avós maternos na rua Alberto Werner, bairro Vila Operária. Antes de entrar no ateliê do Wences, fiquei por um tempo admirando o terreno e botando a minha memória para funcionar. Junto com a imagem presente via instantâneos de imagens do passado. Era como se eu conseguisse ver tudo ao mesmo tempo, apesar de serem imagens que representavam fatos passados pelo longo período de sessenta anos. Fiquei imaginando que minha memória era uma cebola, com camadas sucessivas, uma sobreposta a outra de forma simétrica e harmoniosa.

Quando estava nos fundos do terreno, recordando detalhes da estrebaria que meu vô Doca mantinha no local [com sua carroça e carro-de-mola, a máquina de cortar traço para os animais, equipamentos de montaria e de encilhamento para os animais …. ] apareceram os amigos Luan, Álfabile Santana e Rômulo Mafra – que também estavam convidados para uma oficina no ateliê do Wences. Eles, curiosos, foram logo perguntando o que eu estava fazendo ali no meio do mato. Ato contínuo, expliquei que se tratava do terreno dos meus avós maternos e passei, de imediato, a relatar alguns fatos que ocorreram comigo naquele local.

Falei onde minha avó tinha o forno e o fogão a lenha para fazer pão, roscas de polvilho, polenta e musse de mamão com coco … e, numa pequena escadaria – que antes dava acesso à varanda da casa – sentei e comecei a relatar o que eu vivi, aos oito anos de idade, quando do velório, ali naquela casa, do meu tio Odílio Garcia. Fiquei um bom tempo apresentando detalhes e mais detalhes que me vinham à mente em forma de fotografias instantâneas. Ia, naturalmente, servindo-me das coisas da memória como se estivesse desmanchando uma cebola, camada após camada, misturando imagens e tempos. Ali naquele terreno eu revivi, ao mesmo tempo, sessenta anos sobrepostos uns sobre os outros de forma tão nítida que parecia estar diante da realidade concreta.

A memória tem essa característica interessante, de puder misturar tudo sem se perder a exata noção das coisas vivenciadas. Ali, entre os matos do terreno baldio, eu via carroças, carros-de-mola, cavalos, galinhas, forno de lenha, rosca de polvilho, conversas e sociabilidades em família, bolos de aniversários e o velório de um tio que se fez o grande herói de Itajaí. Tudo junto e misturado com uma nitidez que parecia real. No final, ao sair do terreno, resumi todas essas lembranças em uma única lágrima que escorreu vagarosamente por meu rosto de idoso.